Arquidiocese de Braga -
16 março 2026
Braga recebe obra de Pavanello que interroga sombras e luz da alma
DM - Cristiana Barbosa
Capela Imaculada acolhe exposição integrada na programação da Semana Santa
A Capela da Imaculada Conceição, em Braga, acolheu, ontem, a inauguração da exposição “Os Loghismoi de Evágrio Pôntico e o Apocalypsis Iesu Christi segundo Giancarlo Pavanello”, que se mantém patente até 7 de abril. A mostra integra o programa da Quaresma e da Semana Santa e propõe um diálogo entre arte contemporânea, tradição espiritual cristã e reflexão sobre a condição humana.
O presidente da Comissão da Quaresma e Solenidades da Semana Santa de Braga, cónego Avelino Amorim, destacou que a exposição oferece «um encontro entre a arte contemporânea, a tradição espiritual crista e reflexão sobre a condição humana no mundo atual». A investigação verbo-visual de Pavanello combina palavra e imagem em composições simbólicas que convidam o observador «a uma leitura interior da realidade». O artista italiano Giancarlo Pavanello, também conhecido como Carlo Pava, nasceu em Veneza em 1944 e reside em Milão desde 1978.
A exposição baseia-se na tradição dos Logismoi, descritos por Evágrio Pôntico como pensamentos ou impulsos interiores que influenciam profundamente a vida humana e que deram origem à tipologia dos pecados capitais. «Estes dinamismos revelam que o verdadeiro combate humano se desenrola no interior da consciência onde se decide a liberdade da pessoa», explicou o cónego Avelino Amorim. A referência ao Apocalipse acrescenta uma dimensão complementar, procurando «iluminar o drama humano e abrir um horizonte de esperança».
A mostra reúne dois ciclos de pintura, sendo o primeiro constituído por nove painéis que representam os oito Logismoi, mais um painel dedicado à soberba, e o segundo por sete telas que interpretam versículos do Apocalipse de São João. Monsenhor Mário Rui de Oliveira descreveu a proposta do artista como «uma exposição que desafia a crise da palavra no mundo contemporâneo», em que a fronteira entre escrever e pintar é explorada em cada painel.
Segundo Monsenhor Mário Rui, cada obra confronta o espectador com o mal, a redenção e o destino da civilização ocidental. Sublinhou que Pavanello não segue uma iconografia tradicional: «Pavanello não prega, não é um pregador, não faz homilias, não é um moralista. Ele ataca. A linguagem que escolheu para inscrever estes pensamentos nas telas é deliberadamente rude, quase violenta». As cores e fragmentos de texto oscilam entre o legível e o ilegível, convidando à reflexão sobre os vícios humanos, mas também sobre a esperança e a redenção.
A curadora da exposição, Helena Mendes Pereira, recordou que, o ano passado, a obra do artista já havia sido apresentada em Braga e salientou que a relação entre imagem e palavra é central no trabalho de Pavanello. «A espiritualidade, na essência e no que é mais importante, ela não precisa de ser institucional, ela é interior, ela é profundamente interior», explicou. Segundo a curadora, os painéis oferecem ao público a possibilidade de «se ver, fazer espelho em algum dos detalhes» e refletir sobre os pecados capitais e sobre a própria existência.
O engenheiro José Teixeira, da dstGroup, destacou o percurso de aproximação que permitiu trazer a obra para Braga e comentou o papel da arte como ferramenta de reflexão: «para nós foi um privilégio, agradecemos, mais uma vez, ao Padre Mário Rui, de nos ter desassossegado e de nos ter trazido um projeto que nos obrigou a fazer perguntas, porque é nas perguntas que nós podemos não encontrar as respostas, mas evoluímos sempre na procura das respostas».
Padre João Paulo Brito da Costa acrescentou uma perspectiva espiritual e filosófica, explicando que os “Loghismoi” representam «pensamentos inebriantes, entontecedores, pensamentos, sentimentos, memórias, que assaltam a mente, surgindo frequentemente sem aviso prévio». Para ele, a exposição permite refletir sobre a origem espiritual do mal e a relação do ser humano com a redenção. «Rodeado o mundo de escuridão, de pensamentos malignos logismoi e de apocalipses vários, a pena de Carlo Pava com que tece os painéis abre-nos um caminho possível e percorrível para chegar à luz, ainda que por instantes», afirmou.
A exposição é organizada pela Comissão da Quaresma e Solenidades da Semana Santa de Braga, integrada no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, no Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal e reconhecida como de interesse turístico pelo Turismo de Portugal. Este projeto insere-se na Rede Europeia de Celebrações da Semana Santa e Páscoa e procura refletir sobre a espiritualidade, o exercício interior e os desafios da condição humana contemporânea, convidando os visitantes a um percurso simbólico de autoconhecimento e discernimento.
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