Arquidiocese de Braga -
15 novembro 2013
500 ANOS AO RITMO DA CARIDADE
Discurso na sessão solene dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia de Braga.
500 anos ao ritmo da caridade
Discurso na sessão solene dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia de Braga
Uma saudação a todos vós, de um modo especial e pessoal, a Sua Excelência, Senhor Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, cuja presença nesta Sessão comemorativa dos 500 anos, interpreto como um reconhecimento sincero do trabalho das Misericórdias, de modo particular em Braga,
Há dias quando li-a o jornal de manhã, deparei-me com a citação de um Ministro do Governo que, parafraseando Francisco Sá Carneiro, dizia: «o Estado social é necessário que exista nas democracias modernas, é um Estado que deve estar preparado para ir ao encontro das necessidades mais exigentes das sociedades modernas, mas um Estado social que absorva a sociedade por completo, ou que tenda a absorver a sociedade por completo, é um Estado totalitário.» [1]
Ao reler esta frase, confesso que ela espelha na perfeição o receio de uma sociedade actual que teme perder a autonomia da sua liberdade, fraternidade e igualdade, que tantas vidas custaram aos promotores da Revolução Francesa do séc. XVIII.
Celebrar os 500 anos da Santa Casa da Misericórdia de Braga não é outra coisa senão o celebrar a presença de uma Igreja que, completando a ineficácia do Estado no apoio social às populações, sempre soube estar do lado do Homem, exercendo um carinho especial pelos mais pobres, marginalizados e abandonados da sociedade [2] .
Todos sabemos que, com base nas 14 obras de misericórdia, as Santas Casas foram uma ideia da Rainha D. Leonor que o Arcebispo D. Diogo de Sousa acolheu imediatamente para a cidade de Braga, mandando construir, posteriormente, a “Capela de Jesus da Misericórdia”. Nome paradigmático que coloca os cristãos a exercitar a misericórdia de Jesus no contexto das dores e carências.
Passados cinco séculos, o desafio da assistência social é cada vez mais primordial não só para a Igreja como para o próprio Estado. Por isso, gostaria apenas de recordar que a Igreja deseja ser uma aliada, e não uma subordinada ou muito menos uma adversária do Estado, na defesa da dignidade do ser humano. Mas, para tal, não basta somente o reconhecimento público por parte do Estado, como o comprova o recentemente prémio “Direitos Humanos” atribuído pela Assembleia da República à Igreja Católica, porque defendemos o princípio da subsidiariedade: que significa um reconhecimento efectivo duma aliança com vários intervenientes, onde cada um, na sua originalidade e identidade, cristã ou não, dá o seu contributo que verifica ser acolhido, respeitado e apoiado.
O partido político com o qual a Igreja mais se identifica chama-se “dignidade humana”, pois como nos instruiu o Papa Bento XVI: “a actividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo de maneira ideológica, nem está ao serviço de estratégias mundanas, mas é a actualização aqui e agora daquele amor de que o homem sempre tem necessidade, e que só Deus lhe pode oferecer.” [3]
A propósito, há um princípio fundamental da economia que diz o seguinte: “com o dinheiro não se brinca”. E se a comunicação social tem apresentado, nos últimos tempos, alguns casos de má gestão dos dinheiros públicos nalgumas instituições e empresas, a Igreja, por seu turno, tem mostrado sabedoria em saber gerir os poucos apoios económicos que recebe do Estado para financiar a sua acção social, pois como referia o Sr. Secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social, aqui em Braga, no passado mês de Setembro: “se não fosse a assistência social que a Igreja presta com os apoios do Ministério, o Estado gastaria três vezes mais se fosse ele a assumir esse encargo por si próprio”.
Nós bem sabemos, e termino, que o mundo não se constrói apenas com grandes governantes, grandes descobertas científicas ou grandes discursos musculados, mas também se constrói com pequenos e silenciosos gestos de humanidade. Neste dia de festa para a Santa Casa de Misericórdia e para a cidade de Braga, quero, por isso, louvar a Deus por ter inspirado tantas pessoas que, ao longo destes séculos, combateram o sofrimento e a pobreza com tantos simples gestos de humanidade, tal como nos tem ensinado o Papa Francisco.
Agradecendo a presença de Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, nesta evocação dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia, gostaria de lhe assegurar que a Igreja Católica, através da sua pastoral social e, particularmente, da acção das Santas Casas, continuará a ver os problemas humanos para lhes oferecer a generosidade gratuita de tantos, e interpretando o gesto do Arcebispo D. Diogo de Sousa, refundador da cidade de Braga, iremos destruir os muros do egoísmo que a circundam, para os alargar às diferentes periferias humanas que, infelizmente, proliferam e a que nem sempre se dá resposta.
+ Jorge Ortiga, A. P.
Santa Casa da Misericórdia de Braga, 15 de novembro de 2013.
[1] in «Jornal I, 7 de Novembro de 2013»
[2] Cf. D. Jorge Ortiga, Um património privado, mas ao serviço de todos. Discurso na sessão solene do Dia do Património das Misericórdias – Braga, 20 de setembro de 2013.
[3] Deus Caristas est, 31.
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