Arquidiocese de Braga -
5 abril 2026
Núncio apostólico elogia fé e vivência comunitária na Semana Santa de Braga
Diário do Minho/DACS
Visita deixou “marca” em D. Andrés Carrascosa Coso, representante do Papa em Portugal
O Núncio Apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso, enalteceu a vivência, a fé e o profundo envolvimento comunitário que marcam a Semana Santa de Braga, conferindo-lhe uma identidade própria e tornando-a uma das mais emblemáticas do país e do mundo.
Ao longo dos três dias da sua visita a Braga para participar nas solenidades, D. Andrés Carrascosa Coso conheceu de perto a realidade da Semana Santa, presidiu a várias celebrações e participou nas três principais procissões solenes (Burrinha, Ecce Homo e Enterro do Senhor).
Em entrevista ao Diário do Minho e ao Departamento Arquidiocesano para a Comunicação Social (DACS) da Arquidiocese de Braga, o Prelado fez um balanço extremamente positivo desta experiência e prometeu regressar a Braga.
«Foi um tempo muito bonito! Eu venho de uma terra que tem uma enorme tradição de Semana Santa, pois a Semana Santa da minha cidade, Cuenca, é declarada de Interesse Turístico Internacional. Porém, eu devo dizer que achei uma coisa diferente na Semana Santa em Braga: ela é vivida “para dentro”, não é tão folclorística. Ver a Procissão da Burrinha, ver oitocentas pessoas a participar e crianças, velhos, a assistir, milhares e milhares de pessoas a acompanhar... fiquei impressionado. Mas mais impressionado ainda quando, na quinta-feira, vi que o número era muito superior.», confessou o representante da Santa Sé.
D. Andrés Carrascosa Coso demonstrou-se igualmente deslumbrado com a participação massiva na Procissão do Enterro do Senhor, e enalteceu «o silêncio impressionante e o respeito infinito das pessoas, que à passagem do Santo Lenho se ajoelhavam, participando efetivamente».
Sobre as celebrações litúrgicas que decorreram na Sé de Braga, o Núncio Apostólico em Portugal relevou o «cuidado» colocado nas liturgias, e enalteceu o trabalho e testemunho do Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, enquanto «especialista em liturgia».
«A liturgia é celebrada de maneira muito séria, muito verdadeira (porque senão poderia tornar-se um teatro) e muito participada», descreveu, acrescentando que durante as homilias sentiu que estava a dialogar com os fiéis presentes na Catedral.
Considerando que «procissões como as de Braga não se fazem sem a colaboração de muitas instituições diferentes», D. Andrés salientou a contribuição da Câmara Municipal de Braga, do poder político, das forças de segurança e da sociedade civil em geral.
«Cada um serve de maneira diferente. Porém, todos servimos o mesmo povo. Essa colaboração entre instituições é evidente nas ruas, durante as celebrações e quem ganha é o povo», alegou, agradecendo o bom acolhimento que teve em Braga.
Referindo-se ao tempo de Páscoa como «tempo de renovação e de esperança», o Prelado declarou que «ao viver a Semana Santa a sério, estamos a lançar as bases para que essa esperança não seja simplesmente um sentimento».
«Para viver em esperança, é preciso escutar a Palavra de Deus, é preciso viver o amor recíproco porque é o centro do Evangelho. Não adianta ir à missa e depois viver de outra maneira, estar sempre a criticar, a caluniar. Isso é incompatível», afirmou.
Profundo defensor da «piedade popular» tão praticada na sua terra natal, D. Andrés afirmou que, «essa piedade popular, essa religiosidade, deve levar-nos a viver o Evangelho, caso contrário estaremos a criar uma esquizo-
frenia entre aquilo que dizemos e aquilo que prati-
camos».
«É o testemunho que o mundo tem o direito de encontrar nas vidas dos cristãos», concluiu.
D. Andrés pediu a Deus mais sacerdotes para a Arquidiocese de Braga
D. Andrés Carrascosa Coso pediu a Deus um «presente especial para a Arquidiocese de Braga», rogando-lhe por um maior número de sacerdotes que respondam às necessidades deste «povo muito praticante, muito católico, que participa nas celebrações e que pede muito a presença do padre».
