Arquidiocese de Braga -

2 fevereiro 2006

Evangelizar a Família

Default Image
Fotografia

Departamento da Pastoral Familiar

\nA evangelização, como é do conhecimento geral, pode manifestar se de várias maneiras: explícita (nomeadamente através de celebrações, esclarecimentos, orações, formações ou jornadas) ou implicitamente (designadamente através de relacionamentos e testemunhos que são portadores de valores; através das representações do que as pessoas assumem como imagens — numa dimensão simbólica; e através de julgamentos éticos e filtros interpretativos de que a família se serve, p. ex., face aos acontecimentos que a afectam de alguma forma). Não podemos de forma alguma olvidar o papel da educação nesse processo. A educação, assente na liberdade, no diálogo e no respeito, decorre dos valores, dos afectos, dos relacionamentos, dos juízos éticos, da estética e da arte, da formação da consciência crítica, das opções de vida, mas também do estilo de vida que adoptamos, ou seja, de questões tão práticas e prosaicas como os ritmos por que pautamos o descanso em família, as refeições, as festas, o diálogo, o consumo ou a gestão de bens. Como é do conhecimento geral, a família, instituição humana simultaneamente natural e cultural, segundo útero onde se conclui a gestação da identidade do ser humano, reveste se de múltiplos significados: instituição fundamental; fundamento da sociedade; escola do mais rico humanismo; causa e efeito da estrutura social; agente e caudal de cultura; espaço configurador da personalidade sócio cultural; suporte vital da sociedade; formadora de pessoas; educadora na fé; promotora do desenvolvimento; o lugar natural e o instrumento mais eficaz de humanização e de personalização da sociedade. Simplificando, a família é como um poço, querendo com isto dizer que quanto mais se aprofunda tanta mais água revela. Daí o tesouro inestimável que ela representa indiscutivelmente. A instituição familiar, marcada por uma história tão longa como a história da humanidade, tendo passado por diversas etapas, constituindo cada uma delas a resposta de uma instituição perene (e, ao mesmo tempo, mutável) aos desafios e oportunidades da cultura do momento, aparece normalmente associada a diversos modelos, dentre os quais destacamos o tradicional correspondente à chamada família pré-moderna ou extensa; o modelo nuclear relativo à família moderna e o modelo pós nuclear correlato da denominação de família pós moderna (ou família actual). Efectivamente, na cultura ocidental, os autores são unânimes em reconhecer dois grandes tipos de mudança: - A passagem do modelo de família tradicional ou família “extensa” ao modelo de família “nuclear” (o casal e os seus filhos e filhas), que resultou na redução do número de indivíduos do núcleo familiar e na reorganização das funções familiares, tendo em conta o trabalho da mulher fora de casa, com as suas derivações de independência e relação com as tarefas da casa e da educação dos filhos. - Nos nossos dias, fala se da transição da família “nuclear” para outro modelo de família que é frequentemente designada por «pós-moderna» ou «pós industrial» ou «pós nuclear» ou «actual» ou «contemporânea». Neste modelo, para além de se reorganizar as relações intra-familiares e as funções sociais, rompem se os esquemas no início, na estrutura e no final da instituição familiar. A família actual ou pós-moderna aparece, regra geral, como uma família «descomposta» ou melhor, composta de «muitos modos». Esta família pós-moderna surge como família incerta (uma vez que, desinstitucionalizada, não se materializa num só modelo, encontrando se aberta a diversas formas de convivência ou de agregação humana); família auto poiética (já que a família actual auto constituiu se e auto reproduz se de acordo com a liberdade dos indivíduos que decidem a forma de iniciar, o modo de continuar e as condições de finalizar a experiência familiar, sendo que a privacidade, o sentimento e a liberdade prevalecem sobre o domínio público, a racionalidade, o estabelecido); família relacional (dado que a família actual se constitui, antes de tudo mediante as relações interpessoais, erigindo se como o espaço onde as pessoas comunicam e o lugar gerador de pessoas em relação); família mediadora (pois, se a família tradicional tinha uma função primordial na organização social e a família nuclear deixa de organizar a vida social, a pós-moderna tende a re institucionalizar se na esfera pública, apesar de se desinstitucionalizar na esfera privada); família individualizada (porque adaptada a uma nova cultura da individualidade e à sociedade de indivíduos que se rege pelo princípio da auto realização, sobretudo no feminino, o que ainda não se verificava na família nuclear). De tudo isto se pode inferir que a família actual pós moderna é uma instituição frágil. Mas, talvez por isso mesmo, é uma instituição com grandes funcionalidades para a felicidade das pessoas e para o bem estar da sociedade. O que na família actual parece «debilidade» (num enfoque institucionalizador) converte se na sua «força» (se se perspectiva a partir do interesse das pessoas). Neste paradigma em construção, as relações familiares ganham um sentido mais igualitário, por diminuição do machismo e pela forte ascensão do papel da mulher. Concomitantemente, há uma atitude emancipatória da mulher e dos filhos, que se expressa numa consciência mais democrática na família, favorecida pelo