Arquidiocese de Braga -

4 julho 2014

"A PRIMEIRA MISSÃO DA IGREJA É FAZER DISCÍPULOS, SÓ DEPOIS BATIZAR E ENSINAR"

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Eleito Bispo de Aveiro, D. António Moiteiro revelou ao Igreja Viva, em 2012, a sua preocupação pela missão evangelizadora da Igreja, sobretudo na formação cristã de adultos. Transcrevemos a entrevista concedida por D. António Moiteiro ao Igreja Viva, a 27

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Eleito Bispo de Aveiro, D. António Moiteiro revelou ao Igreja Viva, em 2012, a sua preocupação pela missão evangelizadora da Igreja, sobretudo na formação cristã de adultos. Transcrevemos a entrevista concedida por D. António Moiteiro ao Igreja Viva, a 27 de Setembro de 2012.

Como se sente no início desta nova e exigente missão que é ser Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Braga?

R_ Nunca se espera ser nomeado bispo. É sempre um chamamento feito por Deus, neste caso através de mediações humanas. Nós, sacerdotes, podemos dizer que ser padre é o sonho da nossa vida, de podermos responder a um apelo. Sendo o episcopado uma vocação, obviamente é algo que nem se espera, nem se deseja. Num determinado momento do meu percurso, chegou-me este chamamento de ser Bispo Auxiliar aqui na Arquidiocese de Braga. Foi um desafio muito grande. Não estava à espera, mas com alegria nós estamos dispostos a servir o Reino de Deus.

Qual é a sua impressão mais espontânea sobre a Arquidiocese de Braga?

R_ A minha primeira impressão, que deriva dos meus primeiros e raros contactos, diz-me que se trata de uma diocese com uma vida cristã bastante intensa, comunidades com muita gente, muita participação nas atividades litúrgicas, religiosidade popular... Tem também um número grande de sacerdotes, independentemente de poderem ser ou não suficientes para as próprias necessidades. Fui, entretanto, jantar ao seminário e percebi também que há muitos seminaristas. Trata-se de uma Arquidiocese com uma vida cristã intensa e muitos leigos empenhados.

Segundo o novo modelo de organização da Arquidiocese, cada Bispo Auxiliar ficará responsável por uma região. A si será entregue a região Norte, onde estão incluídos arciprestados urbanos e zonas muito rurais. O que espera desta missão?

R_ É evidente que eu venho de uma zona em que a dimensão rural está muito presente. A diocese da Guarda, que tem um quarto da população de Braga, é eminentemente rural. Nesta missão eu vou ter a meu cargo duas dimensões, uma mais rural, chegada à serra do Gerês, e outra mais urbana, com uma densidade populacional muito grande, em particular esta faixa que vai de Braga até ao mar. São duas realidades que eu não conheço, mas quero conhecer, para depois, juntamente com leigos e sacerdotes, poder perceber como a fé, nas suas várias dimensões, pode ser uma pérola, como diz o Evangelho, pela qual vale a pena deixar tudo.

Como acha que é possível colocar, hoje, Cristo na cidade?

R_ Eu penso que colocar Deus, não apenas no urbano, mas também nas zonas rurais enfrenta hoje as mesmas dificuldades. Queiramos ou não, os meios de comunicação social chegam hoje a todo o lado. Meios como a televisão, a internet, os jornais, ou o “Facebook”, chegam hoje tanto à cidade como às aldeias. Percebemos hoje que a mentalidade dos jovens das zonas rurais e dos que vivem no meio urbano é muito semelhante. Trata-se de uma mentalidade que é dada, não tanto pelo ambiente familiar, mas pelos fatores exteriores, que vão moldando a maneira de pensar, os critérios ou os valores. Para se transmitir a fé é preciso cristãos esclarecidos. Os últmos versículos do Evangelho de S. Mateus dizem-nos, por esta ordem, para os apóstolos irem e fazerem discípulos, irem e batizar, irem e explicarem a conduta a adotar. Reparemos que a primeira tarefa do apóstolo é fazer discípulos. Hoje em dia, a Igreja utiliza a ordem inversa. Primeiro batiza, depois ensina e explica os conteúdos, na convicção de que se tornarão discípulos. O que observamos, muitas vezes, são cristãos que, após os sacramentos de iniciação, após o Crisma, deixam de praticar a sua fé e abandonam a Igreja. 

