Arquidiocese de Braga -

6 maio 2014

VOCAÇÃO, CAMINHO DE FELICIDADE

Fotografia

Se perguntarmos às crianças, aos adolescentes e à grande maioria dos adultos para que vivem, qual é o objectivo da vida, a resposta quase unânime é sem dúvida: “Ser Feliz!”. Duvido que, pelo menos num primeiro momento, coloquem o objectivo da suas vidas f

\n

1. Ser feliz ou ser útil?

“Nomeio minha herdeira universal a juventude do mundo. (…) A minha vida aproxima-se do fim, por isso sinto ainda mais o imperioso dever de repetir: somente com amor salvaremos a humanidade e ainda: a pior desgraça que vos pode acontecer a vós, jovens, é não serdes úteis a ninguém e que as vossas vidas não sirvam para nada, não aproveitem a ninguém. O tesouro que vos deixo é o bem que deixei de fazer, que gostaria de ter feito e que confio que vós fareis depois de mim” (Raoul Follereau, Testamento Espiritual)

Este homem, oriundo de família abastada, nasceu em França no ano de 1903 e, desde jovem, elegeu um mote para a sua vida: «Viver, significa ajudar … Ser feliz é fazer os outros felizes!». Um dos grandes ícones dos anos 60, dedicou toda a sua vida e fortuna a erradicar a lepra. Muito foi o que fez, mas, como ele próprio reconhece no seu testamento, muito há ainda que fazer.

Se perguntarmos às crianças, aos adolescentes e à grande maioria dos adultos para que vivem, qual é o objectivo da vida, a resposta quase unânime é sem dúvida: “Ser Feliz!”. Duvido que, pelo menos num primeiro momento, coloquem o objectivo da suas vidas fora de si, buscando ser úteis à sociedade e produtivos, de modo a que deixem no mundo mais do que o que tiraram dele.

2. Ser feliz é sentir-se bem?

Os cientistas James Olds e Peter Milner inventaram uma máquina que envia um pequeno impulso eléctrico para os centros do prazer situados no nosso cérebro, ao premir um botão. Experimentada com ratos, estes em pouco tempo habituaram-se a apertar o botão de uma forma repetitiva e compulsiva, própria da adição; e quando, mesmo depois de um dia sem comer, eram confrontados com os botões da comida e do prazer directo, eles elegiam o do prazer directo.

A experiência foi feita com uma grande variedade de animais e a resposta era sempre a mesma em todos eles; a estimulação eléctrica directa dos centros de prazer era irresistível e todos ficavam adictos à sensação prazenteira. A experiência foi feita com um humano que teve de ser desconectado ou morreria de prazer….

Se a felicidade, sentir-se bem, é o objectivo da vida, porque escolher um caminho longo e árduo, para obter tal fim, se podemos lá chegar por um atalho e de uma forma mais barata? Podíamos criar um “genérico” da máquina de James Olds e Peter Milner, algo assim como o electrodoméstico da felicidade ao qual todos tivessem acesso. 

A ideia parece-nos descabida, mas, na realidade, essa sensação prazenteira sentida no cérebro e que pode ser provocada artificialmente, é o que a maior parte das pessoas buscam de uma forma mais ou menos sofisticada, como mais ou menos recursos, quando o objectivo da vida é ser feliz, e por felicidade se entende sentir-se bem.

Para muitos a ideia de felicidade, de facto, é possuir muito dinheiro, ser ricos para poder satisfazer todas as suas necessidades e caprichos. Se a felicidade dependesse das riquezas materiais todos os ricos eram felizes e todos os pobres seriam infelizes; bem sabemos que não é assim, há pobres felizes e ricos infelizes. 

O Psicanalista Erich Fromm já nos tinha de facto alertado que “a satisfação ilimitada dos nossos desejos não produz bem-estar, não é o caminho para a felicidade e nem sequer é um meio para atingir o máximo prazer”. O mestre de Erich Fromm, Sigmund Freud, define maturidade humana como a passagem do princípio do Prazer para o princípio da Realidade

O caminho da felicidade não é a satisfação de todos os teus desejos e caprichos mas sim ser útil aos outros. Se comparamos as duas afirmações: “Eu quero ser feliz”, “Eu quero ser útil” damo-nos conta que a primeira é egocêntrica e a segunda é altruísta; quando eu quero ser feliz eu estou a pensar em mim mesmo; quando quero ser útil eu estou a pensar nos outros. 

A felicidade quanto mais se busca menos se encontra porque esta é o efeito secundário, ou o feedback do nosso contributo para a felicidade dos outros. Como ninguém se salva sozinho, ninguém pode ser feliz sozinho, a nossa felicidade individual passa pela felicidade dos outros. “Há mais alegria em dar que em receber. (Actos 20, 35).

3. A tua vida não é acerca de ti!

“Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10, 45). “Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22, 27)

Ninguém perguntou a Jesus qual era o objectivo da sua vida mas se o tivessem feito, acima está a resposta que Ele daria.  A minha vida para os outros é um valor absoluto, mas para mim é um valor relativo; absoluto para mim é a razão pela qual eu vivo, porque a minha vida não é acerca de mim; se eu fosse a razão da minha própria vida viver seria sobreviver ou seja manter as funções vitais preservar a vida. Mas esta não é a verdade da vida; a vida é tempo e energia dedicados a uma causa.

A vida de Beethoven foi acerca da música; a vida de Picasso foi acerca da pintura; a vida de Einstein foi acerca da física; a vida de Nelson Mandela foi acerca da igualdade entre brancos e pretos. A vida de Jesus filho de Deus foi acerca da salvação da Humanidade.Ninguém é mais feliz que aquele que é útil e ninguém é mais útil que aquele que ama e entende que amar é querer e buscar o bem dos outros. A nossa vocação é uma das muitas formas de ser uteis aos outros e o caminho da nossa felicidade.

Pe. Jorge Amaro, IMC