Arquidiocese de Braga -

24 outubro 2026

«A Igreja existe para fazer discípulos»: RENOVAR reúne cerca de mil pessoas no Forum Braga

Fotografia DACS

Tom Corcoran, cofundador da Rebuilt Parish, colocou a missão no centro da primeira manhã do encontro: chegar a quem está afastado, cuidar da experiência dominical, oferecer um caminho claro de discipulado e formar novos líderes são quatro pilares para com

Cerca de mil pessoas estão reunidas este fim de semana, 24 e 25 de outubro, no Forum Braga, para a terceira edição do RENOVAR, encontro de renovação espiritual e pastoral promovido na Arquidiocese de Braga. O Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, e os bispos auxiliares D. Nélio Pita e D. Delfim Gomes participam na iniciativa, que junta agentes pastorais, sacerdotes, religiosos e leigos da Arquidiocese e também participantes provenientes de outras dioceses portuguesas.

Sob o horizonte «Renovar é missão», o encontro propõe dois dias de oração, formação, partilha e ferramentas concretas para comunidades que procuram tornar-se mais vivas, acolhedoras e missionárias. A organização apresenta esta terceira edição como um espaço onde a «inspiração espiritual» se encontra com «ferramentas práticas para a missão evangelizadora».

A primeira manhã ficou marcada pela intervenção de Tom Corcoran, cofundador e presidente da Rebuilt Parish, que partiu de uma pergunta aparentemente simples, mas decisiva: «Porque existe a Igreja?»

Para o responsável norte-americano, no meio da multiplicação de atividades, reuniões, programas e estruturas, uma comunidade cristã pode perder de vista a razão pela qual faz tudo isso. «Quando perdemos o nosso “porquê”, perdemos o nosso caminho», afirmou, recordando o processo vivido na Igreja da Natividade, em Timonium, Maryland, onde trabalha há quase três décadas.

«Ide e fazei discípulos»

A resposta, sustentou Tom Corcoran, encontra-se no mandato de Jesus aos discípulos no final do Evangelho segundo São Mateus: «Ide e fazei discípulos de todas as nações».

«É isto. É por isto que a Igreja existe», resumiu.

Corcoran sublinhou que a missão não pode ser entendida apenas à escala da Igreja universal. Também cada comunidade concreta recebe a responsabilidade de chegar às pessoas que vivem no território onde está inserida.

«Uma paróquia, entendida corretamente, não é apenas constituída pelas pessoas que vêm à igreja. Não são apenas as pessoas que estão sentadas nos bancos», explicou. A expressão que utiliza na sua comunidade é particularmente direta: «O nosso campo de missão é o nosso código postal.»

Esta mudança de perspetiva obriga, segundo o conferencista, a deixar de pensar a pastoral exclusivamente a partir daqueles que já participam e a perguntar quem são as pessoas que estão fora, porque deixaram de participar e o que pode a comunidade fazer para se aproximar delas.

Amar Deus, amar os outros e fazer discípulos

Mas o que significa, afinal, fazer discípulos?

Tom Corcoran apresentou uma formulação simples que a comunidade da Natividade adotou: um discípulo é alguém que cresce no amor a Deus, no amor aos outros e na capacidade de fazer novos discípulos.

O discípulo, explicou, não é alguém que já chegou à perfeição, mas uma pessoa que aprende continuamente a seguir Jesus: procura ser hoje um pouco mais semelhante a Cristo do que ontem e, pela graça de Deus, continuar amanhã esse caminho.

Esse crescimento começa na Eucaristia, mas prolonga-se na oração pessoal, no jejum, na esmola, no serviço, na fraternidade, no perdão e no cuidado dos outros. E desemboca inevitavelmente na missão: quem encontra Jesus é chamado a ajudar outros a encontrá-Lo.

Foi precisamente aqui que Tom Corcoran situou um dos momentos decisivos da transformação da sua própria comunidade.

Depois de anos a criar programas e atividades, ele e o padre Michael White perceberam que podiam estar muito ocupados sem necessariamente cumprir a missão que Jesus tinha confiado à Igreja.

«Reconhecemos que não estávamos a conduzir as pessoas a serem discípulos de Jesus Cristo. Estávamos a criar consumidores religiosos», afirmou.