O representante diplomático da Santa Sé teve a oportunidade de jantar e conversar com seminaristas que se preparam em Braga para a vida eclesiástica, mostrando-se feliz como número de jovens que pretendem tornar-se sacerdotes.
«Estou convencido que a vitalidade de uma comunidade cristã também, – não somente –, mas também é refletida no número de pessoas que, por Amor a Cristo, decidem entregar-Lhe a vida toda e não somente um momento. É fácil ir a um retiro e emocionar-se, mas é complicado entregar a vida toda», expôs o Prelado.
D. Andrés considera que «a Igreja vive hoje um problema de transmissão de fé», sendo as procissões e as restantes manifestações de fé da Semana Santa «fundamentais» para concretizar a propagação pedagógica da mensagem.
«Vi tantas famílias, crianças, algumas já a dormir... Recordei-me então que, na liturgia dos judeus, quando celebram a Páscoa, é a pessoa mais nova da família que pergunta à mais velha o que é que estão a celebrar. Aqui, nas procissões sucede a mesma coisa, porque as crianças perguntam à passagem do cortejo», ponderou..
O representante do Papa no nosso país considera que «a fé se transmite com o leite materno» e que «como comunidade cristã temos a responsabilidade de viver em profundidade e de ajudar os jovens a colocarem-se diante da vida como uma vocação».
«Não se trata apenas de ser padre ou freira. O matrimónio também é uma vocação para a qual é preciso preparar-se», afirmou
Ainda sobre “prendas”, D. Andrés referiu-se à «expressão de fé vivida nas procissões» em Braga como «um presente de Deus, que não podemos perder.».
«Somos descendentes de um povo de santos. A nossa responsabilidade é agora passar isso às jovens gerações, que são sempre mais difíceis», alertou.
«Papa Leão XIV está a convidar-nos a abrir a mente, a escutar»
O representante da Santa Sé em Portugal declarou que o Papa Leão XIV nos tem vindo «a convidar a abrir a mente, a escutar e a ouvir quem pensa de forma diferente».
Tendo saído da sua terra natal há 48 anos, e sendo diplomata há 41, D. Andrés Carrascosa Coso passou por vários países e fala diferentes idiomas, tendo vivenciado, também ele, a experiência de ser estrangeiro em vários lugares. Tendo passado por África e vivido em vários países da América Latina, da Europa, da Escandinávia e das Nações Unidas, o representante do Papa em Portugal afirma ter encontrado mais semelhanças do que diferenças.
«Encontrei um mundo muito plural, muito diferente. Mas, ao mesmo tempo, eu descobri que o Ser Humano é muito mais igual em toda parte», vincou.
Num tempo em que a humanidade se confronta, em tantos lugares do mundo, com a rejeição por aqueles que vêm de fora, que são diferentes, o representante da Santa Sé considerou que se trata de «uma onda mundial, que vai e volta, um pêndulo».
«Estamos a ser vítimas de nós mesmos. Somos escravos dos algoritmos. Se visitarmos certas páginas na internet, os algoritmos vão sugerir apenas páginas com essa maneira de pensar e nunca iremos escutar os argumentos de quem pensa de maneira diferente», explicou, alertando que «o mundo não é feito apenas daqueles que pensam igual».
Segundo D. Andrés Carrascosa «o Papa está a convidar-nos a abrir a mente, pois a verdade não está toda de um lado».
A este propósito referiu um discurso recente de Leão XIV, que «convidava a não reduzir a raiva a um videojogo» e a «dizer as coisas, a informar, com uma mentalidade não divisiva, mas integradora».
Andrés Carrascosa não dissocia o Papa Leão XIV do seu amigo Robert Francis Prevost, seu colega de carteira, quando realizaram ambos os seus estudos de Direito em Roma
«Fomos colegas de estudo e bons amigos. Mantivemos esta amizade e eu, pessoalmente, estou feliz de ver que ele é a mesma pessoa que eu conheci nos anos 1981, 82 e 83.
É a mesma pessoa, com aquele mesmo equilíbrio e sentido comum», afirmou, salientando ainda a sua enorme capacidade de escutar mesmo aqueles que pensam de maneira diferente».
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