Arquidiocese de Braga -

3 fevereiro 2024

Sempre enCaminho – À mesa com Jesus

Fotografia DACS

Mensagem para o Tempo de Quaresma-Páscoa 2024

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“Será Deus capaz de nos preparar uma mesa no deserto?” (Sl 78, 19)

 

Caríssimos irmãos e irmãs

O caminho faz farte da identidade do cristão. Estamos todos no caminho com Jesus e a caminho da terra prometida. É um permanente êxodo. Somos o povo de Deus, que através do deserto, se vai libertando do Egito, casa da escravidão, que traz dentro de si. É um peregrinar contínuo, feito por cada um e em comunidade, para a terra prometida. Não se trata apenas de andar por andar, mas ousadia de acolher e avançar por um caminho nunca percorrido.

Isto implica deixar para trás, diríamos mesmo abandonar, as estradas velhas, todos os atilhos opressivos, lamentos, murmúrios, comportamentos desviantes, palavras ofensivas, ideias destruidoras, estatutos pretensiosos, tradições desadequadas, hábitos instalados, preconceitos... e abraçar o desejo da terra da promissão, terra da liberdade. É o rompimento com toda a espécie de egoísmo ou ídolos e decidir-se pelo esvaziamento de si em favor do outro.

A Quaresma que iniciamos e a Páscoa que vivemos oferecem-nos este caminho de esvaziamento, de conversão e de liberdade. “A Quaresma é o tempo de graça em que o deserto volta a ser o lugar do primeiro amor (cf. Os 2, 16-17). Deus educa o seu povo, para que saia das suas escravidões e experimente a passagem da morte à vida” (Mensagem Papa Francisco para a Quaresma 2024).

Mas como podemos nós caminhar no deserto se nos falta o alimento?
“Será Deus capaz de nos preparar uma mesa no deserto?” (Sl 78, 19). Deus não só preparou uma mesa. Ele preparou um verdadeiro banquete, onde não faltou o pão nem a carne (Ex 16, 4-21).

De igual modo, nos desertos de tantos homens e mulheres, também Jesus, peregrino de todas as vidas, escolheu sentar-se à mesa com eles para lhes oferecer o pão da verdadeira liberdade que lhes concedeu uma nova vida. Jesus compreendeu a mesa como um lugar de encontro e da inclusão (Mc 2, 13-17; Lc 19, 1-10), de reconciliação e perdão (Lc 7, 36-50), de purificação e cura (Mt 26, 6), de entrega e de serviço (Jo 13, 1-20). Em Jesus a mesa assumiu um lugar de fronteira, onde as diferenças oferecem um potencial de encontro e fraternidade.

A mesa de Jesus continua posta. Ela está disponível para todos. Nesta Quaresma, fazemos-vos este convite: vinde sentar-vos à mesa de Jesus. Vinde sentar-vos com Jesus. Puxai uma cadeira e sentai-vos. Tudo está preparado. Vinde e comei (cf. Lc 14, 17). Nunca, como nestes dias, que são o nossos, no meio de todas estas crises eclesiais, sociais, políticas e existenciais, a mesa de Jesus, através da Igreja, se tornou tão necessária. Na mesa de Jesus, a fome de inclusão, amor, perdão e cura são incondicional e gratuitamente saciadas. Está na hora de partilhar o Pão e alimentar a Esperança (V Congresso Eucarístico Nacional). Só nos reconhecerão como discípulos de Jesus, se hoje formos capazes de repartir o pão da esperança nas mesas das fomes dos nossos irmãos de hoje e de sempre.

Sempre em caminho, olhemos para as mesas do quotidiano. Perguntemo-nos: o que nos incomoda hoje? O que nos move? Em que mesa está no nosso irmão? (cf. Gn 4, 9).

A Quaresma coloca sempre diante de nós três ações que são, por si mesmas, experiência de êxodo. Como diz o Santo Padre: “Oração, Esmola e Jejum não são três exercícios independentes, mas um único movimento de esvaziamento”. Este esvaziamento de tudo o que nos aprisiona, que nos pesa, liberta-nos e torna-nos companheiros de um mesmo caminho, participantes de uma mesma mesa: a vida.

Para a mesa da vida de muitos dos nossos, propomos o contributo penitencial para duas finalidades: o Fundo Partilhar com Esperança, que é um fundo arquidiocesano, sob administração da Vigararia Episcopal para o Desenvolvimento Humano Integral, para apoio de famílias carenciadas; e o apoio da equipa missionária que está ao serviço da Paróquia de Ocua, Diocese de Pemba. Esta partilha assume maior pertinência com estas palavras do Papa Francisco: “a forma sinodal da Igreja, que estamos a redescobrir e cultivar nestes anos, sugere que a Quaresma seja também tempo de decisões comunitárias, de pequenas e grandes opções contracorrente, capazes de modificar a vida quotidiana das pessoas e a vida de toda uma coletividade: os hábitos nas compras, o cuidado com a criação, a inclusão de quem não é visto ou é desprezado. Convido toda a comunidade cristã a fazer isto: oferecer aos seus fiéis momentos para repensarem os estilos de vida; reservar um tempo para verificarem a sua presença no território e o contributo que oferecem para o tornar melhor”.

No IV Domingo da Quaresma, dia 10 de março, Portugal está convocado para eleições legislativas. Como bons cidadãos e bons cristãos exerçamos o direito e o dever do voto na construção responsável do bem comum e na defesa e promoção da dignidade inalienável da pessoa humana.

Sempre em caminho, a “quaresmar”, pedimos a bênção de Deus para cada um de vós. Desejamos que todos, sentados à mesa do Senhor, a Eucaristia, saboreemos o Pão do Perdão, o Pão da Palavra e o Pão Eucarístico, para seguirmos testemunhando, com a máxima alegria interior, a Páscoa.

 

Cordialmente em Jesus Cristo nossa Páscoa

 

+ José Cordeiro

+ Delfim Gomes