Arquidiocese de Braga -

7 agosto 2014

OPINIÃO: FÉRIAS DE DEUS

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O Verão é, por excelência, a estação do ano mais desejada para o convencional gozo de férias e, como a procura do Sol é uma constante, Julho e Agosto tornam-se os meses de maior referência e os mais desejados para um merecido descanso, após um ano inteiro

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O Verão é, por excelência, a estação do ano mais desejada para o convencional gozo de férias e, como a procura do Sol é uma constante, Julho e Agosto tornam-se os meses de maior referência e os mais desejados para um merecido descanso, após um ano inteiro de intensa actividade laboral para uns, de uma sempre angustiosa e desgastante procura de emprego para outros e de todos (quase) terem de suportar uma crise que teima em não largar este pobre país, endividado desde lá de riba dos píncaros de Castro Laboreiro, até às sulistas e cálidas praias algarvias.

Ora, se mais razões não existissem, estas três circunstâncias de vida seriam suficientes para levar o nosso organismo a reclamar um tempinho de repouso e de alheamento do mundo material que nos absorve e apoquenta, se calhar demasiadas vezes. Porém, não deixa de ser preocupante que esta necessidade física acabe por determinar um nefasto afastamento das celebrações eucarísticas dominicais, que se vem acentuando ano após ano, e que deixa as nossas igrejas desoladoramente vazias durante este período. É lamentável que muitos cristãos, demasiados cristãos, estendam uma compreensível necessidade física ao campo espiritual e esvaziem Deus das suas vidas durante as férias, transformando assim esse tempo num baldio espiritualmente estéril. Não tenhamos ilusões, se “deixarmos” Deus em casa quando vamos de férias, por melhor que estas possam ser, serão sempre supérfluas quando comparadas com a riqueza que representa o convívio diário com Deus, porque, perante a presença de Deus, é imperioso que tudo nas nossas vidas passe para um plano secundário.

Quer isto dizer que não devemos gozar férias? Não, de modo algum, quer é dizer que não devemos gozar férias… sem Deus. A verdade é que, em nome duma necessidade física sempre questionável, muitos cristãos afastam Deus das suas vidas durante as férias com uma lampeira ligeireza, fazendo por ignorar que a carência espiritual é muito superior a qualquer necessidade física. Assim sendo, torna-se imprescindível que levemos sempre Deus connosco, para onde quer que formos, a fim de melhor sermos alimentados, porque, como fonte de vida que é, Deus representa uma necessidade constante, dado que é Ele quem fertiliza a nossa fé.

É convencional dizer-se que, ao criar a humanidade, Deus correu o risco da recusa ao apostar na liberdade humana. No Calvário, o Filho também assume o risco de não entendermos a mensagem que a Cruz encerra, que não é de modo algum trágica, antes pelo contrário, é uma mensagem de amor de Deus para com a humanidade. Na realidade somos livres, e nada nos impede de “deixarmos” Deus em casa quando vamos de férias, todavia, ao fazê-lo, corremos o risco de nos afastarmos de tal maneira do Criador que podemos complicar o nosso regresso ao amor de Deus.Se aceitamos que somos criaturas, temos que assumir que temos um Criador e é para Ele que devemos orientar a nossa vida durante esta passagem terrena. Assim sendo, quanto mais nos afastarmos do Criador mais difícil se torna encontrar a fonte da criação, que é Deus, que não nos ama por sermos bons, nós é que devemos ser bons porque Ele nos ama.

 O amor, para ser amor verdadeiro, não pode ter condições nem se pode decretar, tem que brotar de uma necessidade sentida no nosso interior que nos possa conduzir à plenitude do amor que há em Deus e a qual só podemos alcançar através de Jesus Cristo (“ninguém vai ao Pai senão por mim”). Ora, acontece que para chegarmos a Jesus temos necessidade da Igreja, tal como também necessitamos dos Sacramentos porque são estes que nos conduzem a Jesus Cristo, sinal visível da presença de Deus entre nós. Os sacramentos, em especial a Sagrada Eucaristia, comunicam e alimentam o amor de Deus para com a humanidade.

Deste modo, convém que tenhamos bem presente que a liturgia não é um luxo, é uma necessidade que, mesmo quando estamos de férias, deve ser vivida sem qualquer sentido de obrigação, mas sim como fruto de uma necessidade sentida no interior do nosso coração. Devemos perceber que é na Eucaristia que Jesus Cristo está vivo e mais presente e não nos símbolos que utilizamos ao pescoço, que temos em casa ou levamos para férias. É na Eucaristia que a proximidade com Jesus Cristo se torna mais efectiva pelo que, ao participarmos nela, estamos a ir ao encontro da verdadeira fonte salvífica e, quiçá, a ajudar Deus a encontrar-nos.

Aqui chegados, imaginemos que Deus resolvia tirar férias… de nós! Certamente que ficaríamos perdidos e à deriva num mar repleto de dúvidas, já que passamos a vida a interrogar Deus sobre tudo o que nos acontece, como se Ele fosse o culpado de todos os nossos males. Com Deus de férias, a quem iriamos culpar pelos nossos fracassos? Mais ainda, a quem iriamos dirigir as nossas preces nos momentos de aflição? Claro que estas preocupações não nos afligem, pois sabemos muito bem que o amor de Deus é constante e só temos que nos deixar envolver por esse afecto divino, para o obter.

Todavia, e apesar de nada disto nos ser alheio, continuamos a relegar Deus para segundo plano demasiadas vezes, pois não é só quando vamos de férias que isso acontece. Na verdade, tiramos férias de Deus quando nos demitimos do nosso dever de sermos leigos empenhados na construção do Reino, não colocando os talentos que Deus nos deu ao serviço da comunidade; Tiramos férias de Deus quando, dentro das comunidades, usamos de presunção e vaidade face aos outros e nos escudamos nas condições atmosféricas para não participarmos na Eucaristia dominical; Tiramos férias de Deus quando ignoramos as carências e os padecimentos que fazem da vida do nosso próximo um inferno; E, porque não dizê-lo, também tiramos férias de Deus sempre que atribuímos maior valor ao folclore que hoje em dia rodeia a administração de alguns sacramentos, como o baptismo e o matrimónio, que à importância que eles representam no contexto da vida cristã e no carácter que imprimem aos sacramentados.

Para um verdadeiro cristão, a presença de Deus na sua vida tem que ser incessante e se concordamos que não faz nenhum sentido viver o Natal sem o Advento ou a Páscoa sem a Quaresma, também temos de concordar que jamais fará sentido algum tirar férias de Deus.

António Fernandes Coimbra