Arquidiocese de Braga -
12 outubro 2026
«O Papa tem intenção de vir a Portugal»: Núncio fala da saúde de Leão XIV, da força de Alexandrina e dos perigos da polarização
No final da dedicação do Santuário Eucarístico de Balasar, D. Andrés Carrascosa Coso falou aos jornalistas sobre o desejo do Papa Leão XIV de visitar Portugal, a cirurgia a que o Pontífice será submetido e os desafios de um mundo marcado pela guerra e pel
A fragilidade humana, a transparência do Papa perante a doença, a necessidade de construir consensos num mundo dividido e a força espiritual da Beata Alexandrina marcaram as declarações de D. Andrés Carrascosa Coso, Núncio Apostólico em Portugal, no final da celebração de dedicação da igreja e do altar do novo Santuário Eucarístico de Balasar, realizada este domingo, 11 de outubro.
Perante os jornalistas, o representante do Papa em Portugal abordou questões que ultrapassaram o significado da celebração, mas que encontraram na vida de Alexandrina um ponto de convergência: a forma como a fé pode ajudar a enfrentar a vulnerabilidade, o sofrimento e as contradições do tempo presente.
«Ele tem intenção de vir»: Leão XIV pensa em Portugal e em Fátima
Questionado sobre a possibilidade de uma visita do Papa Leão XIV a Portugal, eventualmente incluindo o novo Santuário Eucarístico de Balasar, D. Andrés Carrascosa confirmou que o Pontífice já lhe manifestou pessoalmente essa intenção.
«Ele falou-me que pensa em vir a Portugal», revelou, acrescentando que, nessa conversa, o Papa fez referência a Fátima.
O Núncio mostrou-se convicto da vontade do Santo Padre, embora tenha advertido para a complexidade de organizar uma deslocação pontifícia.
«Que vai vir, vai vir. O quando é muito complexo», afirmou.
D. Andrés Carrascosa recordou que, desde o início do pontificado, Leão XIV recebeu dezenas de chefes de Estado, muitos dos quais aproveitaram os encontros para apresentar convites para visitas aos respetivos países.
Com a experiência adquirida na Secretaria de Estado da Santa Sé, onde trabalhou durante o pontificado de São João Paulo II, o diplomata conhece as dificuldades inerentes à elaboração da agenda de um Papa.
«Nós, obviamente, temos as nossas datas e queremos as nossas datas», reconheceu, sublinhando, contudo, que uma eventual visita terá de se ajustar às possibilidades da agenda pontifícia.
«A visita vai ser quando possa ser possível. Provavelmente não sujeita às nossas datas, mas que ele tem intenção de vir, ele tem intenção de vir», reiterou.
As declarações confirmam, assim, a vontade de Leão XIV de visitar Portugal, mas não constituem o anúncio de uma viagem nem permitem antecipar uma data.
A cirurgia do Papa e a importância de não esconder a fragilidade
A situação de saúde de Leão XIV foi outro dos temas centrais do encontro com a comunicação social, no próprio dia em que o Papa anunciou ter de se submeter a uma intervenção cirúrgica para retirar um nódulo no pulmão.
D. Andrés Carrascosa admitiu ter sido surpreendido pela notícia, de que tomou conhecimento depois de uma manhã dedicada a visitas a comunidades religiosas contemplativas.
Questionado sobre a possibilidade de a operação interferir com a prevista deslocação do Pontífice à América Latina, foi prudente: «Não tenho a menor ideia».
O Núncio evitou fazer previsões médicas, mas partilhou um dado pessoal sobre o Papa, que conhece desde a juventude.
«Eu conheci-o quando tínhamos 25 anos e éramos colegas na mesma aula», recordou, referindo que Leão XIV sempre foi uma pessoa fisicamente ativa, com hábitos regulares de prática desportiva.
Mais do que antecipar a evolução clínica, o representante pontifício preferiu destacar o significado humano e comunicacional da atitude do Papa ao tornar pública a sua situação de saúde.
«Ele é ele mesmo», afirmou, descrevendo-o como «alguém transparente» e sem motivos para esconder uma realidade que faz parte da condição humana.
O Núncio considerou que a forma como o Pontífice comunicou a descoberta do nódulo e a necessidade de uma intervenção cirúrgica contém uma mensagem que vai além da informação médica.
«Há uma questão pedagógica nessa atitude», observou.
