Arquidiocese de Braga -
31 outubro 2013
Pela arte, pela história, pelos homens e pela Igreja
Artigo do Presidente do IHAC, Cón. José Paulo Abreu, no âmbito dos 10 anos da Comissão Arquidiocesana dos Bens Patrimoniais.
A Comissão Arquidiocesana para os Bens Patrimoniais existe pelo simples facto de que as pessoas merecem respeito.
Na verdade, merecem a nossa admiração e tributo quantos, no passado, foram generosos e dotaram a Igreja (Diocese, Paróquia, Confraria ou Irmandade, outras associações…) de terrenos e edificados, para que a pastoral se pudesse desenvolver, para que o Evangelho se pudesse pregar, para que os fiéis conseguissem reunir-se, para que as celebrações fossem dignas, para que a caridade se tornasse operativa…
Daí que as alienações tenham que ser pensadas; os bens a alienar devidamente valorizados; as intervenções – restauros, conservações, ampliações, requalificações… - ponderadas. Daí que os registos de propriedade e os inventários sejam imperiosos.
Afinal, ninguém tem o direito de malbaratar, descuidar ou delapidar a generosidade dos antepassados, de quem somos herdeiros, tantos deles mais ricos de fé e grandeza de alma, que de pão.
É verdade. Todos conhecemos quem tenha sido capaz de encolher à mesa, ou de rasgar as mãos, “por (a)mor de Deus”, “por (a)mor á Igreja”, pela sincera e arreigada convicção de que, para Deus, o melhor.
O mesmo respeito pelos antepassados e pela história impõe cuidados e esmeros na hora de intervir nos recheios, ou simplesmente na tarefa de os preservar. Os retábulos têm uma história. As esculturas têm uma história. As pinturas têm uma história. E o mesmo se diga das ourivesarias, dos adereços litúrgicos, dos mobiliários, dos têxteis… Os gostos de cada um não são critério para intervenções, descaracterizações, atentados à genuinidade, alterações, socos no património.
Importará pensar-se que as coisas da Igreja devem ser cuidadas com tanto ou mais zelo do que cuidamos das nossas. E nós também não colocamos os nossos bens, a nossa casa, o nosso carro, o nosso relógio… nas mãos de um qualquer. Procuramos, certamente, o rigor, a competência, alguém que nos inspire confiança e saiba do ofício…
É ainda o respeito pelos antepassados e pela história que nos faz cuidar bem dos livros, litúrgicos, da história da paróquia, da vida das pessoas. Os nossos livros de assentos, sejam de nascimentos, de matrimónios, de confirmação, de óbitos, são, na feliz expressão do Papa Paulo VI, “pegadas da passagem de Deus pela história dos homens”. Descuidar os assentos, os ou livros que os condensam; descuidar o arquivo da paróquia; descuidar os livros da paróquia; significa falta de consideração pelos fiéis, pela história, por Deus, pelas Suas manifestações e presenças palpáveis, pela Sua ação contínua sobre esta terra.
E quando falamos de arquivos convém lembrar que se o histórico é importante (dispensa até colocações no sótão ou na garagem ou na adega), também o corrente o é. O arquivo corrente será o histórico de amanhã e terá a qualidade e a dignidade que nós hoje lhe dermos.
Acarinhar, visitar, promover os nossos Museus – eis outra forma de mostrarmos respeito pela história, pela cultura, pelos nossos antepassados, pela nossa itinerância crente. Nós até sabemos que as peças que neles se conservam nos falam, não apenas de arte, de ourivesaria, de valor material, mas de Evangelho e evangelização por meio das mãos dos artistas que nos materiais souberam colocar a sua fé, incentivos à virtude, nacos de Evangelho, exortações à santidade.
O IHAC (Instituto de História de Arte Cristãs), onde se integra a Comissão Arquidiocesana para os Bens Patrimoniais (esta a completar dez anos no seu atual figurino), tenta concretizar, em todas as suas componentes, o respeito pelos antepassados e pela arte de que temos vindo a falar.
Não por acaso, para além da referida Comissão (que cuida de tudo quanto diz respeito a registos, a aquisições e alienações de património e ainda de tudo quanto concerne a intervenções sobre o património ou a novas construções), integra no seu seio os Museus Pio XII e Medina, o Arquivo Arquidiocesano de Braga e um Gabinete de Restauro.
A tudo isso se junta o Gabinete de Atividades Culturais, que à ribalta tem trazido datas marcantes da história da cidade de Braga ou da Arquidiocese (500 anos do nascimento do Hospital de S. Marcos, IX Centenário de S. Geraldo…), ou figuras de relevo (como é o caso do Cón. Avelino de Jesus da Costa), ou iniciativas de impacto cultural (pense-se no recente Átrio dos Gentios e no próximo Congresso sobre os 450 anos do Concílio de Trento…).
A cereja no topo do bolo é o Centro Cultural Sénior, criado há meia dúzia de anos, convite à convivência, travão ao envelhecimento precoce, incentivo à aprendizagem contínua. Como se sabe, funciona no Centro Pastoral da Arquidiocese, à Rua de S. Domingos. Acolhe a senescência que se recusa a viver triste e sem horizontes. Obriga-se à aliança ente o viver mais… viver melhor!
Com e por tudo isto o IHAC funciona. E está feliz. Congratula-se, particularmente, com os dez anos de atividade da atual Comissão Arquidiocesana para os Bens Patrimoniais, que se tem revelado uma mais-valia no respeito pela arte, pela história, pelos homens e pela Igreja.
O Presidente do IHAC,
Cón. José Paulo Leite de Abreu.
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