Arquidiocese de Braga -
12 março 2014
VISÃO DO PAPA FRANCISCO
"É evidente que Francisco não morre por títulos, mas, se tivesse de eleger algum, este de «Papa do povo» estaria entre os candidatos, embora, talvez, acrescentasse: Sim, sou «Papa do povo», mas do «Povo santo de Deus". Uma análise ao primeiro ano do ponti
Multiplicam-se os títulos mediáticos da revelação do Papa Francisco - «Francisco, Papa do povo», «Francisco, o Papa que dá esperança», «Francisco, o Maradona da cristandade», «Papa Francisco, estrela pop», «Papa Francisco, o Barak Obama da Igreja Católica». Os títulos valem o que valem, mas não deixam de ser expressivos e significativos e, por vezes, emblemáticos. Na véspera de Natal de 2013, à tarde, num armazém de fruta, junto ao Mercado de Braga, um cliente repetia com entusiasmo: «É o Papa do povo! Sou católico e gosto do Papa Francisco! É o Papa do povo!». É evidente que Francisco não morre por títulos, mas, se tivesse de eleger algum, este de «Papa do povo» estaria entre os candidatos, embora, talvez, acrescentasse: Sim, sou «Papa do povo», mas do «Povo santo de Deus» ou, como líamos no Público (22.12.2013), Papa do «povo da graça de Deus, no qual, todos são sujeitos, em comunhão, na vida da Igreja».
«Povo de Deus»! É esta a figura ou imagem da Igreja preferida pelo Papa Francisco, da qual foi constituído pastor, «pastor do rebanho» e «pastor dos pastores». Na entrevista à Civiltà Cattolica (19.8.2013), confessa: «A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel de Deus. É a definição que uso mais vezes e é a da Lumen Gentium, no número 12». Mas, como é sabido, desde a sua eleição, reconhece que o título que melhor se ajusta à visão do seu ministério é o de «Bispo de Roma», não devendo ignorar-se a incidência que este título tem no reconhecimento da necessidade de «conversão do papado» («dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado», pois pouco se avançou no sentido de corresponder ao apelo de João Paulo II para se repensar o exercício do primado, considerando que «uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária» (EG 32). É evidente que nesta equação do «exercício do primado» pesa muito a decisão de tentar dar novos e decisivos passos no caminho ecuménico no sentido de corresponder ao pedido do Pastor Bonus de «que todos sejam um só» (Jo 17, 21; EG 244).
1. O «dedo» que aponta e o «objeto» apontado – Com a eleição do Papa Francisco, difundiu-se a sua alegórica «oração dos dedos». Servindo-nos da consabida metáfora do «dedo» que aponta e do «objeto» apontado, importaria advertir para o risco da fixação no «dedo» e da consequente ignorância da realidade apontada ou do encantamento com a voz e o gesto do Papa, sem consequências práticas. Pode temer-se que um exemplo de inconsequência das diligências do Papa seja o acolhimento que o «Questionário» do próximo Sínodo dos Bispos terá tido nas igrejas nacionais, regionais e locais.
O primeiro dos nove lotes de questões desse «Questionário» focaliza precisamente o problema do destino e dos destinatários dos «documentos do Magistério» da Igreja. É um direito e um dever dos fiéis ter conhecimento desses documentos. Estará esse direito efetivamente garantido e esse dever realmente assumido? Empenham-se os «pastores» e os «conselhos pastorais» em conhecer e dar a conhecer esses documentos? O Papa tem consciência do limitado conhecimento e da diminuta eficácia dos documentos do magistério universal da Igreja, como confessa na sua Exortação: «Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos» (EG 25). As igrejas nacionais (Conferências Episcopais) e as igrejas locais (Conselhos Pastorais) têm grave responsabilidade no facto de os documentos (ensinamentos) do magistério universal da Igreja não serem «ensinados» pelos responsáveis e «aprendidos» pelos fiéis!
2. A «visão» do Papa Francisco – A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium tem como diferença específica, relativamente a anteriores Exortações pó-sinodais, a marca «programática» do Papa Francisco. Assim foi concebida e assim tem sido geralmente lida e apresentada: como «programa» pastoral do Papa que veio «quase do fim do mundo». A palavra «programa», no entanto, se entendida em sentido estrito, parece curta para significar o tesouro de «coisas novas e velhas» que nesta arca ou neste quadro o Papa Bergoglio quis representar e mostrar à Igreja e ao Mundo.
Normalmente, as Exortações pós-sinodais atêm-se às conclusões dos Sínodos. Acontece, porém que, nesta, o porta-voz do Sínodo foi bem mais do que apresentador e redactor. Foi tradutor e, como tradutor genial, foi recriador, potenciando «a riqueza dos trabalhos do Sínodo» com a consulta de «várias pessoas» e, sobretudo, com as «preocupações» que o movem «neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja» (cf. EG 16).
Ao assinalar-se que a palavra «programa» pode ser curta para significar o potencial de luz e de energia contido na Exortação papal franciscana, quer-se dizer que um «programa» ou um «planeamento estratégico» que não decorram de uma «visão» panorâmica e rasgada da realidade em causa está condenada à mediocridade e ao insucesso. A «visão» é a alma do «programa» e do «planeamento» e se assim é no simples domínio programático da «gestão» institucional, é muito mais verdadeiro no processo imenso da «evangelização», da «primeira» ou do Kerigma, como da chamada «nova evangelização», fórmula criada por João Paulo II e que o Papa Francisco usa nove vezes na Exortação, apesar de parecer preferir falar de «uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo», pois «na realidade, toda a ação evangelizadora autêntica é sempre “nova”» (EG11).