As atividades conseguiam juntar pessoas, mas isso não significava automaticamente ajudá-las a amar mais a Deus, a amar os outros e a assumir também elas a responsabilidade da evangelização.

Aprender também com quem faz diferente

A transformação começou, contou, quando tiveram a humildade de procurar aprender com comunidades cristãs que estavam a crescer e a chegar a novas pessoas, incluindo comunidades protestantes.

Essa procura levou-os a estudar experiências como Saddleback Church, na Califórnia, North Point, em Atlanta, Willow Creek, em Chicago, e Fellowship Church, em Dallas.

Não se tratava de copiar modelos, explicou, mas de perceber princípios que pudessem ser adaptados à realidade católica.

«As soluções para os nossos problemas muitas vezes não estão fora de nós; já estão dentro», afirmou, defendendo simultaneamente a abertura para aprender com os outros. E deixou outro princípio para comunidades que se confrontam com problemas de grande dimensão: os grandes problemas nem sempre são resolvidos por grandes soluções, mas por pequenas mudanças repetidas e sustentadas ao longo do tempo.

Quatro pilares para uma comunidade que cresce

Da experiência da Rebuilt, Tom Corcoran apresentou quatro «âncoras» que considera comuns a comunidades saudáveis e em crescimento.

A primeira é crescer para fora, acolhendo quem está afastado. A segunda passa por cuidar especialmente da experiência do fim de semana, colocando atenção na Eucaristia e em tudo aquilo que a rodeia. A terceira consiste em oferecer um caminho claro de discipulado, para que cada pessoa saiba como pode crescer na relação com Cristo. Finalmente, a quarta é criar diferentes níveis de liderança, envolvendo mais pessoas na responsabilidade pela comunidade.

Corcoran convidou mesmo os participantes a avaliar as próprias comunidades, numa escala de um a cinco, a partir destas quatro áreas: capacidade de acolher quem chega de fora, qualidade da experiência dominical, existência de um percurso claro de crescimento na fé e capacidade para formar e confiar responsabilidades a novos líderes.

A liderança, insistiu, não pode ficar concentrada numa única pessoa.

«Não há mudança numa paróquia ou numa organização sem liderança. Tudo cresce ou cai com a liderança», afirmou, recordando que, ao longo da Escritura, Deus chama pessoas concretas para a missão, mas coloca também outras pessoas ao seu lado.

Pensar primeiro em quem não vem

Uma parte importante da intervenção foi dedicada àqueles que não participam na vida da Igreja: pessoas que nunca tiveram contacto significativo com uma comunidade cristã e também aqueles que foram batizados ou frequentaram a catequese, mas entretanto se afastaram.

Tom Corcoran apresentou a figura simbólica de «Timonium Tim», um homem que cresceu católico, recebeu o Crisma, mas deixou de frequentar a Igreja e considera que aquilo que ali encontra pouco tem a ver com a sua vida.

A pergunta pastoral deixa então de ser apenas «o que queremos fazer?» para passar a incluir: como verá esta pessoa a nossa comunidade quando entrar pela porta?

É precisamente por isso que a Rebuilt dá especial importância ao fim de semana. Para muitas pessoas, lembrou Corcoran, aquilo que experimentam numa celebração dominical constitui praticamente toda a sua experiência da Igreja.

Música, homilia e acolhimento

Na construção dessa experiência dominical, Tom Corcoran destacou três dimensões: a música, a mensagem — particularmente a homilia — e os ministros ou equipas de acolhimento.

A música, afirmou, tem uma capacidade especial para «chegar ao coração», incluindo ao coração de quem está mais afastado. A Palavra de Deus e a homilia podem, por sua vez, oferecer orientação espiritual a centenas de pessoas de cada vez.

«As palavras são poderosas e a Palavra de Deus é ainda mais poderosa», afirmou, salientando a responsabilidade colocada na preparação da homilia.

Corcoran deteve-se também numa questão essencial para a compreensão da proposta Rebuilt: não se trata de substituir ou diminuir a centralidade da Eucaristia.

«O que falta à Eucaristia? Nada», afirmou, recordando que nela está Jesus Cristo. A questão pastoral, explicou, está em tudo aquilo que a comunidade pode fazer para ajudar as pessoas a reconhecer e a experimentar o valor do que celebram.

Daí a importância de alguém que recebe à porta, de uma comunidade que sorri a quem chega, de pessoas disponíveis para orientar e ajudar e de condições que permitam também às famílias e às crianças encontrar o seu lugar.

