Arquidiocese de Braga -
24 outubro 2026
Tom Corcoran: renovar a Igreja passa por acolher melhor, formar discípulos e não ter medo de mudar
Acolhimento, pequenos grupos, catequese, liderança e resistência à mudança estiveram no centro do diálogo final do RENOVAR, realizado este sábado no Forum Braga
«Se não é discipulado, porque estamos a fazê-lo?». Tom Corcoran colocou o discipulado no centro da vida das comunidades cristãs durante o diálogo que encerrou a programação da tarde do RENOVAR, este sábado, no Forum Braga.
O cofundador da Rebuilt Parish respondeu a perguntas dos participantes sobre alguns dos principais desafios que atravessam hoje as comunidades: como acolher quem chega pela primeira vez, envolver os leigos, formar pequenos grupos, evangelizar crianças e famílias, renovar a catequese, lidar com a resistência à mudança ou acompanhar quem se sente cansado perante a missão.
Ao longo das respostas, uma ideia regressou várias vezes: a renovação não acontece apenas através da criação de novas atividades, mas quando aquilo que uma comunidade faz ajuda efetivamente as pessoas a crescer como discípulos de Jesus.
Acolher começa antes da celebração
Para Tom Corcoran, a hospitalidade não pode ser reduzida à existência de uma equipa encarregada de receber quem chega à igreja.
Essa equipa pode «liderar o caminho», afirmou, mas a responsabilidade pertence a toda a comunidade: desde a forma como se deixa espaço para quem chega até um simples sorriso ou uma palavra dirigida a alguém que participa pela primeira vez.
«Estamos felizes por estares aqui» é, segundo Corcoran, uma mensagem simples, mas capaz de mostrar a quem chega que existe um lugar para si naquela comunidade.
O acolhimento deve chegar também à própria pregação. Uma homilia dirigida a uma assembleia contemporânea não pode pressupor que todos os presentes possuem uma fé consolidada.
Corcoran defendeu, por isso, uma pregação capaz de reconhecer também «as dúvidas das pessoas» e de as acompanhar no caminho para a fé.
Pequenos grupos para deixar de ser apenas espectador
Os pequenos grupos ocuparam igualmente uma parte importante do diálogo.
Segundo a experiência da Rebuilt Parish, estes grupos ajudam as pessoas a passarem de uma presença predominantemente dominical para um envolvimento mais profundo na vida da comunidade.
«Eu não vou apenas à igreja, participo na vida da Igreja», resumiu Corcoran.
O Pe. Tiago Freitas acrescentou que estes espaços permitem distinguir dois momentos complementares: o crescimento pessoal na fé e a celebração comunitária dessa mesma fé.
Num grupo mais pequeno, explicou, torna-se mais fácil partilhar experiências, questões e dúvidas e encontrar acompanhamento. Esse caminho deve, contudo, permanecer aberto à multiplicação: os grupos não existem para se fecharem sobre si próprios, mas para convidarem outras pessoas e fazer nascer novas comunidades.
«Não temos de ter só um modelo de catequese»
A evangelização das crianças, jovens e famílias foi outra das questões colocadas aos intervenientes.
Tom Corcoran reconheceu que a Igreja disputa hoje a atenção das famílias com múltiplas atividades, do desporto ao lazer. A resposta, considerou, não pode passar simplesmente por acrescentar mais uma obrigação à agenda.
É necessário criar experiências e celebrações onde as pessoas sintam que o seu tempo é valorizado, através da qualidade do acolhimento, da música, da pregação e da ligação entre a Palavra de Deus e a vida concreta.
O diálogo levou também a uma reflexão sobre os modelos de catequese existentes.
«Não temos que ter só um modelo de catequese», afirmou-se durante o encontro, defendendo uma lógica de experimentação e avaliação, sem medo de reconhecer quando determinada proposta não produz os resultados esperados.
A própria linguagem utilizada pelas comunidades foi colocada em causa. Em vez de uma catequese organizada apenas em função dos «anos» necessários para receber determinados sacramentos, foi proposta uma visão centrada no «despertar da fé», na «iniciação à vida cristã», na maturidade e na formação do «discípulo missionário».
O objetivo, foi sublinhado, não pode ser simplesmente preparar crianças e jovens para receber sacramentos e, depois, considerar concluído o percurso cristão.
Quando estabilidade se torna imobilismo
A resistência à mudança esteve também entre as perguntas dos participantes.
Tom Corcoran distinguiu entre aquilo que pertence ao depósito da fé e tradições ou práticas que, apesar de enraizadas, podem ser repensadas quando deixam de ajudar as pessoas a crescer na fé.
O Pe. Tiago Freitas acrescentou que a própria estabilidade da Igreja pode constituir uma referência importante numa sociedade marcada por transformações rápidas.
«O problema é quando a estabilidade da Igreja se transforma em imobilismo», afirmou.
As resistências, explicou, nascem muitas vezes do receio de perder aquilo que ainda oferece segurança. Por isso, processos de mudança sustentáveis exigem diálogo, discernimento e participação das próprias comunidades.
As experiências conhecidas mostram, acrescentou, que transformações desta natureza podem exigir vários anos. A mudança imposta simplesmente «de cima para baixo» tende a encontrar maiores dificuldades do que aquela que é trabalhada e assumida progressivamente pelas comunidades.
Não gastar toda a energia nos críticos
Questionado sobre a liderança e sobre a forma de lidar com quem discorda da visão proposta, Tom Corcoran defendeu respeito e diálogo, mas alertou para o risco de concentrar toda a atenção nos críticos.
As objeções devem ser respondidas «com atenção» e «com amor», afirmou, sobretudo porque algumas pessoas inicialmente críticas podem acabar por aderir ao caminho proposto.
Mas um líder deve igualmente investir tempo naqueles que compreendem a visão e estão disponíveis para avançar.
«Respeitamos as pessoas que discordam, mas não podemos investir aí grande parte do nosso tempo», afirmou.
Na experiência da Rebuilt Parish, a liderança passa também por identificar pessoas capazes de coordenar voluntários ou assegurar áreas como operações, finanças e tecnologia, permitindo que os diferentes dons contribuam para uma missão comum.
«Deus não quer que nos esgotemos»
Uma das últimas perguntas levou o diálogo para uma dimensão mais pessoal: o que dizer a um líder ou voluntário que se sente cansado, indigno ou incapaz de promover a mudança?
Corcoran começou por distinguir o cansaço do sentimento de inadequação.
Perante o esgotamento, defendeu a necessidade de parar e descansar: «Deus não quer que nos esgotemos».
Já o sentimento de incapacidade não deve ser entendido necessariamente como sinal de que alguém está no lugar errado. Recordando figuras bíblicas como Moisés, Jeremias e Isaías, Corcoran observou que a consciência da própria fragilidade acompanha frequentemente aqueles que são chamados a uma missão.
«Por nós próprios somos inadequados», afirmou, sublinhando que a missão cristã não nasce apenas das capacidades individuais, mas da confiança na ação de Deus.
O diálogo encerrou uma jornada marcada pela procura de caminhos concretos para transformar comunidades cristãs, tendo como horizonte uma pergunta que atravessou as diferentes intervenções do RENOVAR: como passar da manutenção das estruturas à formação de discípulos capazes de fazer outros discípulos.
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