Arquidiocese de Braga -

13 janeiro 2026

Opinião

A missão do político cristão: servir e cuidar

No passado dia de Natal, o Jornal Expresso deu-nos a conhecer uma história rara no espaço da informação mediática, mas relativamente comum em muitas freguesias do nosso país. Na pequena aldeia de Edral, no concelho de Vinhais, há um presidente da junta “multiusos”, efetivamente presente na vida diária desta população bastante envelhecida. “Resolve aquilo que os idosos não conseguem fazer: levanta as reformas, faz o IRS e compra medicamentos à população”. Não sei se este político é cristão, mas creio que “encaixa” bem num modelo de político cristão, tão necessário e urgente num tempo que privilegia a política-espetáculo, vazia de humanidade, em detrimento da política do serviço e do cuidado.

Partindo deste exemplo, em véspera de eleições presidenciais, gostaria de refletir sobre a missão do político cristão na governação da comunidade política. Claro que, do ponto de vista jurídico e institucional, as funções de governação de um presidente da junta não se compaginam com as de um presidente da República, mas do ponto de vista ético, ambos convergem na defesa e promoção de valores comuns. Independentemente da especificidade das funções que cada um ocupa, bem sabemos que a missão do político cristão não se esgota numa gestão competente e eficiente dos recursos que tem à sua disposição, mas ganha verdadeiro sentido quando se apresenta com ações concretas transformadoras da vida das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis. 

Ser político será sempre um serviço exigente, talvez hoje mais do que nunca. O escrutínio público é saudável e necessário numa democracia, mas, no contexto das redes sociais e da concorrência desenfreada das audiências televisivas, transforma-se muitas vezes numa pressão avassaladora. As vozes multiplicam-se: algumas incentivam, outras condicionam, muitas julgam injustamente, às vezes de forma cruel sem qualquer sustentação racional. A exposição permanente, a velocidade e a volatilidade da opinião e a lógica do confronto, tudo isto em “praça pública”, criam um caldo e um ambiente de nervosismo permanente, onde é difícil discernir e decidir com serenidade. 

No entanto, o político cristão nunca poderá perder de vista os desígnios fundamentais que brotam do Evangelho, nomeadamente, a dignidade da pessoa humana, a justiça social e a defesa dos mais frágeis. E nunca poderá deixar de governar com integridade, transparência e responsabilidade na fidelidade à Palavra que apela a cuidar do outro como irmão. A este propósito, o Papa Francisco, apropriando-se da definição do Papa Pio XI, recordou-nos, em diversas ocasiões, que “a política é a mais alta forma de caridade”.

Com frontalidade, quero lembrar que o político cristão não se deve deixar guiar por rótulos ou por preconceitos, mas por rostos; não se deve nortear por ideologias vãs ou princípios taticistas, mas pela pessoa de Jesus Cristo, presente em cada rosto humano, marcado pela sua história, pela sua fragilidade e também pela sua esperança. O político cristão assumirá a ética do cuidado, do amor que se faz próximo e da justiça que não exclui, mesmo quando é preciso ir contra a corrente, e comunicará as suas ideias e posições de modo a construir pontes, a esclarecer sem ferir e a procurar soluções que promovam a coesão e o bem comum. 

Por outro lado, o político que escolhe sistematicamente a lógica do confronto, do populismo e da radicalização do discurso afasta-se do horizonte cristão da ação política. Mesmo quando os seus eleitores ou os próprios justificam o seu desempenho com a afirmação de que a divisão pode ser necessária, em favor de um bem maior, invocando que Jesus também veio trazer a “espada” (Mt 10,34), não podem fazê-lo para legitimar estratégias de conflito ou de exclusão. No Evangelho, essa divisão não nasce do ódio, da discriminação, nem da manipulação das emoções, mas da fidelidade à verdade e ao amor, que tantas vezes incomodam e desinstalam. Utilizar o nome de Jesus Cristo para justificar discursos que alimentam o medo, a hostilidade ou a desumanização do outro é trair o coração da mensagem cristã, que nos convoca sempre à reconciliação, à justiça e à paz.

Por fim, é importante notar que o político cristão não deverá procurar, de forma alguma — e muito menos com proselitismo — converter quem quer que seja, mas apenas servir e cuidar. Mas, se o seu testemunho for inspirador e levar alguém, por ação do Espírito Santo, a trilhar o caminho da fé cristã, então, que assim seja. Como tantas vezes dizia o Papa Francisco: “a Igreja cresce por atração, não por proselitismo.”

 

Sérgio Cabral, professor de EMRC e membro do CMAB