Na sua leitura, o Papa não procurou alimentar especulações, dramatizar a situação ou construir uma imagem de invulnerabilidade. Preferiu reconhecer a existência de um problema de saúde e pedir a oração dos fiéis.
D. Andrés Carrascosa associou esta postura a uma característica que identifica na cultura norte-americana de Leão XIV: a valorização da transparência e da comunicação direta.
«Não tem nada a esconder, nada a negar», sublinhou.
O representante pontifício considerou particularmente significativo que a Igreja se una em oração pelo seu Pastor e revelou ter convidado os participantes na celebração de Balasar a rezarem pelo Papa.
«Uma arte moderna, mas com muita alma»: a espiritualidade de Alexandrina inscrita no Santuário
O Núncio não escondeu a impressão que lhe causou a arquitetura e a expressão artística do novo Santuário Eucarístico de Balasar.
«Fiquei muito tocado como a arte moderna, mas com muita alma, conseguiu refletir muitos dos traços da espiritualidade de Alexandrina», confessou.
D. Andrés Carrascosa identificou vários elementos simbólicos presentes no espaço celebrativo, desde os espinhos até à expressividade do altar, que descreveu como um «altar ferido».
São detalhes que, na sua interpretação, permitem compreender a profundidade espiritual da Beata Alexandrina e a relação entre sofrimento, entrega e amor que marcou a sua vida.
Mas o representante pontifício insistiu que a mensagem de Alexandrina não pertence apenas ao passado nem se limita aos devotos que conhecem a sua história.
A espiritualidade da Beata continua a ter significado numa sociedade profundamente diferente daquela em que viveu, precisamente porque as fragilidades humanas permanecem.
O Núncio referiu o vazio interior que caracteriza tantas experiências contemporâneas e apresentou Alexandrina como um testemunho capaz de oferecer uma resposta a essa realidade.
De uma existência marcada por limitações físicas e pelo sofrimento, emergiu uma luz espiritual que continua a interpelar as pessoas.
«Essa luz eu acho que está viva e que continua a falar-nos hoje, continua a ser ponto de referência para nós», afirmou.
A força do testemunho de Alexandrina reside, assim, não na ausência de dificuldades, mas na capacidade de transformar uma vida exteriormente limitada numa experiência de grande fecundidade espiritual.
«A Eucaristia não nos protege das dificuldades, mas dá-nos força para enfrentá-las»
A centralidade da Eucaristia na vida cristã foi outro dos pontos que D. Andrés Carrascosa quis destacar, associando-a diretamente ao testemunho da Beata Alexandrina.
O Núncio lançou uma interpelação aos cristãos sobre o lugar que a celebração eucarística ocupa no quotidiano e sobre o risco de a participação na Missa se transformar num hábito sem verdadeira profundidade espiritual.
«É uma das coisas que eu pedi para pensarmos todos. O quanto a Eucaristia está no centro das nossas vidas cristãs ou não. O quanto a Eucaristia pode tornar-se rotina», afirmou.
O exemplo de Alexandrina, que viveu grande parte da sua existência acamada, mostra, segundo o representante pontifício, que a proximidade com Jesus não depende das condições físicas nem da ausência de sofrimento.
Pelo contrário, essa relação pode ser vivida no interior das experiências mais difíceis: na doença, nas incompreensões, nas desilusões e até nas traições.
O Núncio fez questão de afastar uma compreensão da fé como garantia de uma vida sem problemas.
«A Eucaristia não nos protege de dificuldades na vida, mas dá-nos uma força para enfrentá-las, que é bem diferente.»
Esta foi uma das mensagens mais expressivas das suas declarações: a fé cristã não elimina a fragilidade humana, mas pode oferecer uma forma diferente de a atravessar.
A Eucaristia torna-se, nessa perspetiva, fonte de força, luz e paz, não porque retire os obstáculos do caminho, mas porque ajuda os crentes a enfrentá-los.
«Fazemos análises simples de problemas complexos»: o alerta contra o populismo
A conversa com os jornalistas estendeu-se também à situação internacional, à guerra e às crescentes divisões políticas e sociais.
A propósito de uma pergunta sobre o livro Santa Sé e a Cooperação e a Segurança na Europa durante a Guerra Fria, publicado em 1991 e resultante da sua tese de doutoramento em Direito Internacional, D. Andrés Carrascosa recuperou a experiência histórica da diplomacia e da construção de consensos entre países profundamente divididos.
