Arquidiocese de Braga -

19 novembro 2015

D. Francisco Senra: Movimentos são luzes em tempo de sombras

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DACS

No próximo Sábado, dia 21 de Novembro, pelas 15h00, realiza-se o encontro das Direcções Diocesanas dos Movimentos Eclesiais, Associações e Obras Apostólicas. Ao DACS, D. Francisco Senra Coelho adiantou as expectativas para o dia.

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A importância do encontro: crescimento em comunhão

Só na Arquidiocese de Braga, há mais de 50 Associações, Movimentos e Obras. No dia 21 de Novembro, pelas 15h00, rerúnem-se no Salão de S. Frutuoso, localizado no Seminário Maior, em Braga. D. Francisco Senra Coelho, Presidente da Comissão para o Laicado e Família, aponta o encontro como uma dupla oportunidade para estes grupos: de crescimento e comunhão com a Igreja Mãe, algo que considera indispensável a uma vivência plena em Igreja.

“Os Movimentos surgem no interior da Igreja para a renovar, para a levar ao Evangelho, para não deixar que ela se mundanize ou que se «instale». Os Movimentos não deixam que ela se torne uma Igreja parada mas que tenha antes o dinamismo da dádiva, do serviço à humanidade e, ao mesmo tempo, do anúncio do Evangelho na sua beleza libertadora. Porém, os Movimentos têm que viver em comunhão com a Igreja local, com a diocese e com as paróquias, numa osmose que nós consideramos muito saudável. Não podem ser uma Igreja paralela, temos que ter uma comunhão absoluta, que constitua uma igreja só. É isso que estamos a tentar constituir em Braga e que pretendemos que aconteça neste encontro com o Arcebispo. Queremos ser «um só» com o nosso bispo”, sublinhou.

De acordo com o Bispo Auxiliar, os Movimentos só podem cumprir plenamente o seu propósito quando integrados na dinâmica e vivência das igrejas locais, tendo estas a responsabilidade de perceber e respeitar a dádiva dos carismas, sem neles interferir.

“Este encontro assume ainda maior importância se pensarmos que estamos num ano missionário, no ano da «Fé Anunciada» na nossa Arquidiocese. Pedimos aos Movimentos que fizessem um encontro com eles próprios e que vissem aquilo que podem crescer, sempre em fidelidade ao seu próprio carisma fundacional, para que também eles não percam a beleza do encanto do primeiro amor, de quando foram fundados e partiram para a sua missão”, acrescentou, referindo-se às palavras do Papa Francisco no III Encontro dos Movimentos Eclesiais, em Novembro de 2014.

 

D. Francisco sublinhou que o objectivo passa por um crescimento dos Movimentos na Arquidiocese, com presença reforçada em mais paróquias e arciprestados. O prelado exprimiu ainda o desejo de que o ano da Fé Anunciada possa contar com o contributo “qualitativo e quantitativo” dos Movimentos através da fundação de novas comunidades e novos centros. 

 

Uma tarefa exigente

Apesar de acreditar que o crescimento que referiu irá acontecer, D. Francisco Senra admitiu que não se trata de uma tarefa fácil, sobretudo por assentar numa relação dicotómica.

“É uma missão muito exigente porque se prende com fidelidade e, ao mesmo tempo, com inovação. Estamos a falar da capacidade de renovação e adaptação aos novos tempos, com novas respostas, mas sempre na fidelidade aos carismas fundacionais”, explicou o Presidente da Comissão.

Cerca de dois terços dos Movimentos, Associações e Obras costumam comparecer a estes encontros promovidos pela Arquidiocese. A diversidade é a palavra de ordem já que os participantes apresentam dinâmicas muito diferentes.

“Alguns apresentam dinâmicas juvenis, outros estão mais virados para a actividade solidária ou sócio-caritativa, alguns para a família, outros têm uma dimensão mais contemplativa, orante... Há uma riqueza muito grande de Movimentos”, elogiou o prelado.

No entanto, e apesar de encarar a diversidade como algo muito positivo e enriquecedor, D. Francisco admitiu que a pluralidade traz grandes desafios.

“A própria diocese precisa de ajudar os Movimentos no seu crescimento interior através de assistentes espirituais e sacerdotes. O problema é que nem sempre temos possibilidade de fazer esse acompanhamento, já que os sacerdotes não são muitos e estão sobrecarregados de trabalho. Os Movimentos têm, desta forma, que ter a coragem de correr um risco que advém do desafio do Papa Francisco: partir para novas experiências e novas fundações. Isto acaba por mexer com um certo comodismo, uma certa instalação que naturalmente se apodera de todos nós. Nem sempre é fácil ter esta audácia...”, sublinhou.

