Arquidiocese de Braga -

26 junho 2026

Opinião

Os desafios da Inteligência Artificial - MAGNIFICA HUMANITAS

D. Nélio Pita

Na atualidade, existe um consenso generalizado sobre o potencial da Inteligência Artificial (IA) como meio que inaugura uma etapa crucial na história humana.

Há períodos na história da humanidade em que são dados passos de gigante. Há milhões de anos, a descoberta e o controlo do fogo ou a invenção da roda foram marcos significativos na transformação da vida das pessoas. Muito mais tarde, a arquitetura das relações dos homens entre si foi alterada com a Revolução Industrial. A concentração da riqueza nas mãos de um punhado de patrões, em detrimento do sacrifício de milhões de trabalhadores, proporcionou a emergência de novos sistemas políticos e económicos que estiveram na origem de revoluções e de guerras. A humanidade nunca mais foi a mesma.

A Igreja não vive fora deste mundo. Por isso, no contexto do crescente fosso entre ricos e pobres, na segunda metade do séc. XIX, com publicação da encíclica Rerum Novarum, o Papa Leão XIII lança as bases da Doutrina Social da Igreja, uma reflexão sobre a sociedade, a economia e a política. Também nessa altura, como lembra o atual papa, algumas pessoas, motivadas por uma espiritualidade desencarnada, consideravam que a «Igreja não devia desperdiçar energias em questões mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna». Em resposta, Leão XIII sublinhava que o «anúncio do Evangelho não podia negligenciar a vida concreta dos povos» (RN, 3). A proclamação da Boa Nova tem claras implicações existenciais e, por isso, a Igreja é chamada a ser uma voz que promove a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Na atualidade, existe um consenso generalizado sobre o potencial da Inteligência Artificial (IA) como meio que inaugura uma etapa crucial na história humana. A IA é o motor de uma revolução cujas consequências são ainda imprevisíveis, mas cuja funcionalidade é já bem conhecida, nas mais variadas situações, desde as rotinas mais simples até às decisões mais complexas. Recentemente, por exemplo, ouvia o testemunho de um professor que diante de um grupo de alunas angustiadas lhes perguntava o que é que tinham. «Pedimos ajuda à IA para superar a crise de ansiedade…», respondeu a porta-voz das aflitas. O que antes era dialogado com um outro, um semelhante, agora o interlocutor é a máquina sem coração.

A IA pode ser motivo de esperança e de muitas alegrias. Em áreas como a medicina, tem sido possível obter respostas para problemas que até agora pareciam insolúveis. Mas é também causa de preocupação. Não é difícil imaginar a IA em mãos erradas e os seus efeitos nefastos na vida de terceiros. A título de exemplo, o Papa Leão XIV refere a ideologia transumanista e a pretensão de recriar o ser humano num modelo híbrido, uma versão aparentemente aperfeiçoada da condição humana, o Homo Sapiens 2.0. A chave de aceso à nova versão, que será aperfeiçoada com constantes “upgrades”, é o capital. Para isso, é preciso que outros, os mais pobres e imperfeitos, sejam sacrificados. Eles são os meios indispensáveis para alimentar a ambição dos eleitos, os mais ricos, a raça superior, aqueles que querem superar os limites da temporalidade e evitar todas as formas de sofrimento (cf. MH, 115-126).

Outra área em que o recurso à IA fere gravemente a dignidade humana é a guerra (MH, 182s). O Papa Leão XIV destaca a alteração da gramática dos conflitos motivada pela revolução digital. Por isso, deixa um apelo urgente: «A IA precisa ser “desarmada”, libertada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão ou morte. Assim como a energia nuclear, ela deve servir a todos e ao bem comum» (cf. MH, 110). Está em causa o futuro da humanidade.
Para o bom uso da IA, no segundo capítulo da MH (n. 46-89), em conformidade com a Doutrina Social da Igreja, o Papa Leão relembra o conjunto de cinco critérios para o discernimento na tomada de decisões. São eles: 1) o Bem Comum; 2) o destino universal dos bens; 3) a subsidiariedade; 4) a solidariedade; 5) a justiça social.

Podemos qualificar de magnífica a humanidade que faz a guerra, que promove a desigualdade, que ergue muros, que explora os recursos naturais, indiferente ao amanhã? A resposta é clara: não! Ela só é magnífica quando reconhece a sua vocação como finita e amada pelo Criador, destinada a «construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos» (MH, 1).
 


+ Nélio Pita, CM


 

 

Artigo publicado em https://www.padresvicentinos.net/