Arquidiocese de Braga -

16 janeiro 2015

“A caça”, de Thomas Vinterberg

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Fotografia Miguel Miranda

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MINAS E ARMADILHAS

“Que é a verdade?” (Jo, 18, 38). Como é que uma mentira repetida muitas vezes se torna socialmente aceite como verdade? Quais os mecanismos da efabulação? O tema, pertinente em tempo de públicas condenações e de elevação do juízo temerário ao estatuto de convenção, é o ponto de partida e chegada de “A caça” (Thomas Vinterberg, 2012 – estreou nas salas portuguesas em 2013 e foi no mesmo ano editado para o mercado videográfico). Depois de “Festen” (1998), o realizador dinamarquês – um dos signatários, com Lars Von Trier, do famigerado manifesto Dogma 95 – regressa à sua obsessão original: a perversidade das comunidades fechadas no segredo e na mentira. Simplesmente, onde em “Festen” se crucificava a instituição familiar, agora o círculo alarga para o ambiente de uma pequena aldeia.

O filme, outonal ao ritmo da passagem dos meses e marcado por uma quase ausência de música, é asfixiante. Lucas, um professor, vê a sua vida virada do avesso quando uma menina, Klara, o acusa da prática de abusos sexuais. A partir do momento em que o rumor se espalha, tudo é possível e a bola de neve deste filme gelado atinge proporções descontroláveis: matam-lhe o cão, apedrejam-lhe a casa, recusam-se a atendê-lo no supermercado numa interdição que abrange o filho Marcus (serão mera coincidência os nomes de pai e filho?), espancam-no, é posto de licença, os amigos mostram ser piores que os de Job e a ex-mulher usa o boato a seu favor na luta pela custódia de Marcus. Lucas (Mads Mikkelsen, numa interpretação que lhe valeu a estatueta de melhor actor em Cannes) é a presa. Ou talvez, se quisermos, o bode expiatório desta moderna versão do justo sofredor – culpado até prova em contrário.

Ausente qualquer espécie de investigação séria, por parte da associação de pais do jardim de infância, acerca das acusações movidas pela menina – que nunca apresentara sinais de alterações de comportamento -, esta começa então a voltar timidamente com a palavra atrás. Mas é já tarde demais. “A tua cabeça prefere não se lembrar do que aconteceu, mas aconteceu”, diz-lhe a directora da escola, sabedora, contudo, de que Klara “tem muita imaginação”. “Ela provavelmente vai negar” (até a provável negação se converte para os predadores em confirmação). No interrogatório à menina, o inquisidor não escuta: pretende apenas que Klara confirme as suas ideias feitas, a condenação já interiormente lavrada. Nas entrevistas às outras crianças, todas descrevem da mesma forma a cave onde os abusos terão ocorrido, mas… nem sequer existe essa cave!

Num repente, todos perderam a razão, o que vem a incluir o próprio Lucas (com a namorada). Olhado de lado primeiro, estigmatizado depois, vítima de “sumaríssimo” logo a seguir, o professor tem de encarar uma comunidade onde é aos homens que compete resolver os problemas – as mulheres mais não são do que um “blind motif”, num machismo primário que Vinterberg parece partilhar sem preocupações de dissimulação. Uma comunidade aparentemente unida mas na qual, às portas do Natal, reina uma paz podre – a sequência da Missa do Galo, que remete directamente para o banquete familiar de “Festen”, é a este respeito emblemática.

Na raiz de tudo, o medo. A acusação de Klara é apimentada ao ponto de ser moldada ao medo de que algo venha perturbar a “paz” daquela comunidade. Traído por todos - à excepção do padrinho de Marcus – inclusivamente pelo “melhor amigo” (Theo, pai de Klara, novamente a coisa dos nomes…), Lucas paralisa. O sofrimento de Marcus carrega a culpa inexistente do pai. E a hipocrisia é o prato de caça no centro da ementa: “Olha para ele, está um farrapo”, diz a mãe de Klara, Grethe, para Theo. “A caça”, um filme para o nosso tempo.