Arquidiocese de Braga -

4 novembro 2026

«Perder alguém não é regressar ao nada»: Valter Hugo Mãe e D. Nélio Pita falam de luto e esperança

Fotografia

O escritor e o bispo auxiliar de Braga encontraram-se em Guimarães para uma conversa sobre a tristeza, a memória e a responsabilidade de acompanhar quem sofre. A procura ultrapassou a lotação do espaço.

«Perder alguém não é regressar ao nada», afirmou Valter Hugo Mãe na noite de quarta-feira, 4 de novembro, num encontro com D. Nélio Pereira Pita, bispo auxiliar de Braga, na Black Box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). Integrada no ciclo «O Conquistador», a sessão «Educação da Tristeza: Literatura ou Fé?» reuniu o escritor e o bispo numa reflexão sobre o luto, a ausência e a memória.

A conversa, realizada no contexto da visita pastoral ao arciprestado de Guimarães e Vizeala, cruzou experiências pessoais de perda com a esperança cristã e o apelo a uma maior proximidade com quem sofre. D. Nélio Pita sublinhou a necessidade de escutar sem oferecer respostas apressadas e alertou para a solidão que pode permanecer escondida nas próprias comunidades.

A memória como património

Partindo da morte da amiga Isabel e do sobrinho Eduardo, falecido aos 16 anos, Valter Hugo Mãe explicou como a escrita de Educação da Tristeza nasceu da necessidade de dar expressão à dor e de preservar a presença daqueles que continuam a fazer parte da sua vida.

«Eu tenho direito a esta tristeza», afirmou, recordando o momento em que percebeu que precisava de encontrar uma forma de viver com as perdas que atingiam a família. O livro, que inicialmente não pensava escrever, foi-se construindo a partir dessa experiência e da possibilidade de as suas palavras ajudarem outras pessoas em processos de luto.

«As pessoas que morrem, de facto, continuam a ser um património», afirmou. Para o escritor, esse património fica confiado aos que permanecem: nas memórias, nos gestos e na maneira como continuam a relacionar-se com quem morreu. Ao falar de Isabel e de Eduardo, descreveu uma presença que se mantém no quotidiano e nas conversas da família.

Essa continuidade dos vínculos liga-se, no seu testemunho, a uma atitude de gratidão pela vida. «Estar vivo obriga-me à gratidão», declarou. Mesmo no interior da perda, acrescentou, «temos de encontrar forças para celebrar a vida».

Escutar sem ter todas as respostas

D. Nélio Pita centrou a sua intervenção na importância de dar espaço à palavra e à dor de quem vive o luto. Evocando o caminho dos discípulos de Emaús, recordou que Jesus começa por acompanhar e escutar aqueles homens antes de lhes oferecer uma nova leitura do que tinham vivido.

Esse modo de estar, sustentou, deve orientar também o acompanhamento cristão: caminhar ao lado das pessoas, acolher as suas feridas e ouvi-las «sem ter a pressa de apresentar grandes explicações». O bispo alertou para comentários que, embora bem-intencionados, podem agravar o sofrimento quando pretendem explicar depressa aquilo que exige tempo, presença e escuta.

A esperança na ressurreição, explicou, transforma a forma de olhar a morte, mas não elimina a experiência humana da dor. «A fé, de alguma forma, mata a morte», afirmou, sublinhando também que essa certeza «não nos torna imunes ao sofrimento».

Para o mostrar, evocou as lágrimas de Jesus diante da morte de Lázaro e o sofrimento de Santo Agostinho pela morte da mãe. A fé e o choro podem coexistir, numa experiência em que a esperança não exige esconder a saudade.

A solidão também é pobreza

A reflexão sobre o luto abriu espaço a um apelo à responsabilidade das comunidades cristãs perante o sofrimento e a solidão. «Como seres humanos, por vezes somos pouco humanos», observou D. Nélio Pita, lamentando a facilidade com que se pode passar ao lado das necessidades dos outros.

O bispo apontou um desequilíbrio entre a atenção dada à liturgia e à catequese e aquela que é dedicada à caridade, que descreveu como «uma pobre caridade». Sublinhou a necessidade de estruturas e de pessoas disponíveis para acompanhar quem precisa, recordando que a vulnerabilidade não se reduz à falta de recursos económicos.

«Pode ser a senhora muito rica, mas que não tem ninguém que a acompanhe, que a visite», exemplificou. Para D. Nélio Pita, a resposta começa por reconhecer que a situação do outro também diz respeito a cada um: «Nós podemos e devemos fazer alguma coisa».

Também Valter Hugo Mãe colocou a relação com os outros no centro da sua reflexão sobre o sentido da vida: «Se houver um sentido, é exatamente para que nos suportemos uns aos outros, para que nos defendamos uns aos outros».

O encontro humano perante a inteligência artificial

Uma pergunta do público levou ainda os intervenientes a refletir sobre a procura de companhia através da inteligência artificial. D. Nélio Pita alertou para a ilusão de uma relação de aceitação incondicional, alimentada pela disponibilidade permanente dos sistemas de conversação.

Valter Hugo Mãe manifestou preocupação com a substituição da presença física e do encontro por relações virtuais. «A internet não imita a vida, a internet imita a morte», afirmou, numa imagem crítica com que procurou distinguir a experiência viva do encontro da fixação de fotografias, vídeos e mensagens. O escritor alertou para o risco de entregar às plataformas o espaço que deveria pertencer à relação efetiva com os outros.

A adesão à iniciativa ultrapassou a capacidade da sala. Segundo foi referido durante a sessão, cerca de 150 pessoas não conseguiram entrar. No encerramento, a organização manifestou a intenção de dar continuidade a estas conversas, procurando responder à necessidade de criar espaços de escuta e partilha.

D. Nélio Pita saudou precisamente essa abertura: «É uma iniciativa fora do formato e nós precisamos de iniciativas fora do formato».