Arquidiocese de Braga -

12 outubro 2026

D. José Cordeiro pede políticas mais amigas da família e defende maior aposta na formação de adultos na fé

D. José Cordeiro, Arcebispo Metropolita de Braga
Fotografia RR

Em entrevista conjunta à Renascença e à Agência Ecclesia, publicada este domingo, 11 de outubro, o Arcebispo Metropolita de Braga alertou para as dificuldades que as políticas de habitação e de trabalho colocam às famílias portuguesas. D. José Cordeiro ab

O Arcebispo Metropolita de Braga, D. José Cordeiro, considera que as atuais condições de habitação e de trabalho em Portugal dificultam a concretização dos projetos familiares, particularmente entre os casais mais jovens. Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, publicada a 11 de outubro, o prelado defendeu políticas públicas que favoreçam a constituição das famílias, a natalidade e a conciliação entre a vida profissional e familiar.

A entrevista decorreu no contexto do encontro promovido pelo Papa Leão XIV, no Vaticano, para avaliar os dez anos de aplicação da exortação apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco.

D. José Cordeiro apontou quatro prioridades que continuam a desafiar a ação pastoral da Igreja: a preparação para o matrimónio, o acompanhamento dos casais jovens, o apoio às famílias na transmissão da fé e a integração eclesial das pessoas divorciadas que vivem em nova união.

Habitação, trabalho e natalidade: desafios que exigem respostas

O Arcebispo manifestou preocupação com as dificuldades económicas e sociais que condicionam as decisões dos jovens sobre o casamento e a constituição de família.

Como exemplo, referiu a predominância de habitações de pequena dimensão nos novos empreendimentos urbanos, que considera pouco adequadas às necessidades de famílias com vários filhos.

D. José Cordeiro defendeu que Portugal deve olhar para as experiências de outros países que desenvolveram políticas de maior apoio à família, considerando que as condições materiais têm consequências diretas na natalidade e na confiança dos jovens perante o futuro.

O prelado alertou ainda para o envelhecimento demográfico e para o despovoamento dos territórios do interior, sublinhando a relação entre as condições de vida das famílias, a coesão territorial e o desenvolvimento social.

Na sua perspetiva, a resposta à crise demográfica não passa exclusivamente por medidas económicas, mas exige também a criação de um ambiente de maior confiança e esperança, que permita aos casais concretizarem os seus projetos de vida.

Arquidiocese acompanha casais divorciados em nova união

No âmbito da aplicação da Amoris Laetitia, D. José Cordeiro apresentou dados concretos sobre o trabalho de acompanhamento e discernimento pastoral desenvolvido na Arquidiocese de Braga.

Atualmente, sete casais encontram-se em processo de discernimento com a equipa arquidiocesana. A estes juntam-se seis casais em segunda união acompanhados pelos padres jesuítas ao longo dos últimos dois anos.

O Arcebispo fez um balanço positivo deste percurso, embora tenha reconhecido que a integração nas comunidades cristãs continua a exigir mudanças de mentalidade e uma maior capacidade de acolhimento.

D. José Cordeiro considerou necessário ultrapassar a tendência de classificar as pessoas em função da sua situação matrimonial, recordando que nem sempre as comunidades paroquiais conseguem oferecer um ambiente de hospitalidade sem preconceitos.

Destacou, neste contexto, o contributo de diferentes movimentos eclesiais, grupos de espiritualidade e comunidades que procuram acolher e acompanhar os casais em situações familiares diversas.

Para o Arcebispo, a renovação da pastoral familiar exige que as comunidades sejam verdadeiras famílias de famílias, onde todos possam encontrar acompanhamento e participar na vida e na missão da Igreja.

Formação de adultos na fé é um dos grandes desafios pastorais

Uma das afirmações mais significativas da entrevista diz respeito à transmissão da fé.

D. José Cordeiro considera que a Igreja precisa de superar uma pastoral excessivamente concentrada na preparação das crianças e dos adolescentes para os sacramentos, investindo de forma mais consistente na iniciação cristã e na formação permanente dos adultos.

O Arcebispo reconheceu que este desafio também se coloca numa região de forte tradição católica como Braga.

Na sua perspetiva, não basta preparar para a Primeira Comunhão ou para o Crisma. É necessário formar comunidades de adultos capazes de viver a fé no quotidiano, na família, no trabalho e nas relações sociais.

Esta mudança de paradigma implica uma catequese mais integrada na vida comunitária e uma pastoral que envolva os pais e as famílias, não apenas como destinatários, mas como protagonistas da evangelização.

O prelado sublinhou igualmente a importância de envolver os casais e as famílias nos diferentes organismos e ministérios das comunidades cristãs, desde os conselhos pastorais à catequese, à liturgia e à ação sociocaritativa.

Relações familiares exigem respeito, gratidão e reconciliação

Outro dos temas abordados foi a qualidade das relações no interior das famílias.

D. José Cordeiro recuperou as três expressões frequentemente propostas pelo Papa Francisco para a convivência familiar — agradecer, pedir licença e pedir desculpa —, considerando que traduzem atitudes essenciais à construção de relações saudáveis.

O Arcebispo manifestou preocupação com as situações de violência doméstica e no namoro, bem como com as dificuldades nas relações entre pais, filhos e avós.

Defendeu, por isso, uma maior atenção pastoral à educação para o respeito, à reconciliação e à capacidade de viver harmoniosamente as diferenças.

Santuário de Balasar chamado a ser lugar de escuta e esperança

Na parte final da entrevista, D. José Cordeiro abordou o significado da dedicação do novo Santuário Eucarístico de Balasar, celebrada no mesmo dia, 11 de outubro.

O Arcebispo destacou a arquitetura do espaço, com capacidade para acolher cerca de 1800 pessoas sentadas, e a centralidade do altar e da cruz como expressões da espiritualidade eucarística da Beata Alexandrina Maria da Costa.

Mais do que um espaço de peregrinação, deseja que o Santuário se afirme como um lugar onde cada pessoa seja acolhida e escutada, encontrando motivação para regressar à sua vida com renovada disponibilidade para cuidar dos outros.

D. José Cordeiro apresentou a Beata Alexandrina como uma referência espiritual particularmente atual, cujo testemunho continua a convidar à centralidade de Cristo, à celebração e à adoração eucarísticas e à esperança.

A entrevista deixa, assim, um conjunto de desafios para a Igreja e para a sociedade: criar melhores condições para a vida familiar, acompanhar as diferentes realidades matrimoniais, investir na formação de adultos na fé e construir comunidades onde o acolhimento e a proximidade sejam uma experiência concreta.

A entrevista integral, conduzida por Henrique Cunha, da Renascença, e Octávio Carmo, da Agência Ecclesia, pode ser lida e ouvida no site da Renascença.

Ler e ouvir a entrevista completa à Renascença e à Agência Ecclesia