Arquidiocese de Braga -
1 junho 2014
DE MÃOS DADAS
Homilia na peregrinação arquidiocesana à Senhora do Sameiro.
De mãos dadas
Homilia da Peregrinação Arquidiocesana ao Sameiro
1 - Experiência Humana
Esta semana o Papa Francisco visitou a Terra Santa e surpreendeu-nos mais uma vez com inúmeros gestos que revelam a grande humanidade que o habita. Desses gestos, gostaria de recordar o momento em que ele se encontrou com seis sobreviventes da II Guerra Mundial (Holocausto) e cumprimentou-os de um modo pouco usual: pegou nas suas mãos e beijou-as.
De facto, as mãos expressam a história da nossa vida. O próprio Jesus, aliás, teve necessidade de mostrar as suas mãos para comprovar aos seus apóstolos que tinha ressuscitado verdadeiramente, expondo assim a unidade entre a sua Crucifixão e a sua Ressurreição.
2 – Liturgia da Palavra
Nessa sequência temporal, hoje celebramos o Dia da Ascensão de Jesus. O evangelho por seu turno relata-nos um paralelismo interessante entre o princípio e o fim da vida terrena de Jesus. Se no início o anjo Gabriel indicou à virgem Maria que o seu filho se deveria chamar “Emanuel”, que significa “Deus connosco”, Jesus sai de cena praticamente com as mesmas palavras, ao dizer: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos”.[1] A esta certeza de uma presença contínua e interveniente, Jesus acrescenta ainda uma missão aos seus apóstolos com este mandato: “Ide e ensinai todas as nações”.
3. Sinais dos tempos
Se celebramos a Ascensão poderemos pensar numa despedida para nunca mais voltar a encontrar-se. É precisamente o contrário. A Sua presença entre nós é contínua, algo de muito vivo, desde que aceitemos interpretar a existência como um encontro com Ele em todas as pessoas e com todas estabelecer laços.
Somos uma “Igreja reunida em nome e à volta de Jesus”, como nos recorda o Programa Pastoral, e a nossa adesão a Cristo só acontece plenamente na comunidade. Por isso, o Programa Pastoral continua a recordar-nos que “o objetivo último da evangelização é chegar a construir comunidade” tornando-nos uma comunidade evangelizadora que celebra festivamente o que anuncia.
Nesta peregrinação Arquidiocesana imagino-vos como provenientes dos 14 arciprestados e como gostaria que fossemos capazes de nos congregar sempre mais, em assembleia única em redor da Mãe comum, a Senhora do Sameiro. Havemos de chegar a esta alegria resultado duma maior consciencialização de pertença à Igreja nesta Arquidiocese.
Esta urgência de trabalharmos sempre mais o sentido comunitário da vida, a experimentar nas paróquias e a visibilizar na Diocese, confirma-se na mensagem que o papa Francisco escreveu para este XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais, que também se celebra hoje.
Se o Evangelho nos fala do ir e evangelizar, pensando nas Comunicações Sociais, sentimo-nos enviados para, em qualquer lugar promover uma “autêntica cultura do encontro”, dando assim um sentido mais humano ao fenómeno da globalização, que nos fez mais próximos (vizinhos), mas ainda falta transformar-nos em irmãos.
4. Desafios Pastorais
Todavia, sabemos que são muitos os muros que ainda nos separam, aos quais teremos de ser audazes para os destruir, criando proximidade e solidariedade. É isso mesmo o que nos pede o Papa: para que a rede digital seja um lugar rico de humanidade. “Não uma rede de fios mas de pessoas humanas.”[2]
Das inúmeras oportunidades de encontro, a liturgia apresenta-se como um dos momentos especiais para expressar, de um modo mais visível, a identidade comum da família humana, que se reúne para celebrar a fé.
Porém, também reconhecemos que ainda há muito trabalho a realizar neste campo! Eu reconheço que os leigos dão muito de si à comunidade paroquial, dão-o com a melhor das intenções e por causa do amor de Deus, e por isso apenas peço que vos deixeis moldar pelo Espírito para que a eventual indiferença, competitividade, frieza, desarmonia e egoísmo laical não prejudique, neste caso, a qualidade da nossa liturgia.
Se a Eucaristia é Encontro, devemos então aproveitar o Domingo para que os encontros se intensifiquem e aprofundem. Sei que hoje há novos horários e ritmos sociais, mas nós não podemos viver sem o Domingo! E “precisamos de recuperar toda a profundidade do Domingo como dia da Ressurreição, dia da Eucaristia, dia da assembleia cristã, dia do descanso, dia do convívio familiar e da gratuidade”[3].
5. Senhora do Sameiro
Para conseguirmos alcançar este objectivo pastoral, hoje subimos entre cânticos e orações a esta montanha exclusivamente para mostrar as nossas mãos, isto é, a nossa vida, à Senhora do Sameiro. Essas mãos marcadas com as feridas, os sofrimentos e os calos do dia-a-dia. E Ela, como autêntica mãe que é, pega nas nossas mãos e entrega-as a Deus para que, de mãos dadas com Ele (e com os outros), andemos sempre pelo caminho da verdade, da liberdade e da caridade, tal como aquela imagem comum de um pai que passeia com o seu pequeno filho pelas ruas da cidade.
Por isso, hoje quero apenas rezar as vossas mãos e as vossas vidas. Quero, convosco, assumir as vossas preocupações. Quero, convosco, defender os mais frágeis e debilitados. Quero, convosco, partilhar as lágrimas dos quem sofre. Quero, convosco, pedir pelas vossas necessidades. E quero, convosco, dizer a todos que, mesmo que a vida esteja a ser mesmo muito difícil, não vale desanimar!
Por tudo isto, e para terminar, que o gesto do beija-mão, que o Papa Francisco executou esta semana, seja para nós um gesto desafiador para colocarmos as nossas mãos ao serviço de uma “cultura do encontro” que vá progressivamente, a partir das nossas famílias e comunidades, acabando com a “globalização da indiferença”.
E não se esqueçam: mesmo que muitas vezes a vida não corra bem, Maria dá-nos a certeza de que Deus anda sempre de mão dada com os homens, porque afinal “Ele está sempre connosco”. Será que acreditamos mesmo nesta certeza?
† Jorge Ortiga, A.P.
Santuário do Sameiro, 1 de junho de 2014.
[1] D. António Couto, Quando Ele nos abre as Escrituras, 136-137.
[2] Francisco, Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro. Mensagem para o XLVIII Dia Mundial das Comunicações Sociais – 2014.
[3] Arquidiocese de Braga, Programa Pastoral 2013-14, 18.
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