Arquidiocese de Braga -

12 outubro 2026

«A grande missão da Igreja é ser casa»: D. José Cordeiro fala do futuro de Balasar, da canonização de Alexandrina e da visita do Papa

D. José Cordeiro, Arcebispo Metropolita de Braga
Fotografia DACS

O Arcebispo Metropolita de Braga considera que a dedicação do novo Santuário Eucarístico de Balasar marca o início de uma responsabilidade pastoral acrescida: transformar o espaço numa «casa para todos», particularmente para quem procura esperança e senti

«Este momento é indescritível.» Foi assim que D. José Cordeiro resumiu, perante os jornalistas, a emoção vivida nas celebrações dos dias 10 e 11 de outubro, que culminaram com a dedicação da igreja e do altar do novo Santuário Eucarístico de Balasar.

Depois de dois dias que reuniram milhares de peregrinos e devotos da Beata Alexandrina Maria da Costa, o Arcebispo de Braga não escondeu a satisfação pela concretização de um projeto há muito desejado. Mas fez questão de sublinhar que a conclusão da obra não representa um ponto de chegada. Pelo contrário, é o início de uma nova missão.

«Estes dois dias vêm confirmar a necessidade desta casa», afirmou, explicando que o Santuário não pode ser entendido apenas como um espaço destinado ao culto ou à atividade cultural.

«Quer ser casa que acolhe, onde as pessoas possam enxugar as suas lágrimas, trazer as suas dificuldades, os seus problemas e encontrar braços e corações abertos para as ajudarem a ressituar-se na vida, a dar sentido à sua existência, à luz do Evangelho, como fez a Alexandrina Maria.»

A imagem de uma Igreja que acolhe, escuta e acompanha atravessou as declarações de D. José Cordeiro, que deixou um desafio à comunidade responsável pelo Santuário: fazer daquele lugar uma verdadeira experiência de hospitalidade cristã.

«A grande missão da Igreja é ser casa. Fazer casa, onde acolha todos»

Para o Arcebispo, o testemunho da Beata Alexandrina constitui a principal inspiração para a missão que agora começa.

Recordando a sua existência marcada pelo sofrimento e pela doença, D. José Cordeiro sublinhou que Alexandrina poderia ter reagido às adversidades de forma muito diferente, deixando-se dominar pela revolta ou pelo desânimo.

Em vez disso, encontrou em Cristo, na Eucaristia e na devoção a Nossa Senhora — a quem carinhosamente chamava «Mãezinha» — o centro da sua existência.

O Arcebispo recordou também a importância do acompanhamento espiritual que recebeu ao longo da vida, nomeadamente de sacerdotes jesuítas, salesianos e diocesanos.

«Ela tornou-se, ela mesma, uma inspiração para muitas pessoas, porque é uma vida cheia de vidas», afirmou.

D. José Cordeiro revelou ter encontrado, durante as celebrações, um sacerdote já muito idoso que teve oportunidade de conhecer pessoalmente Alexandrina. Um testemunho que se junta a tantos outros de pessoas cuja existência foi marcada pelo contacto com a Beata.

Na sua interpretação, quem chega hoje a Balasar encontra mais do que a memória de uma mulher extraordinária. Encontra uma experiência espiritual que pode ajudar a compreender a própria vida.

O Arcebispo destacou, a este propósito, uma das esculturas do novo Santuário, que representa Alexandrina de braços abertos, num gesto de acolhimento.

«É essa imagem que o Santuário quer como missão», explicou.

Dirigindo-se ao reitor, Monsenhor Manuel Casado Neiva, e à equipa que o acompanha, salientou a responsabilidade pastoral que começa agora.

«A grande missão da Igreja é ser casa. Fazer casa, onde acolha todos, porque é uma casa para todos.»

Uma missão que ganha particular significado perante o número crescente de peregrinos que chegam a Balasar, não apenas de Portugal, mas de lugares muito distantes do mundo.

Canonização: D. José apela a quem atribui curas à Beata Alexandrina para apresentar documentação

Um dos momentos mais relevantes das declarações do Arcebispo esteve relacionado com o processo de canonização da Beata Alexandrina Maria da Costa.

Questionado sobre a possibilidade de ser reconhecido um novo milagre que permita avançar para a canonização, D. José Cordeiro confirmou que existem situações a ser acompanhadas.

«Nós já tivemos para análise, creio que, dois casos e está um para ser enviado também para Roma», revelou.

Segundo explicou, os casos anteriormente analisados não reuniram as condições necessárias para serem considerados cientificamente inexplicáveis.

Contudo, o Arcebispo afirmou ter conhecimento de diversas pessoas que atribuem curas extraordinárias à intercessão da Beata Alexandrina, algumas das quais estiveram presentes nas celebrações do novo Santuário.

O principal obstáculo, em várias dessas situações, tem sido a ausência de documentação clínica adequada.

