Arquidiocese de Braga -
16 março 2026
Opinião
Tirar as espadas à Senhora
A Quaresma e o Tríduo Pascal afirmam-se como o mais intenso momento do calendário cristão. Por isso mesmo, é um período especialmente marcado por práticas e manifestações de religiosidade, que se foram enraizando no devocionário cristão.
A devoção a Nossa Senhora das Dores afirma-se atualmente como um dos mais populares cultos da Paixão de Cristo. A presença de esculturas da Mãe Dolorosa, de rosto pesaroso e lacrimejante, com sete espadas a trespassar-lhe o peito, é especialmente frequente em muitos lugares da Cristandade, sobretudo onde a religiosidade assumiu a sua veneração.
Na cidade de Braga, esta singular evocação mariana haveria de conhecer o seu início no antigo templo dos oratorianos ou dos padres congregados, a partir de 1761, tendo sido, plausivelmente, o principal centro de propagação deste culto no território português.
Inspiração para os mais conceituados melómanos bracarenses e alento para os mais ardorosos oradores, a evocação das Dores de Maria instaurada no templo dos Congregados, teria a sua festividade sucessivamente reconhecida como “a mais imponente” prática da religiosidade integrada no devocionário da cidade de Braga.
A solenidade de Nossa Senhora das Dores da Basílica dos Congregados decorre em dois momentos distintos. Primeiro, na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos e depois no Sábado Santo, durante a Vigília Pascal, sendo constituída exclusivamente por manifestações de índole religiosa e devocional.
Inserido no programa oficial das Solenidades da Semana Santa de Braga, o primeiro momento coincide propositadamente com a passagem do Lausperene Quaresmal pelo templo dos Congregados. Na sexta-feira o Lausperene é encerrado com uma missa solene, acompanhada de eloquente sermão e grande instrumental, dedicada a Nossa Senhora das Dores cuja imagem surge devidamente enquadrada entre velas e flores. Para esta ocasião, veste-se a indumentária solene à imagem de roca, que assim se mantém duas semanas.
O segundo ato da Festa de Nossa Senhora das Dores decorre na noite do Sábado Santo, mais propriamente no final da celebração da Vigília Pascal. Centrada na imagem de Nossa Senhora das Dores, que chegou a ser utilizada como ostensório para exposição do Santíssimo Sacramento, a vivência desta celebração já não integra hodiernamente o rol de práticas compiladas pelo Padre Martinho Pereira, conservando, no entanto, um ato devocional, que é bastante significativo.
Na “Collecção Sacro-Dolorosa”, no seu capítulo XX, o padre Martinho Pereira descreve “o Modo de coroar a imagem da Senhora das Dores no Sábado Santo”, citando uma prática que ainda hoje perdura na cidade de Braga. Segundo o sacerdote oratoriano, esta prática foi iniciada pela Arquiduquesa da Áustria Anna Juliana Gonzaga (1566-1621) no convento que mandara fundar em 1607 sob a égide dos Servos de Maria e no qual ela própria professara.
A arquiduquesa, juntamente com as demais religiosas, na Quinta-Feira Santa substituíam o esplendor da imagem de Nossa Senhora das Dores por uma coroa de espinhos. Escurecendo o lugar onde se venerava a imagem, as religiosas mantinham-se em oração contínua até ao Sábado Santo: «Neste dia todas juntas lhe davam as boas novas da Ressurreição de seu Filho, e a coroavam com uma riquíssima coroa, que a Arquiduquesa levava em uma salva, tirando-lhe a de espinhos, que lhe tinham posto na Quinta feira, rezando todas em tom muito festivo o Regina Coeli» (Pereira, 1791).
Atualizada a prática no século XVIII, o padre Martinho Pereira a sugere tal como ainda hoje se pratica na Basílica dos Congregados. No Sábado Santo, antecedendo a Vigília Pascal, a imagem de Nossa Senhora das Dores é retirada do seu retábulo e colocada na capela-mor em cima de um pedestal. No final da celebração da Vigília Pascal, o presidente, acompanhado de dois diáconos ou acólitos, dirige-se à imagem de Nossa Senhora das Dores, inclinando-se diante dela e incensando-a em seguida, enquanto se canta o Magnificat.
Depois, colocado ao nível da imagem, vai retirando, uma a uma, as espadas suspensas na imagem de Nossa Senhora, “abaixando a cabeça, quando tira cada uma delas, e beijando-a quando a entrega ao Subdiácono” (Pereira, 1791). O coro, entretanto, vai entoando com sonância festiva, o cântico “Regina Coeli”. A cerimónia finda com a coroação da imagem, retirando-se o resplendor e colocando-se uma coroa real “com repiques dos sinos, na forma que se fez na “Gloria in excelsis Deo”.
Antecedendo a retirada de cada uma das espadas, costuma ser pronunciada uma reflexão referente a cada uma das dores a que as espadas metaforicamente aludem. A imagem de Nossa Senhora das Dores, entretanto convertida em Nossa Senhora das Alegrias, mantém-se desprovida das suas espadas durante a semana pascal.
Trata-se indiscutivelmente de um dos cerimoniais mais peculiares realizados no âmbito do imaginário da Paixão de Cristo no mundo cristão, felizmente ainda praticado na cidade de Braga.
Apesar desta prática devocional e extra-litúrgica estar determinada realizar-se no final da Vigília Pascal, em 1974, a Irmandade deliberou “fazer a festa da coroação de Nossa Senhora das Dores no domingo a seguir à Páscoa, pelas 11h30, no final da missa das 10h30”. Esta decisão acabou por não registar outras ocorrências, mantendo-se a sua realização no final da Vigília Pascal.
O culto de Nossa Senhora das Dores
Iniciada a partir do final da Idade Média, a devoção de Nossa Senhora das Dores conheceria um singular desenvolvimento a partir do século XVII, momento em que o Papa Urbano VIII oficializou o culto e o confiou particularmente à Ordem dos Servos de Maria (Servitas). Trazida para Portugal por uma rainha da dinastia de Habsburgo, D.ª Maria Ana de Áustria, esposa de D. João V, a evocação das Dores de Maria encontrou na cidade de Braga o seu empório devocional, partindo da especial inspiração de um devoto sacerdote oratoriano, o Padre Martinho Pereira. A Irmandade de Nossa Senhora das Dores, sediada no templo dos padres congregados desde 1761, terá sido o mais importante epicentro desta devoção mariana no nosso país. Por isso mesmo, a imagem das sete espadas, que contemplamos atualmente no mais sublinhado retábulo da Basílica dos Congregados, não é simplesmente mais uma evidência do enraizamento deste culto no nosso país, mas foi, em si mesma, a inspiração para a sua intensa difusão por todo o território da, então vasta, Arquidiocese de Braga, mas nas demais dioceses portuguesas e nos territórios ultramarinos, nos quais estava presente a Congregação do Oratório.
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