Arquidiocese de Braga -
11 setembro 2013
A FÉ IMPULSIONA A CARIDADE
Discurso de abertura do XXVIII Encontro da Pastoral Social.
A FÉ IMPULSIONA A CARIDADE
ABERTURA DO XXVIII ENCONTRO DA PASTORAL SOCIAL
«Se tirarmos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós,
(…) e a estabilidade ficará ameaçada.» (LF 55)
Sem nenhuma espécie de juízos, podemos afirmar que a sociedade hodierna, fruto talvez duma impensada multiculturalidade ou duma reduzida compreensão da dinâmica da transversalidade das ideias e costumes, habituou-se a conviver com uma tremenda confusão. Nem sempre as coisas são claras e muitas vezes procura-se camuflar a identidade das coisas com uma ambiguidade preocupante. Parece que o medo se impôs com os seus tentáculos e nem sempre existe uma preocupação por discernir os autênticos conteúdos dos aspetos da vida a que fomos atribuindo nomes mais ou menos convencionais.
A Igreja corre o risco de mergulhar nesta mentalidade habituando-se a estruturar-se – nela própria ou no seu agir pastoral – sem consciencializar-se do verdadeiro significado das expressões que usa todos os dias e, particularmente, do dinamismo original e diferente de seu ser e agir. A Pastoral Social pode tornar-se um exemplo característico por não arriscar penetrar nos dinamismos que verdadeiramente a identificam e caracterizam. Importa, por um lado, responsabilizar-se para compreender e assumir a novidade dos tempos. Somos, porém, tempo e lugar mas a história será sempre prolongamento dum acontecimento único e irrepetível.
O Amor de Deus por todos os homens é eterno, com a capacidade de descortinar presenças novas através da história, sendo sempre um amor de salvação e libertação. O seu ápice e referência última estiveram na oferta do Filho único que amou a humanidade até ao fim. A cruz é o verdadeiro ícone desse amor encerrando um período e iniciando um outro. Aí o Amor dá-se e, respeitando a dignidade e liberdade humana, apela a que este evento salvífico se repita e prolongue nos tempos e lugares da Igreja e na vida dos discípulos.
O Papa Bento XVI, no encontro com as organizações da Pastoral Social, em Fátima, alertou-nos para este risco. “A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e fascinante, acaba por influir sobre o nosso modo de pensar, os nossos projetos e as perspetivas de serviço, com o risco de esvaziá-los da motivação da fé e da esperança cristã que os tinha suscitado”. A pastoral social deve, por isso, ser redescoberta nas suas últimas motivações da fé e da esperança na certeza de que só o amor permanecerá.
A urgência de respostas no cenário grave da atual crise socioeconómica, que sabemos ser também espiritual e cultural, não podem afastar-nos da verdade evangélica onde se propõe uma nova cultura do dar e do dar-se e onde se sublinha a paternidade de Deus geradora duma redescoberta consciente da presença de Cristo em todo o ser humano. Sem fraternidade nunca existirá dignidade e justiça e o mundo moderno necessita de descobrir o valor da mesma fraternidade vendo-a no agir quotidiano dos cristãos e na dinâmica sacramental das comunidades. O crente é membro duma comunidade onde vai tecendo elos de ternura, carinho, solicitude e partilha e compromete-se para que a mesma comunidade seja rosto de Cristo “a gastar a vida fazendo o bem”. Não se trata de mero assistencialismo nem mera substituição das responsabilidades das autoridades públicas assim, como nunca aceita a lógica do proselitismo pois a caridade é universal. A Igreja não pode deixar de ser expressão dum amor universal e gratuito que, síntese da fé, motiva para descoberta de caminhos novos onde esse amor deve ser visível. Dentro das comunidades? Sim. Nos contextos periféricos de muitas vidas. É o caminho novo a trilhar.
Os cristãos e as comunidades fazem muito. Só que conjugar a aliança entre a fé e a caridade deve conduzir a novos horizontes através dum discernimento sério sobre os lugares a privilegiar sabendo que o Papa Francisco aponta para as periferias. A fé é ousadia e a caridade faz compreender os caminhos a percorrer, aqui e agora. A Igreja não pode instalar-se em hábitos de esmolas generosas nem rotinas de instituições que se contentam com a dimensão humana do serviço da caridade.
O Santo Padre, no encerramento das Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro, deixou aos jovens três ideias: “Ide, sem medo, para servir”. Ir é movimento, é criatividade. O plural manifesta que não basta o trabalho individual perante as novas periferias. Só uma Igreja “estalagem” tratará das feridas tornando o amor dos cristãos “entrega gratuita e generosamente através da justiça e da caridade”. Tudo isto sem medo dos problemas pois não agimos sozinhos e, hoje dum modo particular, sem medo de mostrar que somos Igreja, trabalhando em comunhão com os outros mas sem perder o nosso perfil identificativo. Tudo expressando vontade de servir, na gratuitidade do amor recebido, e nunca de servir-se como facilmente descortinamos nos discursos de muitos, particularmente em determinadas épocas, e nas motivações que não nascem da fé.
Termino, augurando que estas jornadas tragam e reforcem a Pastoral Social da Igreja com a motivação exclusiva da fé. Cristo hoje percorre os caminhos dos diversos sofrimentos e carrega com eles para criar esperança numa sociedade desencantada e desiludida. Se Cristo está onde está o sofrimento, teremos de ir lá. Mas, nunca esquecer que, em dinamismo de fé, devemos deixar que Cristo opere nos cristãos e nas comunidades. Este é o contributo da Igreja para uma sociedade mais justa e igual.
Fátima, 10 de setembro de 2013.
† Jorge Ortiga, Presidente da Comissão Episcopal para a Pastoral Social.
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