O território abrangido pela Arquidiocese é um dos mais afetados pelo atual contexto de crise social e económica. Qual acha que pode ser o papel da Igreja e dos seus agentes pastorais na sociedade?

R_ Eu penso que a Igreja, tal como diz o Concílio Vaticano II no documento “Gaudium et Spes”, não deve ser alheia a nada do que diga respeito à comunidade na qual se insere. Eu ainda não conheço bem a realidade social e económica da nossa Arquidiocese. Sei que as dificuldades económicas são muitas e que a situação social é grave. Perante isto, a Igreja deve dar resposta de duas formas. Uma é ajudar em tudo quanto puder, não apenas auxiliando em termos das condições básicas de sobrevivência, mas sendo agentes de promoção de trabalho e de outras iniciativas. Há também outro aspeto, que é a clarificação dos critérios e dos valores que orientam a sociedade, como é a justiça social, a preocupação pelo bem comum e a repartição das dificuldades. Depois, ligado a este aspeto, é incutir a virtude da esperança, na força da fé e do trabalho humano, passando a ideia de que a crise pode ser ultrapassada se todos nos empenharmos em construir um futuro melhor.

Uma das missões que desempenhou foi a de vice-postulador da causa de beatificação de D. João de Oliveira Matos, o último prelado natural da Guarda a ser lá ordenado. O que o liga a esta figura?

R_ Este bispo teve uma ligação muito grande à Arquidiocese de Braga. Quando, em 1914, D. Manuel Vieira de Matos, que era bispo da Guarda, é nomeado Arcebispo de Braga, trouxe como seu secretário o padre João de Oliveira Matos. Aqui ficou cinco anos, até regressar como visitador apostólico à Guarda. Quando se realizou em Braga o grande Congresso Eucarístico Nacional, foi ele quem proferiu a última conferência. Outro fator de ligação era a sua cruz peitoral, oferecida por D. Manuel Vieira de Matos, na qual estava colocada uma relíquia de S. Martinho de Dume. A minha ligação pessoal com ele vem de dois modos. Primeiro, fui nomeado assistente da Liga dos Servos de Jesus, associação que ele fundou. Depois, fui vice-postulador do seu processo de beatificação e canonização. É também interessante ter sido nomeado bispo no ano em que se comemoram os 50 anos da sua morte. Não considero isto fruto do acaso, mas uma manifestação da providência de Deus.  

Escolheu como lema episcopal a frase paulina “É preciso que Jesus reine” (1 Cor 15,25), repetindo a escolha deste prelado. Que significado tem para si?

R_ Todo o mistério do homem esclarece-se e tem sentido à luz do mistério de Cristo. Podemos traduzir este lema na ideia de que Jesus é o princípio e o fim. Se Ele é o princípio e o fim, torna-se necessário fazer com que Ele esteja no coração das pessoas. O Servo de Deus dizia frequentemente: «É preciso que Jesus volte a reinar em Portugal, nas nossas dioceses, nas nossas famílias e no coração de cada um de nós». Essa deve ser a preocupação principal de um bispo: ajudar a que Deus esteja presente na sociedade e em cada uma das pessoas. Por isso, entendi que este lema deveria ser também o meu.

Doutorou-se numa área determinante para a transmissão da fé. Num ano em que recordamos os 50 anos do Vaticano II, onde pode a Igreja solidificar o seu percurso?

R_ Como sabe o Santo Padre falou da necessidade de revitalizar a formação cristã. Com muita dificuldade estamos a dar passos, mas ainda há muito a fazer. Eu vejo que a transmissão da fé tem desde logo duas dificuldades. Como dizia, a Igreja deve ter a primeira preocupação em fazer discípulos. Mas há ainda outro fator que é determinante: a catequese dos adultos. Não se pode fazer uma casa começando pelo telhado. Quais são os bons alicerces? É aquela dimensão de que fala o catecumenado antigo, em que o primeiro anúncio é dirigido aos adultos. Depois de convertidos estes, parte-se para os restantes. Hoje podemos partir de uma fé implícita em muitos dos nossos batizados, mas a questão do aprofundamento da fé é básica e sem ela não vamos a lado nenhum. Há ainda os catequistas, mas há também um outro universo de pessoas que se limitam a vir à missa dominical e a praticar algumas devoções. Só se pode fazer o aprofundamento da fé àqueles que já perceberam quem é Jesus. A formação cristã nunca é para dentro, mas é sempre voltada para fora. A fé cresce, dando-se e aprofunda-se quando somos capazes de a transmitir. 