Neste documento fundador do seu ministério eclesial o Papa Francisco plasma de forma cristalina e dinâmica a sua «visão» ou o seu «sonho» da Igreja e do Mundo. Que Deus ama. Vê e sonha uma Igreja em «”estado permanente de missão”, em todas as regiões da Terra» (EG25).
3. Da «introversão eclesial» à «conversão» - Para «não deixar as coisas como estão» (EG25), para superar o estado de «introversão eclesial» (EG 27), o Papa Francisco fez-se exemplo de um imenso apelo à «conversão». Sintomático da «visão» eclesial do terceiro Papa do século XXI é que, nesse apelo à «conversão», a predilecção pelos «pobres» seja parte integrante: «A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza são exigidos a todos» (in EG201). Reconhecendo que, neste imperativo de mudança de mentalidade eclesial, deve dar o exemplo, o Papa Francisco encetou já, e com que intensidade, o processo de «conversão do papado» (EG32), como já deixámos assinalado.
Para tentar superar esse estado doentio de «introversão» e de fixação, nomeadamente nas «questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contacetivos» (entrevista à Civiltà Cattolica), como nas questões candentes da «pedofilia» e da «lavagem de dinheiro», o Papa Francisco, preferindo a atuação proativa à reativa, lança um apelo a todas as estruturas eclesiais no sentido de «avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária…» (EG25), mostrando o rosto da Igreja com que sonha: «uma Igreja Mãe e Pastora». Este apelo é feito a toda a Igreja, a todo o Povo de Deus, mas os que exercem o ministério de «pastores» encontram na Exortação do Papa inspiração e instrumentos verdadeiramente luminosos para aquela verdadeira «revolução» pastoral, a «revolução da ternura» de Deus, para a qual é necessário «um coração terno e não ácido como o vinagre» (Encontro com os Superiores Gerais das Ordens religiosas, 29.11.2013).
4. O «Hipopótamo» do Papa Francisco – É evidente, para crentes e não crentes, que cada sucessor de Pedro, na comunhão e na missão da Igreja, imprime a sua «marca» e modela o seu magistério e ministério a seu modo e segundo a sua singular personalidade, mas também segundo os «sinais do tempo» histórico em que lhe é dado viver e agir. As gerações atuais têm memória da singularidade pontifícia de Pio XII, de João XXIII, de Paulo VI, de João Paulo I, de João Paulo II e, ultimamente, de Bento XVI e do atual Papa Francisco. E facilmente reconhecem as «pegadas» de cada um. Vendo as «marcas» dos últimos três papas, reconhecem que João Paulo II encheu os «olhos» do corpo e da alma de milhões de crentes e não crentes, em todos os continentes; que Bento XVI falou e continua a falar à «inteligência» dos crentes que cuidadosamente procuram saber e dar as razões da sua fé; que o Papa Francisco fala ao «coração» da Igreja e do Mundo, preocupado com os «sinais» de morte e desespero que lhe anuviam o rosto, feito para sorrir, mas assombrado e ensombrado com o sinal vermelho da «estatística que diz que morrem de fome cerca de 10 mil crianças por dia em todo o mundo» (Entrevista a La Stampa, 10.12.2013).
«Sinais» como este impelem-no, como «profeta» que é, a denunciar a «ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano», a condenar a «globalização da indiferença», a compadecer-se com o «drama dos emigrantes», mas também a sofrer com o mal que está dentro da Igreja e que muito deve ter pesado na decisão iluminada e admirável da «renúncia» de Bento XVI. Mas, em vez de se demorar em diagnósticos morosos e olhares sociológicos, perdendo-se em análises explicativas e exercícios hermenêuticos, o Papa Francisco prefere, subsumindo a denúncia no anúncio, subsumindo o diagnóstico e a etiologia da doença na terapia apropriada e urgente, seguir o caminho que Deus apontou ao pobre Job, destroçado pelo Mal que o consumia, desafiando-o a «olhar de frente para…um hipopótamo. “Vê o hipopótamo que criei como a ti…[…] é a obra-prima de Deus…, ninguém se atreve a provoca-lo”.» E o teólogo-poeta Tolentino Mendonça conclui: «”Olha de frente tudo o que é grande” – é o desafio que Deus faz a Job. […] Job queria desvendar a dobra do Mal e esquecia-se que é o Bem o gigantesco segredo, o impensável desígnio da Graça que nos visita.» (Obrigado a quem, neste Natal, me ofereceu O Hipopótamo de Deus, de José Tolentino Mendonça).
Ainda é muito cedo para os contadores da História fixarem o que será o legado do Papa Francisco, mas os «sinais» são de molde a permitir pensar que serão verdadeiramente estelares as «marcas» do caminho que parece querer desbravar para esta nova etapa da vida da Igreja e do Mundo, neste tempo dito de «crise» e que ele porfia em dizer que é de «esperança».
José Marques Fernandes.
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