Por esse motivo, D. José Cordeiro renovou o apelo a todas as pessoas que considerem ter recebido uma cura por intercessão de Alexandrina para que comuniquem o sucedido e apresentem os respetivos elementos médicos.

É fundamental, explicou, documentar todo o percurso clínico: o estado anterior à cura, as circunstâncias em que ocorreu e a evolução posterior.

Só assim poderá ser feita uma avaliação rigorosa, tanto do ponto de vista médico como canónico.

O Arcebispo recordou ainda um caso de cura que chegou a ser devidamente documentado, mas que não pôde servir para o processo de canonização por ter ocorrido antes da beatificação, celebrada em 2004.

Para a canonização, é necessário o reconhecimento de um milagre ocorrido depois dessa data.

Apesar das dificuldades, D. José Cordeiro mantém a esperança de que venha a ser possível reunir um processo que permita avançar para a proclamação da santidade de Alexandrina.

«Continuamos a rezar e a acreditar que um dia vai acontecer», afirmou.

E acrescentou uma convicção que, na sua perspetiva, ajuda a compreender a força da devoção popular: «Ela já é [santa] no coração do povo, já está inscrita na mente e na vida de tantas e tantas pessoas».

O Arcebispo considera que Alexandrina continua a exercer uma influência espiritual profunda, como testemunham as inúmeras pessoas que recorrem à sua intercessão.

Uma grande mística ainda por descobrir

Para D. José Cordeiro, a importância de Alexandrina ultrapassa a devoção popular e merece uma atenção crescente por parte da investigação teológica e histórica.

O Arcebispo destacou a profundidade da experiência mística da Beata, considerando particularmente impressionante a riqueza dos seus escritos e dos testemunhos que deixou, tendo em conta a sua formação escolar limitada.

«Quando lemos escritos de Alexandrina ou ouvimos relatos, sentimos um tremor muito grande», confessou.

Na sua interpretação, a experiência espiritual de Alexandrina aproxima-se daquela que encontramos noutras grandes figuras da história da Igreja, evocando particularmente Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja e copadroeira da Europa.

Para o Arcebispo, há uma dimensão da vida de Alexandrina que ultrapassa a compreensão meramente racional e que remete para a experiência do mistério de Deus.

«Deus não se merece, acolhe-se. E Alexandrina acolheu Deus na sua vida», afirmou.

D. José Cordeiro revelou ainda que está em curso um trabalho de preparação de edições críticas dos escritos da Beata, um passo que considera fundamental para aprofundar o conhecimento da sua espiritualidade.

Manifestou, por isso, o desejo de que investigadores e estudiosos possam dedicar maior atenção a esta mulher leiga de Balasar, cuja experiência mística considera ainda insuficientemente conhecida.

«Esta grande mística marca um ciclo na história da Igreja e ainda está muito por redescobrir», sublinhou.

Arquidiocese de Braga já convidou Leão XIV a visitar a região

A possibilidade de uma visita do Papa Leão XIV a Portugal foi outro dos temas abordados no encontro com os jornalistas.

D. José Cordeiro confirmou que a Arquidiocese de Braga já apresentou um convite ao Santo Padre para visitar a região, embora não exista qualquer data definida.

O Arcebispo recordou ter tido oportunidade de estar com Leão XIV no final de agosto, juntamente com o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

«Aguardamos serenamente», afirmou.

A eventual deslocação pontifícia teria, segundo D. José Cordeiro, um significado especial para a Arquidiocese de Braga, pela sua história e pelo património espiritual e cultural do território.

Entre os motivos que poderiam justificar uma visita, destacou a antiguidade da Sé de Braga, a ligação da região às origens de Portugal e a aproximação das comemorações dos 900 anos da nacionalidade.

Reconheceu, contudo, que muitas outras dioceses e instituições portuguesas têm razões igualmente legítimas para desejarem acolher o Papa.

«Teremos de fazer um programa, se tal vier a acontecer, e que possa ser para o maior bem de todos», afirmou.

D. José Cordeiro manifestou esperança de que uma eventual confirmação possa chegar tão cedo quanto possível, mas insistiu na necessidade de aguardar com serenidade.

O Arcebispo aproveitou ainda para destacar uma característica que reconhece no atual Pontífice: a capacidade de transmitir paz e serenidade através da sua própria maneira de estar.

Referindo-se à expressão «paz desarmada e desarmante», tão presente no discurso de Leão XIV, observou que o Papa parece encarnar pessoalmente essa atitude.

«De facto, aparece desarmado e também nos desarma», afirmou.

A doença do Papa: «São humanos como nós»

O Arcebispo de Braga comentou igualmente o anúncio feito por Leão XIV, no final da oração do Angelus de domingo, sobre a necessidade de se submeter a uma intervenção cirúrgica para retirar um nódulo no pulmão.

