Arquidiocese de Braga -

25 outubro 2026

Tom Corcoran no RENOVAR: «Deus não nos dá certezas; pede-nos fé, confiança e que avancemos»

Fotografia DACS

Na última conferência do RENOVAR 2026, o cofundador da Rebuilt Parish apresentou sete passos para promover uma mudança positiva nas comunidades cristãs. O encontro terminou este domingo, em Braga, com a celebração da Eucaristia.

«Nunca tive certezas. Tive confiança». Foi a partir desta resposta atribuída a Santa Teresa de Calcutá que Tom Corcoran deixou uma das últimas mensagens do RENOVAR 2026: a renovação da Igreja não depende de ter todas as respostas antes de começar, mas da capacidade de discernir o próximo passo e avançar com fé.

Na última conferência do encontro, este domingo, Tom Corcoran apresentou sete passos para introduzir uma mudança positiva nas comunidades cristãs, depois de dois dias dedicados à reflexão sobre acolhimento, discipulado, liderança e missão. O III RENOVAR terminou depois com a celebração da Eucaristia.

O cofundador e presidente da Rebuilt Parish começou por recordar os quatro eixos apresentados ao longo do encontro para construir comunidades «saudáveis e em crescimento»: chegar a quem está afastado da Igreja, proporcionar uma experiência dominical cuidada, ajudar as pessoas a aprofundar a fé e formar novas gerações de líderes.

Mas mudar, advertiu, não significa procurar a novidade pela novidade. «Falamos de mudança para cumprir melhor a missão de Jesus Cristo», explicou, distinguindo a Tradição da Igreja das práticas que se mantêm apenas porque «sempre se fez assim» e que, em determinadas circunstâncias, podem tornar-se um obstáculo à missão. Para Corcoran, «servir Deus na nossa geração» implica reconhecer que há realidades novas — da tecnologia à inteligência artificial — às quais nenhuma geração anterior teve de responder.

«Se queremos uma mudança negativa, basta não fazer nada»

O primeiro dos sete passos apresentados foi criar e alimentar um sentido de urgência. A mudança começa, afirmou, quando uma comunidade reconhece um problema que precisa de ser resolvido ou uma oportunidade que não pode continuar a ignorar.

«Se querem uma mudança negativa, não façam nada. Ela acontecerá sozinha», ironizou. Já uma mudança positiva «exige trabalho», ação e a consciência de que aquilo que existe nem sempre está a servir a missão da Igreja.

Para ilustrar essa urgência, Corcoran contou a história de um comediante norte-americano que entrou numa igreja com a filha de sete anos. A criança, sem conhecer a narrativa cristã, estranhou o ambiente, o crucifixo e a celebração. Depois de saírem, o pai concluiu, perante uma plateia que o aplaudiu, que se sentiam «mais perto de Deus fora da igreja do que dentro dela».

«Há uma menina de sete anos que pensa que está mais próxima de Deus fora da igreja do que dentro. E há toda uma audiência que pensa da mesma maneira. É por isso que temos de mudar», afirmou Corcoran.

Imaginar «o que pode e deve existir»

O segundo passo é ter uma visão concreta daquilo que uma comunidade pode tornar-se. Para Corcoran, visão não é um conceito abstrato de liderança, mas «uma imagem daquilo que pode e deve existir, mas ainda não existe».

Pode ser imaginar uma igreja cheia de jovens, crianças que entram com alegria, pessoas acolhidas à porta ou pequenos grupos reunidos em torno da Palavra de Deus.

A passagem por Braga serviu-lhe também de exemplo. Hospedado no Bom Jesus com a mulher, Mia, Corcoran disse ter reconhecido naquele espaço precisamente a concretização de uma visão: alguém olhou para aquela montanha e imaginou um percurso capaz de conduzir os peregrinos através da paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo. «Isso é visão: conseguir uma imagem concreta daquilo que pode e deve existir, mas ainda não existe», afirmou.

O terceiro passo é reunir uma equipa. «Deus usa pessoas», recordou, sublinhando que nenhum líder é chamado a realizar sozinho a missão. A partir da experiência do profeta Elias, que julgava estar isolado, Corcoran lembrou que Deus coloca outras pessoas no caminho de cada líder: «A vossa história está entrelaçada com as histórias de outras pessoas».

As equipas, acrescentou, devem juntar pessoas com caráter, competência, capacidade de trabalhar em conjunto e identificação com a cultura que se pretende construir.

