Arquidiocese de Braga -
26 outubro 2013
A ORIGINALIDADE DA FÉ NA NOITE DA HISTÓRIA
Discurso de abertura do Conselho Arquidiocesano de Pastoral.
A originalidade da fé na noite da História
Conselho Pastoral
Os momentos que nos tocam viver, como Igreja e sociedade, podem ser interpretados como uma época de mudanças onde se aposta na alteração de ritmos ou costumes. Feitos com maior ou menor profundidade, trata-se sempre duma operação de verniz ou cosmética. Mergulhando na interioridade dos dinamismos históricos somos, porém, conduzidos a reconhecer que nos encontramos numa mudança de época. Pode parecer um jogo de palavras (época de mudanças ou mudança de época). Reduzir a uma atitude de mudar algumas coisas é sujeitar-se ao engano ou desilusão. Estamos, de facto, numa passagem para uma época nova de que ainda não compreendemos todos os contornos e dinamismos.
Se fixarmos os olhos na Igreja deparamos com uma comunicação social muito interessada em realçar as mudanças de atitude que estão a marcar a vida do Papa Francisco.
Este é admirado e aclamado por muitos por coisas inéditas ou fora do carril da história eclesial.
Não é esta a renovação eclesial que está em jogo. Teremos de nos aperceber do que deverá acontecer como verdadeira novidade. O Santo Padre é muito claro na entrevista dada à “Civiltá catolica” que tantos comentários suscitou por se terem fixado em pormenores parciais. Aí ele refere: “A nossa vida não nos é dada como um libreto de ópera onde está tudo escrito, mas é ir, caminhar, fazer, procurar, ver… Deve entrar-se na aventura da procura do encontro e do deixar-se procurar e deixar-se encontrar por Deus. É o essencial que os cristãos devem testemunhar para que outros reconheçam a importância e a necessidade de Deus na vida.”
Se estamos concentrados no trabalho e exigência duma celebração da fé, dum modo simples e belo, e reconhecemos como imperioso o redescobrirmos a importância e as novas dinâmicas da “iniciação cristã” não podemos ter outro ponto de partida. Na mesma entrevista o Santo Padre sublinhava. “A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: “Jesus Cristo Salvou-te”. O cristão é alguém salvo por Cristo e cada um deve poder proclamar Jesus Cristo salvou-me e as comunidades cristãs devem tornar-se lugares onde a salvação de Cristo se realiza e oferece.
Muitas vezes andamos desfocados e descentralizados. Corremos para as normas e preceitos, orientações pastorais e determinações. Alguns apegam-se à história como passado numa atitude tradicionalista e num esforço restauracionista. Outros prendem-se aos ventos atuais da história que nos fazem tergiversar à procura de novidades sem conteúdo e consistência. O Papa recorda este período quando afirma “A nossa fé não é uma fé-laboratório mas é uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-se como história, não como um compêndio de verdades abstratas”.
É esta fé história a acontecer, aqui e agora, na experiência e não só na afirmação duma verdade, do “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles”. É este acontecimento da presença de Cristo que nos reporta ao essencial e aponta o caminho na certeza de que a vida cristã terá de ser, sempre, uma iniciação. Não é uma simples etapa com tarefas a delinear e cumprir. Se ficarmos neste aspeto normativo continuaremos sem a profundidade do encontro de quem se deixa tocar por Deus que agarra, na liberdade, de modo que as intempéries e ameaças exteriores não conseguem remover este amor.
Queremos orientações concretas para que a nossa fé celebrada aconteça em assembleias que não respeitam só a tradição ou pretendemos comunidades abertas ao Espírito? Urge redescobrir e fazer descobrir o essencial e só assim teremos comportamentos e atitudes em todas as comunidades que exprimem a mesma e única fé que nunca será uma aventura individualista e meramente ritualista. Sei que esta atitude meramente ritualista é o que muitos pretendem – sacerdotes e leigos. Seremos capazes de discernir o novo deste tempo histórico tão complexo e enigmático mas, simultaneamente, profundamente repleto de esperança para a Igreja. É nova a era que vivemos. “Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuremos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia e coragem” (Papa Francisco). A fé é para dentro e para fora. Que o trabalho da Iniciação cristã seja esta aurora duma pastoral a partir da alegra presença de Cristo entre nós.
Apenas mais uma palavra. Se estamos num Ano Litúrgico e a trabalhar a iniciação cristã, teremos de reconhecer, permanentemente, que, somos Igreja no mundo. Aí os cristãos devem saber estar não para assistir passivamente à história mas para a construir na igualdade e fraternidade. Nada de humano nos pode ser estranho e a atual situação social do país deve colocar-nos em movimento. Há trabalho para fazer, denúncias de injustiças gritantes a levar às autoridades civis e compromisso na redescoberta de soluções dos problemas, quando vemos alguns políticos preocupados com o referendo à coadoção por casais homossexuais.
Aproveito para saudar todos os órgãos do poder autárquico, recentemente eleitos, e testemunhar a certeza duma Igreja comprometida com o bem comum, através duma vontade de dialogar sem nunca pretender privilégios mas querendo estar na história dos nossos povos, e num respeito pelo regime de separação, como sempre o fizemos. Olhemos para o nosso povo e mostremos o amor que lhe dedicamos com uma sincera convergência de sinergias que a todos beneficiará, particularmente os mais pobres e aqueles sem voz mas mergulhados em carências essenciais. Todos juntos seremos poucos para que a dignidade de vida não falte a ninguém.
† Jorge Ortiga A.P.
Conselho Arquidiocesano de Pastoral, 26-10-2013.
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