Arquidiocese de Braga -
10 janeiro 2017
Papa Francisco: "A paz é um dom, um desafio e um compromisso"
DACS
O Santo Padre manifestou os seus votos para o novo ano, perante o corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé.
A crise dos migrantes, o fundamentalismo religioso, a facilidade de acesso a armas e as alterações climáticas são os assuntos que o Papa Francisco considera essencial discutir para alcançar a paz no novo ano. Estes temas mereceram a atenção do Santo Padre durante o encontro com os representantes diplomáticos acreditados junto da Santa Sé, que ocorreu esta Segunda-feira, dia 9 de Janeiro, no Vaticano.
Os migrantes não podem ser "simples números"
O Papa Francisco apelou à construção de “sociedades abertas e acolhedoras para com os estrangeiros e, ao mesmo tempo, seguras e em paz no seu interior”. Tendo em conta os grandes fluxos migratórios actuais, o Santo Padre manifestou-se contra as políticas de restrição aos migrantes, o que não invalida uma “abordagem prudente” do fenómeno migratório.
Para o Sumo Pontífice, importa não reduzir os migrantes a “simples números”. “Os migrantes são pessoas com nomes, histórias, famílias, e não poderá jamais haver verdadeira paz enquanto existir um único ser humano que é violado na sua identidade pessoal e reduzido a mero número estatístico ou a um objecto de interesse económico”, sublinhou.
É fundamental, defende Bergoglio, proporcionar “uma vida decente aos migrantes, especialmente àqueles que têm real necessidade de protecção”, sem contudo “lesar o bem comum dos cidadãos do próprio país”. Isto implica uma convergência de esforços de todos os países, por forma a não sobrecarregar alguns que acabam por suportar “sérias dificuldades” e submeter-se a “esforços consideráveis”.
A Itália, Alemanha, Grécia e Suécia mereceram um agradecimento especial do Santo Padre, pelo acolhimento “generoso” daqueles que precisam. “Todos deveriam sentir-se construtores concorrendo para o bem comum internacional”, acrescentou.

A “miséria espiritual” que leva ao “fundamentalismo religioso”
“Cada expressão religiosa é chamada a promover a paz”, defendeu o Sumo Pontífice ao reflectir sobre as situações de violência com “motivação religiosa”. Para o Santo Padre, um “diálogo autêntico” entre as diferentes confissões religiosas torna-se fundamental para resolver os conflitos existentes que abalam a paz entre os povos.
Referindo-se ao terrorismo de matriz fundamentalista, Bergoglio lamenta que algumas experiências religiosas dos tempos de hoje sejam pretexto para violência e marginalizações, ao invés de resultarem numa abertura aos outros.
“O terrorismo fundamentalista é fruto de uma grave miséria espiritual, que muitas vezes aparece associada também com notável pobreza social”, referiu. Francisco acredita que para ultrapassar estes aspectos é fundamental uma “colaboração conjunta dos líderes religiosos e dos líderes políticos”.
Cabe aos líderes religiosos, afirma o Santo Padre, a transmissão dos valores que “não admitem contraposição entre o temor de Deus e o amor ao próximo”. A liberdade religiosa, por sua vez, é um imperativo que compete aos líderes políticos garantir.
“O terrorismo fundamentalista é fruto de uma grave miséria espiritual (...)”
“Faço apelo a todas as autoridades religiosas para que se mantenham unidas em reiterar vigorosamente que nunca se pode matar em nome de Deus”, conclui.
Facilidade de acesso a armas cria “insegurança e medo”
O comércio de armas e a produção de armamentos “cada vez mais sofisticados” é algo que também preocupa o Papa Francisco.
A facilidade com que se acede ao mercado das armas produz, na opinião do Santo Padre, um clima de “insegurança e medo”, mais perigoso ainda tendo em conta os “tempos de incerteza social e mudanças epocais” como os que se vivem actualmente.
Francisco citou ainda as palavras de São João XXIII, na Pacem in terris, em que afirma que “o sentido da dignidade humana” exige que se pare com a “corrida ao poderio militar” e que “o material de guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo de uma parte e de outra, simultaneamente; que sejam banidas as armas atómicas”.
Só com a solidariedade se conquista a paz e a partir dela, defende Francisco, “germina a vontade de diálogo e a colaboração, que encontra na diplomacia um instrumento fundamental”.
Cuidar da "casa comum" é necessário para "edificar a paz"
Para “edificar a paz” é também importante, acredita Bergoglio, um empenho activo no “cuidado da criação”. O Sumo Pontífice aponta o Acordo de Paris como um importante passo no caminho de um mundo “belo e habitável”.
“A Terra é a nossa casa comum e é preciso considerar que as opções de cada um têm repercussões na vida de todos”, sublinha.
“A paz é um dom, um desafio e um compromisso. Um dom porque brota do próprio coração de Deus; um desafio porque é um bem que nunca é um dado adquirido mas deve ser continuamente conquistado; um compromisso, porque requer, na sua busca e construção, o trabalho apaixonado de todas as pessoas de boa vontade”, concluiu o Santo Padre.
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