Arquidiocese de Braga -
5 agosto 2021
Um grito de angústia por Cabo Delgado
Manuel Valentim Razão
Manuel Valentim Razão, seminarista da Diocese de Pemba a estudar no Seminário Conciliar de Braga
Já lá vão quase cinco anos que a Província de Cabo Delgado, situada no norte de Moçambique, é vítima da violência de uma guerra, motivada pela ganância, obrigando a população a deslocar-se continuamente das suas vidas. O povo vive aterrorizado e em profundo sofrimento. Lamento profundamente a prevalência do drama em Cabo Delgado, cujo povo é humilde e vive com pouca segurança. Homens, mulheres, jovens e crianças vivem sem esperança, enfrentando um futuro incerto e pouco promissor. Desde que se ouviu o primeiro tiro no distrito de Mocímboa da Praia, a população de Cabo Delgado tem vivido atormentada pela presença dos terroristas que violam continuamente os direitos dos Homens. Apesar do povo nunca se ter cansado de gritar, o seu clamor não é escutado e apenas serve para mostrar o desespero e os lamentos daqueles que se sentem abandonados. Mas este povo humilde e na sua pobreza não desiste e continua a gritar desesperadamente para se fazer ouvir por aqueles que têm o dever e a responsabilidade de o tirar deste sofrimento, pedindo-lhes que encontrem soluções seguras que lhe permitam reconquistar a paz e o bem-estar.
Atualmente, o norte de Moçambique morre de sofrimento, de fome, de guerra e de muitas doenças. Há muitos cadáveres espalhados pelo mato que nem têm direito a um funeral digno, pois, com medo dos homens armados, os seus familiares nem se atrevem a recolhê-los. Alerto para estes atos desumanos que se praticam nas terras de Pemba, em que as vítimas de guerra dormem aglomeradas em tendas de palha, às vezes sem direito a uma refeição por dia. Para além disto tudo, Pemba apresenta um número elevado de analfabetismo, com casamentos prematuros e maternidade precoce.
Peço ajuda para o drama de Cabo Delgado, pois, enquanto outras pessoas neste país, ou no resto do mundo, dançam, cultivam a terra, vão à escola e gozam os seus direitos, este povo morre sem conhecer o verdadeiro sentido da paz e, muito menos, os seus direitos. É realmente doloroso e triste este cenário, pois somos um só país e todos temos os mesmos direitos.
Estendo o meu grito relembrando a coragem e a firmeza de 50 jovens e crianças que foram sequestrados e mortas na Província de Cabo Delgado, no ano de 2020, por se terem recusado a passar para a fileira dos malfeitores. Estes, e outros que morreram sozinhos, sem terem ninguém que os assistisse, deveriam para sempre ser recordados como heróis e mártires de Pemba, pois tiveram a valentia de resistir àqueles que praticam atos tão desprezíveis e macabros. Arde um fogo de revolta, de sofrimento e de dor na alma do povo de Pemba e de todos os que condenam todos atos barbáries cometidos.
Artigo publicado no Jornal Diário do Minho de 05 de agosto de 2021.
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