desaparecimento do patriarcalismo e pela aceitação do papel social da mulher e dos direitos dos filhos na família. No plano real, há quem denuncie que se a cultura familiar é pós moderna, a vida familiar real é claramente moderna, existindo, pois, um fosso entre os valores e normas ideais e a dinâmica real das famílias. A título de exemplo, veja se o caso da mulher que trabalha fora mas não beneficiou de uma redefinição da tradicional divisão do trabalho doméstico, nitidamente assimétrica. Esse desfasamento é gerador de uma menor satisfação com a vida familiar. Todavia, do que foi dito, não se pode de forma alguma inferir que a instituição familiar corra o risco de extinção, já que ao longo da história ficou bem provada a sua relevância para satisfazer necessidades básicas, quer individuais quer sociais, além do que a família se caracteriza pela sua capacidade de se ajustar às condições mais flutuantes. A família não é unicamente especialista no cumprimento de algumas funções essenciais, mas também em sobreviver, em adaptar se. O modelo actual não passa, portanto, de uma reestruturação funcionalmente adaptativa. A individualização na família actual desloca a ênfase para valores como a igualdade, a participação, a corresponsabilidade, a tolerância, o respeito pela intimidade, a privacidade. Tudo isto se traduz numa redefinição dos papéis familiares e na reorganização das relações intra-familiares. Do que foi dito, por um lado, fica a certeza da importância de um discernimento ético e de valores para reorientar as novas situações do casal e da família no momento actual. Por outro lado, a família transmite o Evangelho, torna se itinerário de fé, área de iniciação, escola de seguimento e evangelização viva. Esta evangelização iniciadora e integral, no itinerário da vida familiar, realiza se através de vários meios, sacramentos, acontecimentos, atitudes e gestos. Esta educação na fé, partindo e centrando se na palavra de Deus, deverá ter em conta a variedade de acessos, de comunicação e de encontro com Deus pelas palavras. Indo ao encontro do Plano Pastoral Arquidiocesano para o triénio 2005/2008, é necessário apostar na evangelização da família como prioridade pastoral e de encontrar diferentes maneiras de a formular e de a concretizar. Podemos destacar algumas formas de evangelizar: - Pela proclamação, não se circunscrevendo às ocasiões públicas, durante a eucaristia ou na catequese, podendo ter lugar no diálogo fraterno, cordial e amigo, em casa durante as refeições, em conversas de mesa ou de café, em contactos de rua, em encontros de amigos, em reuniões de família. A palavra do Evangelho pode quiçá esclarecer uma situação dolorosa, despoletar o discernimento, rasgar veredas para se encontrar soluções para os problemas, corrigir atitudes, orientar ou consolar o nosso próximo, a nossa família. - Por convocação, pelo convite a participar na eucaristia, numa festa, numa qualquer iniciativa da comunidade. Neste sentido, que os filhos acompanhem os pais ou os avós, p. ex. em celebrações. - Por atracção, através do nosso testemunho positivo, do modo saudável e feliz como vivemos, dos nossos gestos convictos, da forma empenhada como dinamizamos a vida paroquial. - Por irradiação ou por contágio, através do nosso comportamento. Uma fé feliz facilmente se espraia na nossa família, na nossa comunidade. - Por levedura, paulatinamente, subtilmente, como a acção do fermento. Através de uma conduta evangélica exemplar ir mudando mentalidades, atitudes, numa escola, numa instituição, no local de trabalho, em casa. - Por provocação, assumindo corajosamente a diferença que nos distingue como cristãos, no seio da cultura dominante. Por exemplo, dedicando algum tempo à oração integrando a nos ritmos quotidianos, numa fidelização férrea e convicta; dedicando algum tempo ao voluntariado num mundo pautado pelo dinheiro e pelo lucro, mostrando p. ex. aos mais jovens que não se trata de perder tempo mas de o rentabilizar; partilhando os bens espirituais e materiais com alegria e simplicidade contrariando a cultura do individualismo; perdoando as ofensas recebidas (num mundo que exorta a retaliações ou vinganças); acolher, atender e tratar, com especial atenção e carinho, os mais pequenos, os mais fracos, os mais humildes, os mais pobres, dando o primeiro lugar aos últimos da sociedade (subvertendo a lógica do mais forte); cultivando o amor e o gosto pela vida e educando para a felicidade (num mundo que privilegia a cultura da morte e da violência); assumindo pessoalmente a responsabilidade, o pecado e a culpa quando se erra e se falha (num mundo onde a culpa morre solteira e, obliterando a noção de pecado, toda a gente se permite pecar prejudicando os outros sem escrúpulos e impunemente); cultivando a meditação e o silêncio (num mundo onde impera o ruído e a agitação); apreciando uma vida simples e saudável (num mundo escravizado por consumismos e por fast-food literal e relacional); numa palavra, evangelizar provocando por um estilo de vida cristão, visando a felicidade. Em suma, o papel da família enquanto âmbito de evangelização é de uma importância crucial. É sobretudo um desafio à família humana actual, que, estando ainda em construção, às voltas com as suas contradições, aspirações e esperanças, precisa dessa mesma evangelização para se entender a si mesma e se estruturar, assente em alicerces de felicidade. Dra. Helena Guimarães Departamento Arquidiocesano de Pastoral Familiar