«Falhar faz parte do processo»

O quarto princípio passa por experimentar em pequena escala e aceitar o fracasso como parte da aprendizagem.

Foi assim, explicou, que a paróquia da Natividade, em Timonium, começou a testar mudanças numa Missa dominical das 17h30 dirigida sobretudo a jovens. Introduziu tecnologia, novos modelos de música e outras experiências pastorais. Quando perceberam que algumas dessas opções davam frutos, começaram a aplicá-las noutras celebrações.

«Se o fracasso não é uma opção, então o sucesso também não é», citou Corcoran, insistindo que cometer erros não significa necessariamente ter falhado como líder. «Os erros fazem parte do processo de aprendizagem. É aprender, crescer e tornar-se melhor.»

O quinto passo foi transformar gradualmente a experiência de quem participa na Missa ao fim de semana. É aí, observou, que grande parte das pessoas forma a sua imagem da Igreja.

Acolhimento, música preparada, uma homilia trabalhada e capaz de mostrar a relevância do Evangelho e atenção a quem chega pela primeira vez são, por isso, decisivos. Quando as pessoas percebem que a comunidade valorizou o seu tempo e se preparou para as receber, explicou, tornam-se também mais disponíveis para regressar e aprofundar o seu compromisso cristão.

«A Igreja não existe para nós»

Num sexto momento, Corcoran defendeu que chega uma altura em que é necessário convidar toda a comunidade a participar na mudança.

Recordou, a esse propósito, a decisão tomada na paróquia da Natividade de transferir as celebrações da véspera de Natal para um recinto maior, perante a incapacidade da igreja e do estacionamento para acolher todas as pessoas.

A opção encontrou resistência e chegou mesmo a provocar a saída do maior benfeitor da comunidade. Mas tornou-se, afirmou, um sinal muito concreto da identidade missionária da paróquia: «Não existimos para nós próprios. Existimos para a comunidade. A Igreja não é sobre nós; é sobre procurar chegar às pessoas que não têm uma relação com Cristo».

O último passo: avançar

Foi, porém, no sétimo passo que Tom Corcoran concentrou a mensagem final da sua participação no RENOVAR: avançar.

Recorrendo ao relato do Êxodo, recordou os israelitas diante do Mar Vermelho, com o exército egípcio atrás deles. Primeiro, Moisés pede ao povo que permaneça firme e confie em Deus. Mas logo depois surge a ordem: «Diz aos filhos de Israel que avancem».

«Não havia caminho à frente. Só havia água», observou Corcoran. «Mas é quando avançamos que Deus abre o mar. Deus nunca abrirá o mar se ficarmos simplesmente parados à espera que alguma coisa aconteça.»

A imagem serviu para deixar uma última interpelação aos participantes depois dos dias de trabalho em Braga. Corcoran reconheceu que ninguém regressará às suas comunidades sabendo exatamente como concretizar tudo o que foi refletido no RENOVAR.

E talvez isso não seja necessário.

Recordando a conversa entre um sacerdote jesuíta e Santa Teresa de Calcutá, contou que o religioso lhe pediu que rezasse para que tivesse certeza sobre o seu caminho. A religiosa recusou: «A certeza é a tua muleta». Quando o sacerdote lhe respondeu que ela própria parecia agir com grande certeza, Teresa de Calcutá terá respondido: «Nunca tive certeza. Tive confiança.»

«Deus não nos chama, enquanto líderes, a termos a certeza de que tudo vai resultar. Chama-nos à confiança, à fé, a avançar», afirmou.

Por isso, a pergunta final de Tom Corcoran não foi sobre o que cada participante aprendeu durante o RENOVAR, mas sobre o que fará agora.

«Talvez seja uma chamada que precisam de fazer, um email que precisam de enviar, uma conversa que precisam de ter. O que precisam de fazer para avançar?», perguntou.

«Nunca teremos certeza. Deus não nos dá certeza; quer dar-nos fé e confiança. E quando avançamos na fé e na confiança no Senhor, Ele realizará grandes coisas.»

A conferência encerrou com uma oração em que Corcoran pediu a Deus «a graça, a força e a fé para confiar e avançar». Horas depois, o III RENOVAR chegava ao fim com a celebração da Eucaristia, deixando aos participantes precisamente essa proposta: não regressar apenas com ideias, mas com um próximo passo a dar.