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10 Jul 2022
Os mistérios no mistério de Cristo
Homilia na celebração da imposição do pálio
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Irmãos e irmãs,

Hoje, a celebração litúrgica reveste-se de um significado especial com a imposição do pálio. 

O pálio é uma tira de lã branca que recorda a ovelha perdida que Jesus procurou e que, depois de encontrar, colocou aos ombros. Mostra o suave e leve jugo evangélico da caridade e da solicitude pelo rebanho de Cristo imposto sobre os ombros. 

Conforme se disse no momento da imposição, a insígnia do pálio é sinal de serviço, do Evangelho ao Evangelho, dentro da Província Eclesiástica de Braga. É simultaneamente, «símbolo de unidade; garantia de comunhão com a Sé Apostólica; vínculo de caridade e estímulo de fortaleza» na apaixonante missão do Evangelho que salva.

A parábola desafiadora do Bom Samaritano, ao narrar os gestos de amor — «aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho» — salienta este desafio da grandeza da humildade: olhar, cuidar, acompanhar – para uma Igreja sinodal samaritana. Na verdade, há 10 ações dentro desta narrativa: ver, ter compaixão, tocar, derramar azeite e vinho, colocar o ferido na montada do seu animal, levar o ferido a uma pensão, cuidar dele, pegar em duas moedas, pagar ao dono da pensão. Por fim, recomendar aos cuidados do dono da pensão a vítima dos salteadores. 

Com efeito, Jesus elogiou um entendido na Lei, e, ao mesmo tempo, revelou-lhe o que lhe faltava: pôr em prática, «vai e faz tu o mesmo». Na evangelização, não basta saber e dizer, mas é necessário fazer a misericórdia como o Bom Samaritano.

1. Fazer sinodalidade

O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura!... Por isso, o renovado dinamismo do processo sinodal, pede uma conversão pessoal, pastoral e missionária. 

Importa esperar e continuar a sonhar em grande como nos pede o Papa Francisco: «sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto preservação». Aproximar é evangelizar.

A proximidade e a evangelização caminham juntas. Fazer a sinodalidade é ser Igreja. 

A palavra latina proximus (próximo) é um superlativo do termo prope, que significa perto, mais perto ou pertíssimo. Assim, próximo significa o mais perto. 

Como indica o vocábulo, esta proximidade não é apenas geográfica: de facto, passa gente junto do moribundo, mas ninguém o vê, ninguém se aproxima. A proximidade é essencialmente da compaixão, do sofrer com e pelo outro. O Evangelho convida à nova gramática da proximidade, de quem se deixa contagiar pela vida do outro. Assim, esta proximidade é também um paradigma da pastoral e da espiritualidade cristãs.

O Processo Sinodal que a Igreja está a viver passou, no dia 14 de junho, pela feliz assembleia sinodal que reuniu cerca de 300 pessoas. 

A síntese agora publicada, a 4 de julho, proveniente maioritariamente das paróquias, unidades pastorais e arciprestados, movimentos, departamentos e vida consagrada, mostra e reafirma que a sinodalidade é um ponto sem retorno. «A aposta na formação assume um carácter primordial e incontornável nos diferentes âmbitos de ação eclesial, de modo a que todos possam ter uma participação ativa, consciente e apaixonada na vida da Igreja» (3.2.1). «Por isso, a experiência dos grupos sinodais, com o método das rondas, onde todos são desafiados à escuta do Espírito Santo e dos demais irmãos, bem como a deixar a sua partilha e participação ativa deve ser estratégia e instrumento a preservar e potenciar para além deste processo sinodal em curso».

A próxima Assembleia Arquidiocesana está prevista para o dia 26 de novembro, o sábado anterior ao I Domingo do Advento, que será o início da Visita Pastoral à Arquidiocese, iniciando-se pelo Arciprestado de Amares, segundo o critério da ordem alfabética. Ainda em tempo de Advento visitarei também a Paróquia de Ócua na Diocese de Pemba, em Moçambique.

