Arquidiocese de Braga -

14 setembro 2017

O nosso Cristo preto

Fotografia Sofia Vilar

CMAB

Sofia Vilar, leiga missionária da equipa missionária Salama! na Paróquia de Santa Cecília de Ocua

Como missionários, aqui, andamos sempre de crucifixo ao peito. Foi-nos simbolicamente oferecido pelo Arcebispo, D. Jorge, na nossa Missa de Envio.

Este é, talvez, o símbolo maior da Igreja Católica, uma imagem de dor, de sacrifício, de entrega pelo outro, por nós. De entrega por nós.

Neste século de “amor de todas as cores e feitios”, fomos ensinados a desconstruir a vergonha de amar, a abrir um caminho de chegada descomplexada ao outro por amor, como irmãos por quem Jesus se deu, carne do mesmo sacrifício. Porque a nossa Igreja não é dor, é amor.

Por este amor, porque “missão é amor”[1], fomos convidados a sair, a ver além do aparente, ler além do que está escrito, ouvir mais do que é dito.

Chegámos a Ocua em julho, pleno verão... português. Em Moçambique, era e é inverno e anoitece muito cedo. Mas anoitece devagar e é possível contemplar o pôr do sol e ouvir os ritmos a mudar.

De noite, há quase sempre festa, lá fora.

Dentro, pedimos a Deus que nos salve quando velamos, nos guarde quando dormimos e nos renove energias para o dia que amanhecerá, cedo também. Muito cedo.

Ainda assim, os dias parecem longos – permitindo-nos mil tarefas diferentes –, embora o tempo pareça curto – não nos permitindo mil outras –, e as semanas pareçam voar – apesar de ainda só terem passado oito.

Confesso que a adaptação pareceu, ao chegar, mais fácil do que julgava ser.

Sinto que viemos preparados para as várias dificuldades e formados para muitas das necessidades, abertos à dádiva recíproca – engane-se quem pensa que só viemos dar. Todos os dias recebemos novas bênçãos em forma de contínua descoberta.

Penso que a maior dificuldade é saber aceitar a diferença do outro. Aqui, como aí. E vejo que a maior grandeza é saber aceitar a mesma diferença.

Dizia Nelson Mandela que ninguém nasce a odiar ninguém e que, se podemos aprender a odiar, podemos ensinar/aprender a amar[2].

Não é raro que uma criança nos veja, nas várias visitas às comunidades, e fuja a sete pés. Como não é raro o bebé que nos sorri só de lhe darmos um pouco de atenção. Então, onde é que “entre bebé e criança” nos entra, no coração, o medo da entrega ao outro?

Aqui, em missão, não há espaço para reservas, para dúvidas, para medo.

Aqui, todos os dias, o Cristo de pau preto desce da cruz, em permanente dor e sacrifício, numa entrega incansável ao outro, e, por amor, caminha entre nós... de pés descalços.

* A equipa missionária de Santa Cecília de Ocua manifesta o seu pesar pelo falecimento de D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, unindo-se em oração.

[1] É o lema tácito do missionário. 

[2] “Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar , e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto.”, Nelson Mandela.

Artigo publicado no Suplemento Igreja Viva de 14 de setembro de 2017.


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Igreja Viva 14 de Setembro de 2017.pdf