O Núncio recordou o papel desempenhado pela Santa Sé no processo de cooperação e segurança europeia durante a Guerra Fria, particularmente na afirmação do respeito pelos direitos humanos.
Naquele contexto, explicou, os acordos exigiam consensos entre Estados com sistemas políticos e visões do mundo muito diferentes, incluindo a União Soviética.
Foi um trabalho exigente, mas que permitiu avanços significativos.
O momento atual, advertiu, apresenta desafios particularmente difíceis.
«Agora é mais complicado do que então», considerou.
Para o diplomata, um dos riscos maiores do presente é a tentação de procurar respostas para os problemas atuais através do regresso a soluções do passado.
«É fácil ir para trás, é difícil construir e ir para a frente», afirmou.
Na sua reflexão, D. Andrés Carrascosa estabeleceu uma ligação direta entre esta tendência e o crescimento dos discursos populistas.
«Chegamos facilmente a posições populistas, porque fazemos análises simples de problemas complexos.»
A simplificação excessiva dos desafios políticos e sociais, alertou, não contribui para encontrar soluções duradouras. Pelo contrário, pode alimentar divisões e impedir os compromissos necessários à vida em sociedade.
O representante pontifício manifestou também preocupação com o crescimento da polarização em Portugal.
«Quanto mais fazemos crescer a polarização também no nosso país, mais nós estamos a fazer mal uns aos outros», advertiu.
E acrescentou uma ideia que considera fundamental para a convivência democrática: «Todos temos o direito a pensar diferente, mas todos temos que chegar a consensos para viver juntos».
O Núncio alertou ainda para os limites das soluções assentes exclusivamente na imposição e na força. Podem produzir resultados imediatos, mas acabam por desencadear reações cujas consequências se tornam difíceis e dispendiosas.
«É o medo que eu tenho neste mundo que estamos a construir», confessou.
O Papa, os Estados Unidos e a liberdade de discordar
Questionado sobre declarações do Presidente dos Estados Unidos relativamente a um cessar-fogo na Ucrânia, D. Andrés Carrascosa evitou assumir uma posição partidária, mas sublinhou a importância da liberdade de pensamento e da capacidade crítica.
Recordou que os cidadãos têm o direito e a responsabilidade de avaliar as decisões políticas e observou que a legitimidade democrática de um governante não significa que todas as suas posições tenham de merecer concordância.
A este propósito, evocou a atitude do Papa Leão XIV, que, apesar das suas origens norte-americanas, não deixa de manifestar publicamente discordância em matérias nas quais estão em causa princípios fundamentais da doutrina católica.
Apontou como exemplo a oposição à pena de morte.
Na leitura do Núncio, esta capacidade de expressar convicções com serenidade, sem transformar a diferença de opinião em hostilidade, constitui um contributo importante para a vida pública.
A liberdade de pensamento não deve ser confundida com a incapacidade de dialogar, nem a firmeza das convicções com a recusa de procurar consensos.
De Balasar para o mundo: uma mensagem de fragilidade, esperança e responsabilidade
As declarações de D. Andrés Carrascosa, prestadas no final de uma celebração que reuniu milhares de fiéis em Balasar, percorreram temas aparentemente distintos: a doença do Papa, a possibilidade de uma visita pontifícia a Portugal, a espiritualidade de Alexandrina, a guerra, a democracia e o crescimento da polarização.
Mas, no conjunto, deixaram uma mensagem comum sobre a forma de enfrentar a fragilidade, seja ela pessoal, espiritual ou coletiva.
Na transparência de Leão XIV perante a doença, o Núncio reconheceu uma atitude de autenticidade. Na vida da Beata Alexandrina, encontrou a demonstração de que o sofrimento não impede uma existência espiritualmente fecunda. E, perante as divisões do mundo contemporâneo, reafirmou a urgência de substituir a imposição pela capacidade de diálogo e de construir consensos.
O novo Santuário Eucarístico de Balasar surge, assim, não apenas como um lugar de memória e veneração da Beata Alexandrina, mas também como um espaço a partir do qual a sua mensagem pode continuar a interpelar o presente.
Uma mensagem que D. Andrés Carrascosa sintetizou na experiência de uma mulher que, apesar de estar acamada, viveu uma extraordinária proximidade com Jesus e encontrou na Eucaristia a força para enfrentar as dificuldades da vida.
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