Com razão escreveu Santo Agostinho: «Admirável realidade é esta: Aquele que subiu acima de todos os Céus, está próximo dos que habitam na terra. Quem está longe e perto ao mesmo tempo, senão Aquele que por misericórdia Se tornou tão próximo de nós? Na verdade, todo o género humano está representado naquele homem que jazia meio-morto no caminho, abandonado pelos ladrões. Desprezaram-no, ao passar, o sacerdote e o levita; mas o samaritano, que também passava por ali, aproximou-se para o curar e socorrer. O Imortal e Justo, embora estivesse longe de nós, mortais e pecadores, desceu até nós, para ficar perto de nós quem antes estava longe». 

O Bom samaritano da Humanidade é Jesus Cristo!

 

2. Azeite da unção e vinho da consolação

A Sagrada Escritura refere inúmeras virtualidades do azeite, que vão desde aquelas litúrgicas às mais quotidianas, pois com o azeite se amassavam ou cobriam os holocaustos, mas também se temperava o pão da mesa familiar; o azeite da oliveira era derramado sobre a cabeça e as vestes como símbolo da purificação e do poder concedido, mas, aplicado sobre as feridas, mantinha um importante papel reparador.

O vinho, diziam os Padres da Igreja: «espremido de muitos bagos de uva e reunido num só líquido, significa também que o nosso rebanho é formado pela reunião duma multidão unida» (São Cipriano). O vinho é bebida festiva e traduz a alegria do coração e a vitalidade da amizade e da comunhão.

As mãos dos Presbíteros foram ungidas com o azeite perfumado, o bálsamo da unção, para a missão da alegria no serviço do Evangelho da Esperança. Contudo, a unção não significa que as mãos se tornem intocáveis, pelo contrário, são para se sujarem, servindo. Temos mesmo de as sujar para servir. Àqueles que não querem sujar as mãos na realidade do mundo e da Igreja, avisava Charles Péguy: «acabam rapidamente por ficar sem mãos». Por isso, dêmos as mãos, e mãos à obra

O cardeal Carlo Maria Martini, referindo-se a São Bartolomeu dos Mártires no seu livro O Bispo, escreveu: «Tudo o que respeita à autoridade é reconduzido ao pastor supremo, do qual os responsáveis são colaboradores. As virtudes indicadas são: disponibilidade, desinteresse, humildade, tornar-se modelos do rebanho. Este é o ponto de partida para aqueles que serão os grandes tratados acerca do exercício da autoridade na Igreja».

Na verdade, o nosso Santo Arcebispo durante a última sessão do Concílio de Trento comparou os males da Igreja a um osso deslocado que faz doer quando se leva ao sítio. Assim, a “Igreja da escuta” no processo sinodal em curso requer a consulta permanente ao Povo santo de Deus e o discernimento dos pastores.

3. Ad docendum Christi mysteria

Bispo ou epíiskopos aparece já 5 vezes no Novo Testamento (cf. At 20,28; Fl 1,1; 1Tm 3,2; Tt 1,7), com o sentido de “vigilante, estar atento, olhar à volta, guardião e visitador, apascentar, ter cuidado” da comunidade, aquele que superintende aos costumes e à vida da comunidade, não sendo uma vantagem pessoal, mas um serviço para o bem daqueles que lhe estão confiados e a quantos preside.

Antes de tudo, como declara São Bento na Regra: «Nada, absolutamente nada antepor a Cristo». Não antepor o urgente sobre o importante.  Tal ensinamento vital é reafirmado por Nicolau Cabasilas: «Só Ele, de facto, nos inicia nos mistérios e é os mistérios, também só Ele preserva em nós o dom que nos fez e nos dispõe a perseverar naquilo que recebemos, “porque – diz – sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5)».

A expressão «ad docendum christi mysteria», que escolhi como mote episcopal, revisita o texto Paulino «perseverai na oração e mantende-vos, por ela, em vigilante ação de graças. Ao mesmo tempo, orai também por nós, para que Deus abra uma porta à nossa pregação, a fim de que eu anuncie o mistério de Cristo» (Cl 4,2-3) e expressa a finalidade docente de ensinar ou mostrar os mistérios de Cristo.

