Arquidiocese de Braga -
20 abril 2014
UM CURSO DE ENGENHARIA APOSTÓLICA
Homilia de D. Jorge Ortiga no Domingo de Páscoa.
Um curso de engenharia apostólica
Homilia no Domingo de Páscoa
1. Experiência Humana
Há um apontamento litúrgico que sugere que não usemos flores nos altares durante o tempo da Quaresma. Ao celebrarmos hoje o dia “maior” do ano, dia da Ressurreição, “dia que o Senhor fez”, a liturgia volta a recomendar o uso de flores. Por isso, ao olharmos o jardim da criação, há uma flor típica que os primeiros cristãos usavam para descrever a nostalgia deste dia: o girassol. Pois “tal como o girassol gravita sempre em torno do Sol, também a nossa vida gravite em torno de Cristo Ressuscitado”.
2. Liturgia da Palavra
Ao escutarmos o evangelho de hoje, registamos como Maria Madalena, ainda no escuro da noite, vê o túmulo aberto onde Jesus tinha sido sepultado. Embora o túmulo esteja aberto, isso não significa que esteja vazio, muito pelo contrário: ele está cheio de sinais que precisam de ser decifrados e que remetem para uma presença e uma luz nova.
Aliás, o que distingue a Ressurreição de outros factos históricos é que esta só é visível e decifrada apenas com os olhos da fé.[1] E tal como Madalena, a nossa excessiva superficialidade ou racionalidade impede-nos muitas vezes de “ver” a veracidade da Ressurreição de Jesus.
Aos olhos dos pagãos, que viviam numa cultura racional, era uma loucura que um deus morresse numa cruz. Aos olhos dos judeus, era um escândalo que o enviado de Deus, mesmo que tivesse de sofrer, realizasse um sacrifício desagradável ao próprio Deus, morrendo numa Cruz. Mais tarde, aos olhos dos muçulmanos, que até reconhecem Jesus como um grande profeta, era inaceitável um profeta morrer daquela maneira, de tal modo que o Alcorão afirmava que foi um outro homem que foi crucificado em sua vez. Mas aos olhos dos cristãos, a Cruz é a prova de que o amor vence a morte.[2]
Um outro pormenor interessante do evangelho é o facto de Pedro não completar o “curso de engenharia apostólica” de Cristo, pois, em vez de estar com Cristo durante a Sua Paixão, preferiu fugir e juntar-se à multidão, deixando assim para trás algumas unidades curriculares que lhe permitiriam terminar com excelência aquele curso. E por isso, ele agora corre em direcção ao sepulcro, não à frente, mas atrás do discípulo amado: amado, porque completara com excelência o curso de apóstolo e, desse modo, “corre mais depressa” até Jesus.[3]
3. Sinais dos Tempos/Desafios Pastorais
Diante desta passagem bíblica, é verdade que nós muitas vezes até vivemos os valores cristãos, mas abandonamos Cristo, desligando-nos da fonte. E o curso de discipulado não é outra coisa senão um curso intensivo de amor, enquanto entrega radical de si aos outros. E o local por excelência para saborearmos este amor é dentro do núcleo familiar.
Infelizmente, nós sabemos que a denominada “família tradicional”, composta por um pai, uma mãe e os respectivos filhos, encontra-se hoje fracturada em novos modelos familiares, gerada sobretudo pelo cancro do divórcio. Na exortação apostólica Familiaris Consortio, publicada a 22 de novembro de 1981, o Papa apresenta assim uma reflexão sobre a função da família cristã no mundo de hoje, encarregando-a de quatro deveres, a saber: a formação de uma comunidade de pessoas, o serviço à vida, a participação no desenvolvimento da sociedade e a participação na missão da Igreja. É inquestionável o valor que o Santo Padre atribui-a à família, considerando-a mesmo um dos bens mais preciosos da Humanidade e desafiando-a a ser uma autêntica Igreja Doméstica, na qual se experiencia o amor. E como somos tão pequenos em comparação com o amor que Deus tem para oferecer a cada um de nós.
A família não é uma amálgama de pessoas com afinidades. É um jardim florido a cultivar e a preservar constantemente, na certeza de que também aí acontecem as palavras de Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt 18,20). E a Ressurreição de Cristo também acontece hoje quando ele se faz presente no seio familiar.
4. Conclusão
Por isso, peçamos então ao Senhor que nos conceda a “alegria do amor”, para fazermos da nossa família uma escola que forma verdadeiros apóstolos de Cristo, os quais, tal como o girassol, gravitam sempre em torno do Ressuscitado.
+ Jorge Ortiga, A.P.
20 de abril de 2014.
[1] Cf. Tomas Halik, Paciência com Deus, 194.
[2] Cf. Enzo Bianchi, Jesus de Nazaré. Paixão, morte e ressurreição, 64-65.
[3] Cf. D. António Couto, Quando Ele nos abre as Escrituras, 104.
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