Como poderemos concretizar esta mudança na pastoral catequética?

R_ Consegue imaginar o que seria termos mais adultos a frequentar a catequese do que crianças? Este é um desafio deixado pelo Vaticano II e que está por realizar. Falta uma organização sistemática de uma catequese de adultos, para um período de dois ou três anos. Quando falamos na formação de adultos temos que pensar nos que estão integrados nos vários movimentos apostólicos e naqueles que apenas frequentam as celebrações litúrgicas. Os movimentos apostólicos devem preocupar-se com a formação dos seus membros, mas estes itinerários de formação não podem dispensar as prioridades pastorais da diocese. Tem que haver aqui uma comunhão. A maior dificuldade é o outro grupo, que não está vinculado a movimentos.

É esse, então, o maior desafio?

R_ Depois do Concílio de Trento, o grande desafio que se colocou à Igreja foi a formação dos seus pastores. Havia uma ignorância muito grande, tal como afirma o Beato D. Frei Bartolomeu dos Mártires. Quatro séculos mais tarde, no Concílio Vaticano II, a grande preocupação foi combater a ignorância dos fiéis. Este, para mim, é o grande desafio. Precisamos de ser capazes de transformar a Igreja. Para isso é necessário alterar a mentalidade de muitos sacerdotes e, principalmente, dos próprios fiéis leigos. Após Trento, a ignorância venceu-se com a constituição de seminários, hoje temos que criar escolas de catequese para leigos, grupos de reflexão e aprofundamento da fé, e iniciativas que ajudem a confrontar a vida com a Palavra. 

Qual a sua expetativa para o Ano da Fé?

R_ Na quinta-feira passada, o Papa concedeu uma audiência aos novos bispos reunidos em Roma. Aí ele fez questão de nos dizer que a Nova Evangelização se iniciou com o Concílio Vaticano II. O que é que poderá significar o concílio para a nossa geração? Tem de ser um momento alto da Igreja, tomando consciência de que tem que acompanhar e viver com as pessoas do seu tempo. É um “aggiornamento”, como dizia o Papa João XXIII (ver cabeçalho). Penso que a comemoração dos 50 anos do Vaticano II deve ajudar mais uma vez a Igreja a entrar em diálogo com a sociedade do seu tempo. 

Como olha para a Igreja do futuro?

R_ Olho para a Igreja do futuro com esperança. Conhecendo um pouco da história humana, vemos como grandes reinos e instituições foram desaparecendo, no entanto, a Igreja permanece. Apesar de termos vivido períodos históricos muito difíceis, com perseguições, crises e questionamentos, sobrevivemos pois sabemos que quem nos guia é o Espírito. Nós temos de, por um lado, olhar para a presença e força do Espírito que orienta a Igreja, e, por outro lado, entender os desafios que a sociedade do nosso tempo nos coloca. Acima de tudo, sabermos que nunca estamos sozinhos, mas temos Alguém a guiar os nossos passos. 

O que vai mudar no seu quotidiano pelo facto de se ter tornado bispo?

R_ Ainda não sei bem o que vai mudar. Com certeza que vai mudar muita coisa, mas tenho uma certeza na minha vida que é esta: quero ser o que sou, não dando espaço a que haja algo de artificial na minha vida. Os amigos que tenho quero continuar a mantê-los, mas peço a Deus a capacidade para dilatar o coração para que outros possam entrar. Tentarei fazer o melhor que puder, sem esquecer o que tenho feito nos últimos 30 anos de vida pastoral. 

Quando tem tempo livre, que tipo de ocupações gosta de fazer?

R_ Gosto muito de passear com dois ou três amigos, visitar um lugar desconhecido ou um monumento. É algo que me descontrai e que aprecio bastante. Eu não sou músico, mas gosto muito de ouvir música, particularmente sinfónica e coral. Gosto ainda de ler. Leio bastante, particularmente literatura relacionada com a minha área de formação em pastoral catequética. Mas também gosto de um romance ou de uma boa poesia. Aprecio bastante o Eugénio de Andrade, natural da minha diocese.

Igreja Viva, 27 de Setembro de 2012