Ad docendum christi mysteria evoca a missão que Jesus confiou nos apóstolos depois da ressurreição, aquando da sua ascensão ao céu, para ensinar tudo quanto Ele lhes ordenou e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo: «Jesus aproximou-Se e disse-lhes: “Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos mandei. Eu estou convosco até ao fim dos tempos”» (Mt 28, 18-20).  

4. Cantar a alegria do encontro

Existem três qualidades da vida cristã, fundadas na vontade de Deus em Jesus Cristo: a alegria, a oração e a ação de graças. «Sede sempre alegres. Orai sem cessar. Em tudo dai graças. Esta é, de facto, a vontade de Deus a vosso respeito em Jesus Cristo» (1Ts 5, 16-18). 

O convite a ser alegria evoca o “chaìre Mariam”, aquela saudação do Anjo Gabriel a Maria. Sê alegria!  O convite a rezar é mais do que rezar orações: é tornar-se lentamente uma oração vital transfigurada em liturgia da vida. O convite à ação de graças permanente é o desafio para a dinâmica do código do gratuito.

Muito bem-hajam pela vossa presença, proximidade, oração e amizade!

Caríssimos Irmãos e irmãs:

Núncio Apostólico e Legado do Papa Francisco para esta celebração;
Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa;
Bispos da Província Eclesiástica de Braga; 
Administrador Diocesano de Bragança-Miranda;
Presbíteros; Diáconos;
Autoridades autárquicas, civis, académicas, militares, forças de segurança;
Pessoas de vida Consagrada com vida contemplativa, ativa e missionária;
Membros dos organismos sinodais: Cabido e Colégio dos Consultores, Conselho Episcopal, Conselho Presbiteral, Conselho doas Arciprestes e Vice-Arciprestes, Conselho Pastoral, Conselho para os assuntos económicos;

Leitores, acólitos, catequistas, ministros extraordinários da comunhão, zeladores, sacristães, voluntários em tantos setores da vida das comunidades;
Membros das Irmandades, Confrarias, Ordens, Santas Casas da Misericórdia, Centros Sociais Paroquiais e outras Ipss’s canónicas;
Amigos jovens, nomeadamente os seminaristas;
Irmãos, familiares e amigos;

A todos os que sofrem: doentes e presos; idosos e sem abrigo; refugiados e desempregados ou sem dignidade no trabalho; sós e desanimados; vítimas de qualquer tipo de violência e vítimas de abuso sexual, de poder ou de consciência; vítimas de bullying;

Irmãos e irmãs, 

no passado dia 29 de junho, na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco, segundo uma bela tradição, benzeu os Pálios para os Arcebispos Metropolitas recém-nomeados e disse-nos com forte clarividência: «Em comunhão com Pedro, são chamados a “erguer-se depressa”, não dormir, para ser sentinelas vigilantes do rebanho. Levanta-te para “combater a boa batalha”, nunca sozinhos, mas com todo o santo Povo fiel de Deus. E como bons pastores devem estar à frente do povo, no meio do povo e atrás do povo, mas sempre com o santo povo fiel de Deus, porque fazem parte do santo povo fiel de Deus».

Assim seja na proximidade com Deus, com o Colégio episcopal na Conferência Episcopal Portuguesa e na Província Eclesiástica de Braga, com o Presbitério e com o santo Povo fiel de Deus.

«Abri os olhos do nosso coração às necessidades e sofrimentos dos irmãos; inspirai as nossas palavras e obras para confortarmos os que andam cansados e oprimidos; ensinai-nos a servi-los de coração sincero, segundo o exemplo e o mandamento de Cristo. Fazei que a vossa Igreja seja o testemunho vivo da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que, em todos os homens, se renove a esperança do mundo novo» (Oração Eucarística V-4).

Continuo a aprender Braga com a Virgem Santa Maria nos seus muitos santuários, peregrinações e no enorme tesouro da Piedade popular com o Povo Santo de Deus que peregrina no Minho. Também me acompanham os Santos Arcebispos (Martinho, Frutuosos e Bartolomeu), São José, São Bento, os nossos amigos em processo de canonização (Beata Alexandrina, Frei Bernardo de Vasconcelos e o P. Abílio Correia).

Juntos, sejamos Peregrinos da Esperança!

 

† José Cordeiro, Arcebispo Primaz

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