A hospitalidade, neste sentido, deixa de ser uma questão acessória ou de mera simpatia e torna-se parte da missão evangelizadora.

De visitante a protagonista da comunidade

A conferência terminou com uma história concreta da Igreja da Natividade.

Tom Corcoran leu a mensagem de uma família que tinha deixado de ir à igreja por considerar frustrante a experiência dominical com os filhos. Depois de alguém lhes recomendar a Natividade, decidiram experimentar.

Encontraram pessoas que os receberam, os ajudaram e fizeram com que os filhos se sentissem confortáveis. A família começou a regressar.

«Agora esperamos com alegria por cada domingo», escreveria mais tarde o pai, acrescentando que desejavam envolver-se cada vez mais na comunidade.

Anos depois, contou Corcoran, aquele homem tornou-se responsável por um dos ministérios e a mulher passou a integrar a equipa da paróquia.

Para o cofundador da Rebuilt, é precisamente este o percurso que uma comunidade missionária procura tornar possível: alguém que estava afastado aproxima-se, sente-se acolhido, encontra Cristo, cresce como discípulo e acaba por assumir também responsabilidade pela missão da Igreja.

Uma experiência nascida numa paróquia

Tom Corcoran é cofundador e presidente da Rebuilt Parish, projeto católico de renovação paroquial nascido da experiência da Igreja da Natividade, em Timonium, Maryland. É coautor, com o padre Michael White, de sete livros, entre os quais Rebuilt, e exerce funções de liderança naquela comunidade há mais de 28 anos. Em 2023 recebeu do Papa Francisco a medalha Pro Ecclesia et Pontifice.

Na intervenção desta manhã, fez questão de advertir que não apresentava uma receita universal. Falava, disse, a partir de uma experiência concreta e de princípios que acredita poderem ser transferidos e adaptados a outras realidades.

A transformação da Natividade foi significativa: a comunidade cresceu ao ponto de ser necessária uma igreja de maiores dimensões, aumentou fortemente o número de voluntários e mais de mil pessoas passaram a integrar pequenos grupos de partilha da fé.

Nove workshops durante a tarde

O RENOVAR prossegue este sábado depois do almoço com nove workshops que procuram traduzir a reflexão em experiências e instrumentos pastorais concretos.

Às 15h00, os participantes distribuem-se pelas oficinas «Rebuilt — Reconstruir a comunidade», orientada pelo próprio Tom Corcoran; «O poder dos pequenos grupos»; «Quartetos de Discipulado»; «The Chosen: Os Escolhidos»; «Coração em chamas — Oficina de Louvor»; «Escuta 360º — Pastoral de Jovens»; «A Igreja regressa à cidade — Pastoral urbana»; «Pastoral Integrada, em contexto de envelhecimento»; e «Servir e Acolher a todos».

Depois de um intervalo, o programa retoma às 17h30 com um momento de louvor, seguindo-se, às 17h45, um espaço de perguntas e respostas. O jantar está marcado para as 19h30 e o primeiro dia termina com um concerto, às 21h00.

RENOVAR continua no domingo

O segundo dia começa às 09h30 deste domingo, 25 de outubro, com acolhimento e oração. Tom Corcoran regressa ao palco do Forum Braga para nova conferência às 10h00.

Às 11h30, os participantes iniciam a deslocação para a celebração da Eucaristia, marcada para as 12h00. O almoço, às 13h15, encerra o programa da terceira edição do RENOVAR.

A edição deste ano prolonga o caminho iniciado nas duas anteriores e, pela primeira vez, abriu a participação de forma mais ampla a outras dioceses portuguesas. Antes do encontro, as inscrições aproximavam-se já das 950, com participantes, entre outras, das dioceses de Leiria-Fátima, Coimbra, Porto e Viana do Castelo.

Mais do que procurar uma fórmula pastoral única, a proposta do RENOVAR passa pela partilha de experiências que possam ser discernidas e adaptadas a cada realidade.

E a pergunta deixada por Tom Corcoran nesta manhã continua a atravessar todo o encontro: se Jesus confiou à Igreja a missão de fazer discípulos, de que modo as estruturas, escolhas e prioridades de cada comunidade estão efetivamente ao serviço dessa missão?



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