Arquidiocese de Braga -
2 novembro 2013
FÉ, UM BEM DE PRIMEIRA NECESSIDADE
Homilia na celebração litúrgica dos Fiéis Defuntos.
Fé, um bem de primeira necessidade!
Homilia na celebração litúrgica dos Fiéis Defuntos
Experiência Humana
1. Esta semana enquanto via um jornal televisivo, saltou a notícia de uns técnicos da EDP, acompanhados por um forte dispositivo da PSP, que cortaram a electricidade a dezenas de casas no Bairro do Lagarteiro, no Porto, por atrasos no pagamento. Contudo, não pode deixar de me comover quando uma moradora de 51 anos, operada pela quarta vez a um joelho e sem trabalho, chorava perante o jornalista pelo facto de já não ter forma de pagar a luz, a qual já não é um bem de luxo como antigamente, mas um bem de primeira necessidade.
Liturgia da Palavra / Ano Litúrgico
2. Não querendo entrar agora em juízos morais sobre este assunto, ao celebrarmos a memória litúrgica dos fiéis defuntos, ocorre-me dizer que a luz da fé também é um bem de primeira necessidade. E porquê? Porque só ela nos oferece o acesso à vida eterna. Sem fé a vida torna-se um enigma. Ela é verdadeiramente uma luz que, a partir do interior, gera força e coragem, esperança e sentido para a vida.
Em Ano da Fé teremos de nos interrogar, no meio de tantas respostas alternativas, se acreditamos, com sinceridade e verdade, na vida eterna ou se damos por descontada esta pergunta essencial para as interrogações da vida, como uma peregrinação rumo a esta meta onde repousaremos, na alegria e na felicidade, para sempre.
Diante da pergunta inevitável da morte, Deus não responde com um discurso bonito, uma teoria científica ou uma filosofia, mas responde com a Ressurreição do seu próprio filho, Jesus, o qual foi a única pessoa no mundo que comprovou historicamente a existência de uma vida além da morte. Ele é o verdadeiro pão do céu que nos garante a vida eterna, como escutávamos no evangelho.
Logo, a esta fé que professa o mistério da ressurreição, sucede uma fé celebrada, dado que “em toda a liturgia cristã, o que se celebra e se vive é o mistério da nossa salvação realizado em Jesus Cristo”, como refere o programa pastoral da nossa Arquidiocese. [1]
Além disso, a celebração da fé tem de se tornar também numa autêntica celebração da vida, como compromisso de dar qualidade e dignidade de vida onde ela escasseia.
Fiéis Defuntos / Desafios Pastorais
3. Se ontem “celebramos a glória e a felicidade dos Santos, hoje, na continuação lógica daquela solenidade, desejamos recordar todos os defuntos para que, quer vivam na glória, quer vivam ainda na purificação (Purgatório), mediante o poder da nossa oração, alcancem também a vida eterna” [2] .
Daí que gostaria de fazer memória especial de todos os cónegos que marcaram a história desta Catedral, e de um modo especial, todos os arcebispos que me antecederam. A história de Braga foi construída como exigência da fé. Hoje são muitos os que prescindem desta verdade, mas nós recordamos e aceitamos o testemunho. A título de exemplo, recordo D. Diogo de Sousa que, com poucos recursos, abriu as muralhas da cidade de Braga, construindo extra-muros novos espaços que ainda hoje perduram, e deixando-nos o legado de continuar a zelar por esta cidade bela.
O seu testemunho é para nós um estímulo para abrirmos também as portas da nossa cidade e da nossa religião, de modo a que mais pessoas tenham acesso a este bem de primeira necessidade, que é a luz da fé.
Conclusão
4. Para terminar, diz-nos o Papa Francisco no n.º 57 da Lumen Fidei: «Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz.»
Por isso, mesmo que algumas forças da sociedade queiram cortar a luz da fé, que a Igreja transmite gratuitamente, não podemos ceder nesta missão, na certeza de que o amor de Deus nos fundamenta e, simultaneamente, nos obriga a abrir nesta cidade janelas de esperança!
+ Jorge Ortiga, A. P.
Sé Catedral de Braga, 2 de Novembro de 2013.
[1] Cf. Arquidiocese de Braga, Programa Pastoral 2013-14 / Fé celebrada, 12.
[2] D. Jorge Ortiga, Decreto pastoral sobre os dias 1 e 2 de Novembro, 2013.
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