 

Marcos na História

Para D. Francisco Senra Coelho, os Movimentos apareceram sempre na vida da Igreja como contributos muito decisivos para a sua renovação.

“Eles têm uma origem carismática, são um dom que o Espírito Santo suscita na Igreja para o serviço eclesial. Na história da Igreja encontramos imensos carismas que a foram renovando ao longo dos tempos. Podemos pensar na figura de Paulo de Tarso, na importância de S. Francisco de Assis e Inácio de Loyola, figuras femininas como Teresa de Ávila ou, mais recentemente, Teresa de Calcutá, Edite Stein... São figuras de grande relevo que ao longo dos tempos acordaram a Igreja, a despertaram para a fidelidade do Evangelho”, sublinhou.

Neste sentido, o Bispo Auxiliar mencionou também os papéis desempenhados por vários Papas como João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

“Há grandes Movimentos que têm dado contributos extraordinários ao mundo actual. Olhando para os finais do séc XIX, séc XX, vemos surgir os Vicentinos de Frédéric Ozanam, a Legião de Maria com Frank Duff ou o Movimento Apostólico de Schoenstatt do Padre Joseph Kentenich, que até tem um santuário na nossa Arquidiocese. Depois da segunda guerra mundial vimos os Cursilhos de Cristandade com Eduardo Bonnín, o Movimento Focolar com Chiara Lubich, o escutismo católico com Baden-Powell, a Comunhão e Libertação do Monsenhor Giussani, o Renovamento Carismático Católico do Cardeal Suenens... No meio disto tudo percebemos que estes Movimentos ajudaram a criar uma mentalidade que levou ao Concílio Vaticano II, que renovou a Igreja e que continua a ser aplicada de forma muito forte, mesmo fora dela”.

 

Pequenas luzes” nos novos tempos

 Os períodos da História conturbados em que nasceram vários Movimentos fazem com que estes tenham desempenhado um papel preponderante em termos de apoio e ajuda humanitária, tarefa que, de acordo com D. Francisco, continuam a assumir.

"Considerando os tempos actuais e os dramas que vivemos, podemos dizer que neste momento se colocam vários desafios. Um deles passa pela possibilidade de uma presença imediata, por ajuda humanitária. Veja-se o exemplo da Cáritas, que é um serviço da Igreja, mas que iniciou de uma dinâmica de Movimento, tornando-se depois um serviço organizado que apoia o bispo na sua função de caridade pela comunidade. Em termos de construção de uma mentalidade tolerante, respeitadora e acolhedora temos a Comissão Justiça e Paz, que faz reflexões e produz documentos neste sentido.”

D. Francisco aludiu ainda ao trabalho a nível de “reconciliação e empenhamento internacional” da comunidade de S. Egídio, em Roma, e ao trabalho de diálogo ecuménico e inter-religioso promovido pela comunidade de Taizé. “Penso que à volta deste sofrimento que vemos vão surgindo muitas iniciativas boas, de inspiração cristã, algumas das quais assumindo até a dimensão de Movimento”, afirmou. O Banco Alimentar contra a Fome, um “grande contributo para a cidadania e que já originou outros projectos”, foi um dos exemplos enumerados pelo Bispo.

Questionado sobre os conflitos que se vêm sentindo a nível mundial e que têm originado grandes vagas de migrações e refugiados, D. Francisco respondeu dizendo que mais acções concretas podem ainda surgir e ajudar aqueles que fogem da guerra.

"Ainda não podemos perceber o que está a nascer agora, mas está, com certeza, a germinar vida que vai perpetuar-se como contributo para a Igreja depois deste sofrimento que estamos a viver. Em termos concretos de apoio solidário e reflexão penso que estes tempos constituem lugares que vão fazer surgir ainda mais vida na igreja, vida essa que poderá organizar-se, porventura, em forma de Movimentos”, adiantou.

O prelado afirmou ainda que, infelizmente, a sombra faz ver melhor a luz.

"É pena que às vezes seja assim, no sentido de que a sombra é sempre sofrimento e dor. Mas é no meio da noite que se vê de facto a beleza das pequenas luzes. É importante que nesta sociedade haja luzes no caminho e os Movimentos são uma parte dessas luzes, tal como nós todos. Não temos muito para dar, porque sabemos que a vida atravessa também vicissitudes complexas como a crise europeia e portuguesa, mas algo de nós podemos dar. Isso é o mais importante! Não permitamos mentalidades fechadas, não estendamos um lugar ao racismo, ao exclusivismo e ao fanatismo, ou seremos iguais àqueles que de facto consideramos que não estão bem. Não nos podemos pôr ao mesmo nível! Estas dificuldades ultrapassam-se pela diferença e a diferença acontece na tolerância, no amor, no respeito, no humanismo, no acolhimento. É nesses valores que reside a diferença”, concluiu.