Arquidiocese de Braga -
25 dezembro 2013
UMA MONTANHA DE TERNURA
Homilia na Eucaristia de Natal.
Uma montanha de Ternura
Dos inúmeros contos de Natal na literatura portuguesa, Sophia de Mello Breyner seduz-nos com a história de uma menina que vivia sozinha até ao dia em que encontrou um amigo numa manhã de outubro, com quem passa a conviver, e que depois, no dia de Natal, descobre que esse amigo era o próprio Menino Jesus. Desse conto, há uma frase essencial, retirada de um diálogo, no qual alguém apresenta à menina a razão pela qual esse amigo não tem direito a um presente no Natal: “Porque é pobre. E os pobres não têm presentes.”
O menino do presépio de Belém não tem presente. Ele é o presente colocado à disposição de todos e hoje confiado à Igreja para que ela seja um instrumento que, devendo oferecer muitas coisas, se concentre no cuidado em oferecer uma pessoa. Esta é a grande originalidade da mensagem da Igreja proclamada desde Belém até aos dias de hoje.
O Evangelho de hoje relata-nos o momento em que Deus enviou o Seu filho a este mundo como a única verdadeira proposta de salvação de todos os homens. A antífona da missa do dia de hoje, retirada do profeta Isaías, diz-nos que este filho afinal não é só Deus mas também alguém como nós pois “nasceu para nós” (Is 9, 6). Nasce para se incarnar em todos os homens e mulheres tornando-os realizadores duma sociedade com critérios humanos mas com a marca de eternidade, como “casa de origem” desse verdadeiro Deus que quis caminhar com os homens para que atinjam a plenitude da vida. A primeira leitura anuncia-nos a chegada desse Deus libertador, que traz a paz e a salvação. A segunda, extraída da carta aos Hebreus, convida a humanidade a acolhe-lo e escutá-lo na pessoa de Jesus que é a Sua Palavra com valor “ontem, hoje de sempre”.
À luz destas verdades teremos de reaprender a celebrar o Natal. O seu significado desvirtuou-se deixando de ser a aurora dum mundo novo para tornar-se consagração de comportamentos impostos, por razões estranhas ao essencial. O que deveria ser gerador de alegria, em cada cristão e por intermédio destes noutros, é analgésico para alguns momentos de marcada tristeza e perplexidade. Gozam-se e saboreiam-se, sozinhos ou em companhia de familiares, e tudo volta aos caminhos dos enigmas e interrogações. Com o essencial, aconteceria um encontro com uma pessoa Viva (Cristo) a dizer-nos palavras pertinentes e oportunas para todas as circunstâncias da nossa vida.
O Natal é esta prenda de Jesus palavra que se torna alegria interiormente e na vida toda. Não se tratará da alegria da auto-satisfação de todas as vontades ou caprichos. Mas redescoberta do valor de todo e qualquer ser humano, acabando com aquilo a que o Papa Francisco chama de “globalização da indiferença”. “Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ou ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de ontem, que não nos incumbe”. A Alegria do Evangelho reside num comportamento que sabe estar comprometido com o bem comum.
Pessoalmente, começo a ficar ainda mais preocupado com o fenómeno da acrescida desertificação do interior. Aí, a emigração de pessoas em idade laboral continua a crescer e os idosos, por amor à terra ou apego a gostos pessoais, começam a experimentar um isolamento confrangedor. Parece que o índice de desemprego diminui pela redução de pedidos de trabalho nos Centros de Empregos, só que a fuga para outros destinos está a acelerar-se e não extraímos as consequências necessárias. O interior vai ficar com as suas belezas naturais e com os discursos da importância do turismo, mas continua a ficar sem o consequente apoio e estímulo para que seja realmente “bom viver” em regiões afastadas dos grandes centros urbanos.
Na mensagem de Natal, dizia que devemos descentralizar a nossa atenção, fixando-nos menos em nós e mais nos outros. Esta atitude mostra que acreditamos na força do valor do testemunho silencioso mas que também não devemos temer a denúncia ousada em defesa da dignidade de todos.
A propósito, é maravilhosa a descrição que o Papa Francisco faz do acontecimento do Natal. “Maria é aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Ela é a serva humilde do Pai, que transborda de alegria no louvor. É a amiga sempre solícita para que não falte o vinho na nossa vida”. Poderá parecer muito romântico e gerador dum sentido de utopia vazia. É Verdade. A solicitude pelos outros faz com que não falte o vinho da alegria para ninguém e o que parece um curral desprovido do indispensável para a vida pode tornar-se casa, desde que ofereça generosamente os poucos e pequenos paninhos, mas misturados com uma montanha de ternura.
O Santo Padre, noutro lugar da mesma exortação apostólica, explica como Jesus é o evangelho da alegria e como os seus discípulos devem tornar-se possuidores e dadores da mesma alegria. Trata-se de “chegar em primeiro lugar”, “envolver-se, identificar-se com os problemas, acompanhar, percorrer juntos caminhos de libertação”, “frutificar, gerar frutos evangélicos na sociedade”, “festejar, tornar a vida humana espaço de festa”.
O Menino Jesus do conto não tinha prendas materiais. Ele era a prenda que movia para celebrar o encontro com os outros e apostar na possibilidade dum mundo a nascer marcado pelo amor invisível que incomodará a classe daqueles que jogam com quem não pode usufruir do essencial.
Sejamos, como Maria, essa montanha de ternura.
† Jorge Ortiga, A.P.
Sé Catedral de Braga, 25 de dezembro de 2013.
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