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22 Out 2021
Percorrer o caminho do Sínodo com S. Martinho
Homilia na Solenidade de S. Martinho de Dume
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  © Avelino Lima / DM

Ao celebrarmos a Solenidade de S. Martinho de Dume, Padroeiro Principal da Arquidiocese, estamos a reconhecer a sua grandiosidade na condução do povo de Deus num período de mudança histórica. O cristianismo cresce em Braga nos suportes canónicos romanos mas teve de se enfrentar com a nova cultura dos Suevos. Uma nova era e uma nova cultura. A fé necessitou de ser inculturada e de se apresentar como caminho para novos trilhos culturais. A figura de S. Martinho emerge como o paladino para novos tempos e novos desafios. Dizem os historiadores que “colocaram a luz deste santo no candelabro da Igreja”. A Igreja poderia estar nas trevas por tudo que foi destruído. Era necessário um novo rumo que S. Martinho protagonizou com a sua santidade e conhecimento das doutrinas sagradas.

Entre outras coisas, existia uma divisão civil imposta pelos romanos e tornou-se necessário individualizar um novo modo de estrutura orgânica capaz de evangelizar. A metrópole de Braga estendia-se a toda a nação sueva que compreendia a Galiza, as Astúrias e grande parte da Lusitânia. Inicialmente só uma metrópole com as dificuldades governativas inerentes. Há novas dioceses criadas e chega-se à erecção da metrópole de Lugo. De singular significado para o hoje da história foi que o trabalho foi concretizado sinodalmente na realização do primeiro Concílio Bracarense. Tudo foi discernido sem interesses impostos nem muito menos pretensões interesseiras. O bem do Povo de Deus emergiu desde o princípio fazendo com que muitas ideias se perdessem para a concórdia comum.

Se o trabalho do primeiro Concílio Bracarense decorreu neste espírito de unidade deveu-se à responsabilidade de cada um dos bispos presentes, mas particularmente da capacidade de condução no amor e no verdadeiro sentido de autoridade de S. Martinho de Dume. Este ano pedimos-lhe esta graça para que o Sínodo em movimento, não já como evento episcopal mas processo do Povo de Deus, faça com que nos consciencializemos que a organização eclesiástica terá de passar por um processo de profunda mudança. Sabemos que o Santo Padre não deseja que a prioridade esteja na organização. Ela é inevitável e necessitamos de nos abrir ao Espírito para o que possa pedir neste sentido.

Creio que temos uma estrutura orgânica muito pesada com coisas que complicam os processos de renovação. A Cristandade já não corresponde às aspirações nem responde às necessidades. Quantos problemas surgem pelo apego a estruturas anquilosadas e sem sentido. Mais interessante para a hora que vivemos foi o espírito do Segundo Concílio de Braga, 572. Vale a pena sublinhar, com o intuito de fixarmos e aprendermos, quanto S. Martinho disse no momento de abertura. “Cremos que por inspiração de Deus proveio isto, Santíssimos irmãos, que por ordem do gloriosíssimo rei, nosso filho, de ambas as Metrópoles nos ajuntarmos, não só para que mutuamente nos congratulássemos por nos vermos, mas para que entre todos confirmarmos acerca das coisas, que pertencem à ordenança e disciplina eclesiástica, por quanto está escrito no Evangelho: «Onde estiverem dois ou três congregados em meu nome ali estarei eu no meio deles». 

Creio que desta brevíssima saudação podemos extrair as condições indispensáveis para os bons frutos do Sínodo sobre a sinodalidade. Primeiro a certeza de que todos somos chamados por inspiração divina para nos ajuntarmos. Não são motivos humanos. Poderão existir – e devem existir – muitos a convidar para o encontro entre irmãos. O chamamento terá de ser sempre sobrenatural. Deus que chama, que inspira, que motiva. É hora de um chamamento universal à qual ninguém pode fugir. «Ajuntarmo-nos por inspiração divina.»”

Depois para que mutuamente nos congratulemos por nos vermos. Naquele tempo as deslocações eram poucas e os encontros esporádicos. Hoje temos muitos encontros, talvez demais. Mais sem nos vermos. Nas nossas preocupações, alegrias, dramas. Precisamos de olhar para Deus e ouvir o coração um dos outros. O sínodo não está a precisar de palavras. Necessita do que vibra no coração com alegria ou tristeza.

Depois de nos vermos no coração teremos de confirmar as coisas que deverão marcar a disciplina eclesiástica. Os pensamentos surgirão e irão determinar modos novos de interpretar o ser e o agir da Igreja. Mas tudo terá de ser confirmado, não importo previamente, sintonizado na concórdia não na tristeza de perder atitudes a que estávamos amarrados. Tudo isto, porque Ele está no meio de mais de dois reunidos no Seu nome.

Eis o caminho segundo S. Martinho para uma experiência sinodal capaz de descobrir o caminho da renovação.

- Participar por inspiração divina não simples vontade própria;
- Alegrar-se para se encontrarem no interior do coração e não nos sinais exteriores;
- Confirmar na concórdia entre todos e não apenas entre alguns o que é essencial;
- Tudo como experiência espiritual e mística de Cristo na comunidade.

O Arcebispo de Lugo, como segundo a intervir, torna-se também muito concreto e espiritual. Assegurou que todos devem ser concordes e sentindo o mesmo no Senhor, desejando que se produza aqui e se dê a conhecer quanto serve a nossa instrução.

- Todos devem ser concordes
- Sentir o mesmo
- Produzir aqui
- Que se dê a conhecer o que verdadeiramente interessa para a instrução. Tudo o que deverá ser produzido aqui, deve partir da concórdia de todos, de sentirem o mesmo para dar a conhecer a verdade que convém naquele momento de evangelização.

Não é o ambiente propício no âmbito de uma homilia dissecar cada um destes aspectos. Fundamental é reconhecer como a Igreja respondeu aos períodos controversos com esta metodologia do Espírito.

Comecei por referir que S. Martinho foi uma luz colocada no alqueire da Igreja no tempo dos Suevos. O Evangelho continua a ser o mesmo e a firmar a mesma coisa. Nem mundo desconexo e perdido na noite, nós somos a luz do mundo. Podemos imaginar que com a nossa história, com tudo quanto fomos construindo em património, com todas as estruturas e movimentos da qual dispomos estamos a iluminar a cidade dos homens. Pode custar-nos muito. Mas não estamos sós. Precisamos de retirar a luz colocada debaixo do alqueire da história para a colocar sobre o candelabro de novos circuitos e plataformas. Tudo exige muito trabalho. Só que a conversão dos suevos aconteceu através dos conventos que S. Martinho foi construindo. Hoje não os conhecemos. Ficaram situados em diversos lugares a mostrar vida de santidade e autenticidade. Tornaram-se os candelabros das aldeias e as luminárias dos caminhos dos homens.

Que nos toca hoje? Aceitar a graça do Sínodo não como trabalho académico, mas verdadeiro exercício espiritual. S. Paulo aos Colossenses afirmava: “E nós O anunciamos, advertindo todos os homens e instruindo-os em toda a sabedoria, a fim de os apresentarmos todos perfeitos em Cristo. É para isto que trabalho, combatendo com o apoio da Sua força, que atua em mim poderosamente.”

Qual o caminho? Combater com o apoio da força de Deus, entre nós, que actua em todos poderosamente.

Que S. Martinho nos acompanhe. 

 

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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