Arquidiocese de Braga -
25 abril 2024
Espiritualidade e mística são caminhos para “libertar a liberdade”
DM - Jorge Oliveira
Arcebispo Metropolita de Braga presidiu à sessão de abertura de Congresso Internacional no Bom Jesus
Perto de 70 conferencistas, nacionais e estrangeiros, estão reunidos desde ontem, dia 24, no Bom Jesus, no I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística – “À procura do não-limite”.
Promovido e dirigido pelo Instituto de História e Arte Cristãs (IHAC) e pelo Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização (IEAC-GO), este evento científico propõe-se abordar até sábado, em 55 conferências e 8 pósteres, o tema da espiritualidade e da mística, nas suas mais diversas vertentes, partindo de áreas do saber como a Teologia, as Ciências das Religiões, a História, a Filosofia, a Antropologia, a Medicina, a Psicologia, a Sociologia, a Arquitetura, as Artes e as Ciências da Educação.
Na sessão de abertura, ontem, na Colunata de Eventos do Bom Jesus, na véspera da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, o Arcebispo Metropolita de Braga, D. José Cordeiro, apontou a espiritualidade e a mística como “caminhos para libertar a liberdade”.
“O Cristianismo fundamenta-se numa experiência tocante, qualificante que muda gente desesperada em testemunhas de uma vida transformada. Às vezes entende-se a mística como uma espiritualidade envolta em mistério, em sentido enigmático, porém a mística é uma experiência com a própria experiência no íntimo do próprio experimentar”, referiu, acrescentando que “onde há fé existe liberdade”.
O presidente da Comissão Organizadora, o cónego José Paulo Abreu, explicou que com este congresso, numa cidade “carregada de religiosidade e espiritualidade e com muita devoção e romaria”, pretende-se “chegar ao outro lado, do ser e da vida, conhecer caminhos de perfeição, chegar ao estético, ao harmonioso e ao belo, ir para além do que nos confina”.
E durante o Congresso vão ser dados a conhecer e enaltecidas as virtudes de místicos que precisamente “cultivaram o espírito, a imaterialidade, a alma”, alguns deles pertencentes à Arquidiocese de Braga como Bartolomeu dos Mártires (santo), Alexandrina de Balasar (beata), Frei Bernardo de Vasconcelos (venerável), padre Abílio Correia, mas também místicos de Espanha, Itália, França, Brasil, Colômbia, Grécia, Israel.
A presidente da Comissão Científica, Eugénia Abrantes, lamentou que a nossa época esteja “povoada de místicos abortados”.
“Será que interessará a muitos que os místicos estejam na sombra do conhecimento porque eles incomodam muito? Será justo que Portugal que carrega no seu dorso tantas místicas e tantos místicos continue a votá-los a um cárcere de silêncio?”, questionou.
Para Eugénia Abrantes, “não é possível falar de Portugal ignorando o Cristianismo” e um “mundo sem espiritualidade, sem mística é um mundo sem chão maternal, logo é infecundo”.
“Nada do ser humano está fora da mística”, acrescentou.
O presidente da Confraria do Bom Jesus, o cónego Mário Martins, deu as boas-vindas a todos os participantes e desejou que no decorrer do evento, neste “lugar de encontro e reencontro, todos se sintam sempre abraçados e presenteados pelos encantos incomparáveis deste santuário e de toda a estância”.
O anfitrião referiu que é preciso “abrir o coração e todos os sentidos” para “descobrir Deus na beleza e subtileza de cada um dos encantos” do santuário do Bom Jesus.
A Câmara Municipal de Braga fez-se representar na sessão de abertura pela vice-presidente, Sameiro Araújo, segundo a qual este congresso é fundamental para refletir sobre matérias que “têm sido pouco abordadas e estudadas no nosso país”.
“Este congresso internacional constitui uma oportunidade excecional imperdível para uma reflexão profunda acerca da vida do humano, do divino, do futuro», considerou a autarca, acrescentando que os tópicos que vão ser apresentados pelos conferencistas «interessam a todos, pois cada um tem a sua espiritualidade e a sua mística, é uma dimensão que faz parte da natureza humana”.
Em representação da Câmara de Guimarães esteve Adelina Pinto. A vice-presidente expressou o desejo de que este congresso de espiritualidade ajude a “desenhar novos caminhos” neste mundo “de guerra, de lutas, de fome, de desrespeito pelo outro”.
A autarca referiu que o caminho seguido nas últimas décadas, “muito centrado no poder das ciências exatas, dos algoritmos, da economia, da biologia, da Inteligência Artificial, na busca de outros mundos, não resultou” e “teremos de ser muitos inteligentes e não fazer o mesmo caminho e esperar resultados diferentes”.
Cónego José Paulo Abreu convida a fazer percurso místico no Bom Jesus
Presidente da Comissão Organizadora proferiu conferência de abertura do I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística
Os trabalhos do I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística abriram com uma conferência do cónego José Paulo Abreu, presidente da Comissão Organizadora, na qual falou das várias dimensões do Bom Jesus do Monte, centrando-se mais na do santuário como “percurso místico”.
“Foi concebido nessa lógica. Quer-nos nesse caminho que se conclui no desaparecimento do vácuo entre o humano e o divino. As distâncias terão de desaparecer. Os obstáculos terão de eclipsar-se. O mergulho da criatura no Criador terá de acontecer”, disse.
Referindo que “o caminho ascético” comporta três vias – a purgativa, a iluminativa e a unitiva –, o orador convidou a percorrer este caminho espiritual e contemplativo no Bom Jesus com a ajuda, por exemplo, do “Compêndio de Teologia Ascética e Mística” do sacerdote francês Adolphe Tanquerey (1854-1932), um clássico da espiritualidade católica em todo o mundo, e de um mapa do santuário.
“No Bom Jesus, a via purgativa transporta-nos do arco de entrada até ao pátio (espaço coberto de arvoredo, muito degraus em ziguezague, convite à ascese, ao sacrifício, ao ‘ter que subir…’). A via iluminativa leva-nos do pátio (onde mudamos de direção, ficando virados para a Basílica) ao Terreiro do Pelicano. Pelo meio, as fontes dos sentido e das virtudes. A via unitiva, a última, começa na Fonte do pelicano, adensa-se na Basílica e termina no Terreiro dos Evangelistas», explicou.
O cónego José Paulo Abreu convidou também a visitar a Basílica do Bom Jesus, que tem “tanto para contar”.
“Para além de um discurso passional, o Bom Jesus é também um discurso eucarístico: na primeira capela encontramos a Última Ceia; pelo meio do percurso encontrámos um cálice; terminamos sentados à mesa, fazendo companhia a Jesus e aos Discípulos de Emaús. E esse pão, garante quem o dá, é para a Vida eterna…", conduziu.
O Bom Jesus, classificado como património da humanidade pela Unesco em 2019, é um dos santuários/estâncias da região mais procurados, seja por motivação religiosa, turística, ambiental ou até desportiva.
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