D. José Cordeiro afirmou ter recebido a notícia com naturalidade, mas também com «alegre surpresa», sobretudo pelo facto de ter sido o próprio Papa a comunicar publicamente a sua situação de saúde.

Considerou que a atitude do Pontífice representa uma forma particularmente significativa de transparência e de proximidade com os fiéis.

Na sua perspetiva, a comunicação da Igreja deve ser capaz de integrar todas as dimensões da existência humana, incluindo a doença, a fragilidade, a tristeza e o sofrimento.

O Arcebispo alertou para a tendência de idealizar as figuras de autoridade, como se estivessem acima das limitações próprias da condição humana.

«Às vezes fazemos do Papa ou de tantas outras autoridades [a ideia de que] parecem imortais, ou exigimos delas aquilo que não podem dar, porque são humanos como nós», observou.

D. José Cordeiro manifestou admiração pelo gesto de Leão XIV e revelou que a comunidade reunida em Balasar se associou imediatamente em oração pela sua recuperação.

Essa intenção estará também presente durante a peregrinação aniversária de outubro ao Santuário de Fátima, presidida pelo Arcebispo de Braga.

«Comprometemo-nos de imediato a rezar por ele. Já o fizemos aqui hoje e continuaremos a fazer agora na peregrinação aniversária em Fátima e em tantos outros momentos», assegurou.

Questionado sobre as possíveis consequências da intervenção cirúrgica para a viagem pontifícia à América Latina, prevista para novembro, evitou antecipar cenários clínicos.

Manifestou, contudo, esperança numa recuperação favorável, que permita ao Papa retomar a sua atividade pastoral e missionária.

O Arcebispo destacou a importância da presença de Leão XIV no mundo contemporâneo, considerando que a sua liderança espiritual e pastoral constitui um sinal de esperança.

Acessos a Balasar: apelo ao Governo para a abertura do nó de Fradelos

A dimensão internacional que o novo Santuário Eucarístico poderá alcançar levou também D. José Cordeiro a abordar uma questão prática: as acessibilidades.

O Arcebispo considera que a abertura do novo espaço e o previsível aumento do número de peregrinos tornam ainda mais urgente a melhoria das condições de acesso a Balasar.

Nesse sentido, apelou ao Governo para que dê atenção à possibilidade de abertura de um nó de ligação à autoestrada nas proximidades de Fradelos.

Segundo explicou, os responsáveis autárquicos dos municípios envolvidos têm manifestado concordância com a necessidade dessa ligação.

«Agora é necessário que o Governo Central dê o seu placet, o seu sim», afirmou.

D. José Cordeiro referiu que, de acordo com as informações que lhe foram transmitidas, a concretização da proposta dependerá sobretudo de vontade política.

A melhoria das acessibilidades é entendida pelo Arcebispo como uma condição importante para responder ao crescente interesse que Balasar desperta junto de peregrinos nacionais e estrangeiros.

O novo Santuário é apenas o ponto de partida

Depois de dois dias de celebrações, D. José Cordeiro considera que o novo Santuário já demonstrou a sua capacidade de mobilização espiritual e comunitária.

As mensagens que recebeu de diferentes lugares do mundo confirmam, segundo o Arcebispo, o interesse despertado pela arquitetura e pela expressão artística do novo espaço.

A comunicação social teve, neste processo, um papel que fez questão de reconhecer, permitindo que as celebrações chegassem muito além de Balasar.

«Graças à comunicação social, chegou a todo o mundo, nesta aldeia global, e as pessoas estão encantadas com a beleza da arquitetura, das artes neste lugar», afirmou.

O Arcebispo destacou também a presença expressiva de jovens nas celebrações, interpretando-a como um sinal particularmente encorajador para o futuro da pastoral do Santuário.

Na sua perspetiva, a dedicação da igreja e do altar deve traduzir-se numa renovada aposta na celebração e na adoração eucarísticas, que considera prioridades fundamentais da missão pastoral de Balasar.

«Isto é só um ponto de partida», sublinhou.

Mais do que aumentar o número de visitantes, D. José Cordeiro deseja que o novo Santuário se torne um lugar de encontro com Deus, de acompanhamento das pessoas e de transformação da vida.

A Alexandrina que viveu acamada, mas que se tornou referência espiritual para inúmeras pessoas, continua, segundo o Arcebispo, a ter uma mensagem atual.

«Ela continua viva, mais viva do que nós pensamos», afirmou.

E é precisamente essa presença espiritual que o novo Santuário deve ajudar a tornar visível, através de uma comunidade capaz de acolher, escutar e acompanhar.

No final de dois dias históricos para Balasar e para a Arquidiocese de Braga, D. José Cordeiro deixou, assim, uma convicção e um compromisso: a obra material está concluída, mas a missão pastoral de fazer daquele lugar uma casa de portas abertas a todos está apenas a começar.