Arquidiocese de Braga -
18 julho 2014
VISITAS PASTORAIS DE FREI BARTOLOMEU: ASPECTOS HISTÓRICOS
Outrora, face à leitura de relativamente poucas atas visitacionais, sustentei o desinteresse geral do Arcebispo Santo pelos aspectos artísticos das nossas igrejas. Hoje, felizmente, tive de mudar de opinião, pois vi-o intervir em muita igreja exigindo a b
Outrora, face à leitura de relativamente poucas atas visitacionais, sustentei o desinteresse geral do Arcebispo Santo pelos aspectos artísticos das nossas igrejas. Hoje, felizmente, tive de mudar de opinião, pois vi-o intervir em muita igreja exigindo a boa funcionalidade dos templos e até a sua beleza nas pinturas, nas esculturas e no conjunto. Antes de mais tenho de fazer algumas observações pertinentes para a fácil compreensão dos capitulados pelos leitores.
A primeira é que o estilo geral diocesano obrigava o padroeiro da paróquia à fábrica da capela-mor e residência, ficando a cargo dos fregueses a do corpo do templo, geralmente bastante simples: uma só nave, dois altares e mais a torre dos sinos.
Havia algumas exceções, como é o caso das freguesias de Esposende e de Póvoa de Varzim, ambas do cabido da Catedral de Braga, que obteve o privilégio de não ser obrigado à fábrica da capela-mor. Na segunda lembro que o corpo da igreja começa pelo arco cruzeiro, que até ao século XIX tinha geralmente um passo da Paixão do Senhor, por ser o lugar mais acomodado para o ter: no centro Cristo pregado na cruz, no lado do evangelho Nossa Senhora e no da epístola o apóstolo S. João, como se verá a baixo.
Friso que para este artigo limitei-me praticamente a dois anos (1561 e 1564) de visitações bartolomeanas, nos quais se definem as suas tendências e gostos artísticos.
Começando pela sua ata mais antiga, a de Esposende de Janeiro de 1560: tendo feito os fregueses uma igreja nova de naves e pilares avantajados para todos nela caberem, obrigou-os a caiá-la e apinzelá-la toda dentro de um ano e mandou ao cabido de Braga que até dia de Nossa Senhora de Setembro fizesse uma capela (mor) dessa igreja de abóbada e muito bom olivel, conforme à igreja nova: de esquinas de esquadria bem feita e o mais de alvenaria limpa e bem asseada e capeada por cima de boa esquadria. A obra fez-se há 450 anos e está para durar na sua simplicidade.
Neste mesmo ano visitou Fermentões capitulando: olivelar um terço dela de denguado terçado de boa madeira limpa e por mão de bom oficial, mas levantando primeiro uma fiada porque era muito baixa; consertariam a pia de batizar.
Visitando por essa altura a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, preceituou a feitura do coro de novo ao modo do da Sé de Braga e bem feito de obra romana. E aqui entrou na defesa do seu património: fariam arrecadar e trazer para a igreja a cruz de prata, a fazer, e o lampadário de prata que tinha sido deixado à mesma igreja.
Seguidamente passou à igreja de São Paio da vila de Guimarães atuando com mestria: tratava-se de um povo grande com a igreja pequena não cabendo nela a quarta parte dos fregueses, pelo que havia grande necessidade de se alargar ou fazer outra de novo. Por isso foi mais uma tomada de consciência, pois nesta altura limitou-se a mandar: colocar uma mesa de madeira no altar-mor com sua fasquia de redor para guarda das toalhas; guarnecer a sacristia de cal por dentro e consertar os armários para os ornamentos; dos quatro marcos de prata velha com mais dois acrescentados, mandariam fazer uma cruz de prata para servir na igreja.
Em 1561 está de novo em Fermentões onde teve uma atitude altamente inteligente e de pessoa muito sensata: para além de instar com o apinzelar da capela por dentro e o cumprir com o olivel de boa madeira por mão de bom oficial à régua, capitulou que, quanto a alevantá-la mais uma fiada, se achassem por vista de oficiais que as paredes não podiam sofrê-la e que o olivel ficaria bem na altura em que então estava, os relevava de alevantarem a dita fiada.
Sua abertura e gosto estético logo em 1564
Vou demonstrá-lo através de provimentos em três paróquias muito distantes. O primeiro, em Sant’Iago de Antas, mostra-o aberto às inovações do tempo. “Posto que as imagens de vulto que estão no altar sejam muito boas, como são, todavia encomendamos ao dito abade que em termo de dois anos mande pôr um retábulo em que acomode as imagens no mesmo altar, como lhe parecer, e no dito termo porá um frontal bom, como convém a tal igreja (duma colegiada menor). Neste ano ordenou ao abade, em Fermentões, uma vidraça com sua rede de arame para a fresta da capela.
O segundo em Meadela: o abade pusesse um retábulo, enquanto os fregueses forrariam a igreja até ao meio de bom olivel terçado e “aviventarão” as pinturas do arco cruzeiro. Este capítulo do arco cruzeiro foi repetidíssimo tornando-se algo de estrutural nas nossas igrejas.
Por último na igreja de Ribalonga, no concelho de Carrazeda de Ansiães, onde ficaram dois bem pertinentes para este tema. Primeiro: “Item Mandamos ao comendador que até <três anos> ponha nesta igreja [um] [re]tábulo de um painel pintado a óleos por mão de bom of]icial dourado nas partes necessárias e com a imagem d[o] orago sob pena de oitocentos réis […] e até o dito tem[po de São] Miguel mandará retelhar e precintar a capela [de] três em três cales e “embocar” as telhas com cal [so]b pena de quinhentos réis, e no mesmo termo mandará mud[ar] a fresta da capela para junto do altar porque ond[e] está não dá a claridade bastante ao sacerdote que diz missa sob pena de duzentos réis […]”.
Passando ao segundo, dirigido aos fregueses: “Item Mandamos aos fregueses que até o São Miguel mandem caiar de fora o corpo da igreja e retelhar e precintar o telhado dela de três em três cales sob pena de quatrocentos réis e em termo de um ano da data desta mandarão pintar o arco do cruzeiro com o crucifixo e Nossa Senhora e São João, e nas fronteiras dos altares travessos as imagens que tiverem por sua devoção sob pena de quinhentos réis”.
Veja-se por aqui como o bom do Arcebispo estava interessado na revolução dos retábulos mas com qualidade; na segurança e perfeição geral dos edifícios religiosos (mandava frequentemente retelhar e precintar, rebocar e caiar) mas funcionais (foi o caso da mudança da fresta); na existência de esculturas ou imagens de vulto e no recurso às pintadas tanto no arco cruzeiro como nas fronteiras ou outões dos altares de fora.
Quanto aos motivos, a sua opção pelo padroeiro, deixando o resto à devoção dos fregueses. Acrescento que nas largas centenas de capítulos que transcrevi não encontrei um único a mandar enterrar imagens antigas ou de tendência heterodoxa, mas sim alguns a mandar renovar (“aviventar” em Meadela em 1564) as pinturas mas sem referência a serem desonestas ou inconvenientes aos mistérios da fé, como irá acontecer muitas vezes após o concílio de Trento. D. Frei Bartolomeu cuidava sobretudo das pedras vivas das pessoas.
(In DM 18 de Junho de 2014)
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