Arquidiocese de Braga -

22 novembro 2013

HÁ COISAS QUE NUNCA SE DESATUALIZAM

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Congresso da Santa Casa da Misericórdia de Braga nos seus 500 anos.

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Há coisas que não se desatualizam

Nesta saudação sei que irei trair o paradigma dos Congressos que habitualmente enveredam pela partilha das meticulosas investigações com os resultados inéditos que eles proporcionam. Espero que me relevem este atrevimento. Quero situar-me no mundo do elementar não porque reconheça a sua ignorância por parte dos presentes mas porque reputo algo de essencial numa sociedade dita evoluída mas que perdeu coordenadas essenciais.

Há dias referia que D. Diogo de Sousa, verdadeiro refundador de Braga e fundador da Misericórdia, dedicou a capela que mandou eregir a Senhor da Misericórdia. Trata-se, assim o entendo, duma devoção e duma interpelação. Pretendia que aí resplandecesse o rosto de Cristo na sua expressão majestática de Misericórdia mesmo que aí fosse, ou seja, ainda, venerado como o Senhor “Ecce hommo” ou o simples Senhor da Cana Verde. A interpelação para mostrar o rosto misericordioso de Cristo teria uma casa; era a Santa Casa, como lugar onde se redescobria e propunha as variadas expressões do mesmo rosto. Proposta feita em sermões ou procissões mas sobretudo em obras. Não bastavam os discursos mas tudo passava ou devia passar para a vida. Deveria ser uma Casa, expressão do rosto misericordioso de Cristo e da Igreja Católico, mas Casa de Obras.

Celebrar os 500 anos da Santa Casa da Misericórdia é, assim, para mim momento para sugerir que, a partir do testemunho dado pelas Irmandades, se reaprenda a lógica das obras de Misericórdia como algo a saber e concretizar.

Não pretendo fazer catequese. Peço desculpa por querer mostrar a atualidade e a modernidade da síntese que a sabedoria da Igreja elaborou. Deixo de lado as chamadas Obras Corporais e rezo ou medito convosco a preciosidade dum programa de vida, sintetizado nas obras de Misericórdia Espirituais que não pode ser esquecido em casa, no emprego, na política, na profissão. Acredito que o rosto de Cristo em quem acreditamos ficaria mais resplandecente e sem rugas e a sociedade, também ela, teria um rosto mais belo e reconfortante, se as retirássemos do papel escrito dos catecismos.

- Numa sociedade marcada pelo relativismo, onde parece que tudo detém o mesmo valor, não teremos necessidade de, respeitosamente, “dar bons conselhos” sem receio de beliscar mas para reencontrar caminhos de verdadeiro humanismo?

- Quando a humanidade se persuadiu de ter conseguido dominar, pela técnica e progresso, todos os conhecimentos, não encontraremos, homens e mulheres, perdidos e sem sentido na vida a quem, graciosamente e elegantemente, poderemos “ensinar os ignorantes”, pois desconhecem verdades que lhes poderão ser úteis para a vida?

- A evolução da humanidade criou uma geração de auto-convencidos que não aceitam reconhecer o erro nos pensamentos e nas atitudes. Numa atitude, de condenar o erro e amar os que erram, não poderemos, cuidadosamente, “corrigir quem erra” com palavras qye exprimam muita ternura e carinho?

- Num tempo em que se prometeu tudo a todos assegurando a felicidade, verificamos que a tristeza se estampou no rosto dos familiares e amigos. Não seremos capazes de encontrar modos e maneiras de “consolar os tristes” com palavras de alento ou presença silenciosa que retempera e dá energias para recomeçar a viver com esperança?

- Conviver com os outros é sempre certeza de conflitos existenciais que se transformam em injúrias que magoam e ofendem. Só teremos os tribunais para julgar ou a indiferença para mostrar ou seremos capazes, com uma dose grande de fé, de “perdoar as injúrias” rasgando as páginas escuras que preenchem a nossa memória e nos incomodam como sentimento que emerge quando nos encontramos com essas pessoas?

- Se há injúrias que ferem, há silêncios que magoam e ausências que entristecem. A vida humana, nossa e dos outros, será sempre marcada pela imperfeição, mas, não ousaremos “sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo”? São muitas? São poucas? Dispondo-se a sofrer, o amor que dedicamos às pessoas vai eliminando as fraquezas.

- Se os outros mostram as suas debilidades, também nós não conseguimos com as nossas forças fazer quanto devemos na relação com os vivos e com os mortos. O crente tem sempre um tesouro para oferecer a todos e, sobretudo, a quem necessita materialmente ou espiritualmente. “Rezar a Deus por todos os necessitados, vivos ou mortos” é a última obra de misericórdia espiritual que mostra que, com Deus, dar bons conselhos, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer as fraquezas, são as obras que necessitamos de realizar. Estas não fazem barulho, não entram, habitualmente, nas crónicas da comunicação ou da história, mas que são humanas, e de extrema atualidade, ninguém ignora. Quem quiser pensar reconhecerá que são um antídoto para tantos males e até as nossas instituições teriam menos procura.

Há dias, quando visitei, com grato prazer e sentindo reconhecimento, o Centro Bento XVI, em Fátima, por gentileza de quem me conduzia, levaram-me a ver a imagem da Senhora da Misericórdia que a União das Misericórdias já me havia oferecido em edição de reduzidas proporções. Impressionou-me que tinha gravado no corpo as obras de Misericórdia Corporais e Espirituais e com os braços segurava bem alto o seu manto dando impressão de se elevar sobre as misérias humanas, para colocar nos recantos da sociedade portuguesa, a atualidade das obras de Misericórdia. Será utopia criar nas irmandades – das Santas Casas da Misericórdia e outras – como que uma escola onde se aprende a mostrar que o amor não é uma simples palavra? O mundo precisa de obras com alma de modo a mostrar a identidade das Instituições eclesiais. Daqui se poderia alargar a outras pessoas, criando uma escola de voluntariado cristão qual monumento à caridade?

Que essa Senhora sobrevoe esta sala e deixe nas nossas cabeças e corações este programa. Assim 500 anos não conseguem envelhecer a Santa Casa da Misericórdia de Braga.

Perdoem-me a catequese. Se fiz mal, irei confessar-me; se fiz bem, louvada seja a Senhora da Misericórdia.

Congresso da Santa Casa da Misericórdia de Braga nos seus 500 anos.

† Jorge Ortiga, A.P.

21 de novembro de 2013.